Entenda o que é o lipedema e por que a doença ainda é confundida com obesidade
Especialista explica sintomas, causas e formas de tratamento da condição crônica
Reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde apenas em 2019, o lipedema é uma condição crônica e inflamatória que afeta o tecido adiposo, atingindo principalmente mulheres. Em 2022, o problema foi incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), reforçando sua relevância clínica.
Para esclarecer dúvidas sobre o tema, o Portal Revide conversou com o médico Edwaldo Edner Joviliano, chefe do Serviço de Cirurgia Vascular e Endovascular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP-USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).
Segundo o especialista, o lipedema é caracterizado pelo acúmulo anormal e desproporcional de gordura, principalmente em pernas, coxas e quadris — podendo também atingir os braços. “Diferente da gordura comum, esse tecido tem aspecto nodular, com pequenos caroços sob a pele, e costuma ser doloroso ao toque”, explica.
Embora não haja uma causa única definida, há forte influência genética: entre 20% e 60% das pacientes relatam histórico familiar. Além disso, o surgimento ou agravamento da doença está associado a alterações hormonais, sendo comum em fases como puberdade, gestação e menopausa.
Confusão com obesidade
A semelhança visual faz com que o lipedema seja frequentemente confundido com obesidade, mas as condições são distintas. Enquanto a obesidade provoca ganho de peso de forma mais uniforme pelo corpo, o lipedema concentra gordura nos membros, criando desproporção em relação ao tronco.
Outro sinal característico é a preservação de mãos e pés, formando um efeito de “pulseira” nos tornozelos e punhos. Além disso, dor, sensibilidade ao toque e facilidade para hematomas são comuns no lipedema — sintomas ausentes na obesidade.
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Característica |
Lipedema |
Obesidade |
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Distribuição da gordura |
Desproporcional (foco em pernas/braços) |
Global (foco em tronco/abdômen) |
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Mãos e pés |
Poupados (sem acúmulo de gordura) |
Afetados |
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Dor e sensibilidade |
Frequente e característica |
Ausente |
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Hematomas |
Frequentes e fáceis |
Raros |
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Resposta a dieta/exercício |
Muito baixa (gordura resistente) |
Alta (perda de peso global) |
Diagnóstico tardio
Por décadas, o lipedema foi diagnosticado de forma equivocada como obesidade, linfedema ou problemas circulatórios, o que contribuiu para a subnotificação dos casos.
“Isso fez com que muitas mulheres passassem anos sem diagnóstico correto, frequentemente sendo responsabilizadas pela dificuldade em perder peso”, afirma Joviliano.
No Brasil, a estimativa é que cerca de 12,3% das mulheres sejam afetadas pela doença. Recentemente, a SBACV publicou o Consenso Brasileiro sobre Lipedema, com diretrizes para diagnóstico e tratamento.
Tratamento e qualidade de vida
Sem cura, o tratamento do lipedema é voltado ao controle dos sintomas e à melhora da qualidade de vida, com abordagem multidisciplinar.
Entre as medidas indicadas estão alimentação orientada, prática de exercícios de baixo impacto — como natação e hidroginástica —, uso de meias de compressão e drenagem linfática especializada.
Em casos mais avançados, pode ser indicada a lipoaspiração específica para remoção da gordura afetada, realizada por profissionais especializados.
O médico ressalta que o acompanhamento psicológico também é fundamental. “A dor crônica, a limitação física e a insatisfação com a imagem corporal podem levar a ansiedade e isolamento social”, conclui.
Foto: Ilustração/Canva