
“Minha terapeuta me fez montar uma tabela de metas para 2010. Dentre elas abandonar o meu marido que estava me deixando triste*”
“Cheguei até aqui porque não aguento mais psicólogos me dizendo o que devo fazer*”
* Relatos de alguns fragmentos de meus casos clínicos devidamente modificados em sua forma, mas não o conteúdo, para preservar a privacidade dos pacientes
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Praticamente copiei o titulo do texto que meu colega e quase xará Fernando Ferreira Fernandes traduziu do New York Times, mas com uma pequena mudança. As reticências indicam que a terapia, na visão de um psicanalista, pode ser (ou não) um processo contínuo e longo (a psicanálise é também chamada de “psicoterapia dinâmica de longa duração”).
O verdadeiro autor do texto “In Therapy Forever? Enough Already” é Jonathan Alpert, um psicoterapeuta nova-iorquino (desculpe a sinceridade e certa ironia, cujo site pessoal mais parece uma loja de departamentos... com escritos garrafais COMPRE O LIVRO!). Vou escrever este texto sem ironias e como se estivesse conversando com o Fernando mesmo. Não espero criar nenhum tipo de embate, pois psicanalistas e cognitivos/comportamentais concebem diferentemente o ser humano e vejo as TCCs como ferramentas bastante úteis em alguns casos. Admiro e respeito Frederic Skinner e Aarom Beck.
Na fila do supermercado somos forçados a observar vários produtos, em estantes estrategicamente colocadas, geralmente dirigidas às crianças. Entre salgadinhos, balas e outras porcarias a maior porcaria que vi nos últimos tempos: a revista Veja de 25 de abril de 2012.
Uma capa com fundo amarelado mostra um sujeito alto, magro, com cara de foto do facebook, vestido com um terno alinhado e discreto. Ao lado um sujeito gordo, baixinho com cara de zangado em uma expressão que demonstra ódio ou inveja do magrelo bonito ao lado. Seu terno é ridículo. E a chamada em vermelho e caixa alta: “DO ALTO TUDO É MELHOR”.
Como não poderia deixar de ser, justificando a chamada idiota, uma ciência igualmente idiota para justificar: “A evolução tecnofísica explica porque as pessoas mais altas são mais saudáveis e tendem a ser mais bem sucedidas”
Há um tempo fiz promessa de que nunca mais compraria a revista Veja e mantive essa promessa. Vou me limitar apenas à capa desta revista.
Acabei de ver uma entrevista pela EPTV. A Profa. Dra. Bianca Cristina Correa do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da USP-RP saiu-se muito bem. Informou que não há relação direta entre violência dos games e a prática de violência das crianças que jogam. Em pouco tempo - e bastante pressionada pela repórter em dar dicas infalíveis de como educar - a professora foi muito esclarecedora e profissional.
Um dos pontos marcantes dessa preocupação da sociedade em tentar esclarecer o comportamento violento dos seres humanos é a ingenuidade e a crença de que há uma remédio ou de que há um método para curar os humanos de certos comportamentos destrutivos. A repórter insistia para que a professora desse dicas objetivas para que os pais (espectadores ávidos pela tutela da ciência) tivessem sucesso na criação dos seus filhos. A professora respondeu bem: os pais precisam garantir que as crianças brinquem com outras e apontou também que elas sabem que os games são apenas... games e que a realidade é bem diferente e alfinetou que muitos pais utilizam esses recursos eletrônicos (TV, games, etc.) como babás eletrônicas. Corretíssimo!
O LEITOR PERGUNTA...
Olá, sou estudante e atualmente curso o terceiro ano do ensino médio. Ao término desse ano, irei prestar vestibular para Psicologia, pois tenho grande interesse nessa área e, meu objetivo para o futuro é ter uma clínica onde eu possa atuar. Porém, tenho uma grande dúvida e até agora, não consegui encontrar ninguém que a esclarecesse. Então, sei que para atuar como psicólogo clínico é preciso ter a graduação e ter uma especialização, portanto, gostaria de saber se psicanálise é uma dessas especializações ou se é uma área independente. E se for, qual é a diferença entre o Psicólogo clínico e o Psicanalista?
(texto enviado pelo leitor, sem modificações)

O que segue diz respeito a um comentário bastante longo de um leitor. Resolvi responder em partes. Trata-se da temática da formação em psicanálise e a qualidade dos profissionais. As colocações do leitor estão em itálico, entre aspas e sem alterações de conteúdo.
“Fui analisado durante muito tempo, ficando bastante frustrado com o que encontrei: pseudo-terapeutas que nada sabem de psicologia, psicanálise ou que que quer que seja, porque para abrir um consultório de psicanálise não é preciso ter estudado tanto assim. Aliás, cheguei a conhecer “analistas” que mal leram Freud, o que não os impediu de sair por aí analisando os outros. Quanto às minhas sessões, consistiam em observar um sujeito olhando para minha cara sem dizer nada e cobrando caríssimo.Aliás, desde o tempo de Freud se entende que para ser analista basta ter passado por análise didática, pouco importando se a pessoa que vier a abrir um consultório tenha conhecimentos mínimos de psicologia, de medicina ou de qualquer outra coisa.”
R: Concordo com você. Como em qualquer outra profissão há variação grande em termos da qualidade dos profissionais. Em qualquer curso profissionalizante ou de graduação não se garante 100% a qualidade dos profissionais. Isso é um problema que se tenta resolver por meio de processo seletivo, avaliações e supervisões. No caso da psicanálise - pelo menos a psicanálise que eu conheço - isso é feito de maneira séria. Mesmo em um curso de medicina de universidades públicas que são bastante concorridos e controlados por órgãos federais e estaduais, há uma variação normal da qualidade, empenho e caráter dos profissionais formados.
O leitor comenta
Já “enfrentei” sessões de psicanálise e, pelo menos para mim, não fizeram o menor sentido; em certos momentos fiquei até embaraçado com a forma como elas são conduzidas. Mesmo já sabendo o que esperar resolvi dar uma chance ao tratamento relatando os problemas mais íntimos que me afligiam. Porém, por mais que tenha aberto minha mente, meu ceticismo acabou se confirmando. Sinceramente, não vejo motivo para acreditar que uma pessoa vindo cheia porquês e palavras de incentivo moral seria melhor do que eu para resolver meus próprios problemas. Deu para perceber que muito do efeito da psicoanálise tem haver com a ideia de que no fundo sabemos as respostas para nossos problemas, mas precisamos ouvir elas da boca de outra pessoa para realmente nos identificarmos com elas. Por sorte, existem os medicamentos, que são fruto de um verdadeiro processo científico e que ajudaram a me tirar de onde eu estava.
(texto enviado pelo leitor, sem modificações)

Uma das grandes questões modernas é a violência. Um sentimento de insegurança toma os moradores de pequenas e grandes cidades porque o processo civilizatório falhou ao tentar dominar os impulsos agressivos que um homem tem frente ao outro.
Afinal, o homem tem um lobo interno que deseja devorar o próximo ou é naturalmente bom sendo depois corrompido pela desigualdade das condições sociais?
Nem um nem outro.
A psicanálise, tanto em sua teoria como na prática clínica, visa a análise e “solução” de conflitos. Conflitos são lutas internas entre dois ou mais pensamentos, ideias ou desejos. Neste sentido vejo que “um certo lobo” e “um certo cordeiro” que nos habitam lutam diariamente, medem forças. Ocasionalmente um ganha do outro.
Muita se fala no politicamente correto ou, como diz Luiz Felipe Pondé, o totalitarismo do bem. O autor explica esta condição como se tivéssemos um sentimento fixado, neurótico de que “o mundo seria muito melhor se todos fossem iguais a mim”. Essa é a missão do chefe (ou estado) totalitário: visa uniformizar tudo a sua frente tendo como modelo de máxima perfeição um fantasma narcísico, uma fantasia egocêntrica que diz respeito ao seu próprio umbigo. Então chefes de estado vão proibindo, cerceando cada vez mais a liberdade individual, para garantir a sobrevivência de seus súditos e para controlar destinos, atitudes e pensamentos. O pensamento totalitário visa controlar tudo a sua volta e por isso uniformiza tudo que lhe é estranho ou diferente.
Na raiz desse pensamento ou sentimento totalitário e violento, está a mais profunda impotência. Podemos falar agora de uma simples briga de trânsito (que expressa muito bem o comportamento explosivo e violento, muito comum hoje em dia). Você está no transito e sente-se como uma hemácia perdida, sozinha no meio de um fluxo sanguíneo intenso. Carros passam, buzinam, motos cortam por todos os lados... há nesse momento um sentimento de profunda impotência em torno de todos esses elementos incontroláveis. Frente à essa realidade aparentemente caótica surge uma ideia ou um pensamento em resposta à isso: a violência. Então, você percebe que se der um soco na cara de tal motoqueiro pode resolver a situação. Em outras palavras, sente que se atuar de forma contundente na realidade, pode por fim à esse sentimento angustiante de impotência. Em suma, sempre que você sente necessidade de agredir algo ou alguém, perceba que há latente, escondida, uma angustia frente à algum tipo de impotência. Lembro-me de mais um exemplo: um pai cansado de birras e desobediências do filho pequeno resolve gritar e dar umas palmadas. Isso é típico.
Como resultado desse desejo violento de uniformização, governos vão cada vez mais controlando tudo a sua volta: as matas, os animais, os humanos (que também, ironicamente, desejam ser controlados). Inevitavelmente a ciência passa a se constituir como os andaimes da construção de uma humanidade melhor, mais consciente e mais feliz. Termino citando Pondé: “Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor”.