Depressão e a psiquiatria fácil da Revista Veja

Depressão e a psiquiatria fácil da Revista Veja

Nesta semana, a Revista Veja nos oferece mais uma provocação em sua capa. Vejo desta forma, pois levar à sério tal chamada na capa não dá ("Depressão: A promessa da cura. A cetamina é a primeira esperança de tratamento eficaz da doença que afeta 40 milhões de Brasileiros"). Mas porque vejo como provocação?

Primeiro, a cetamina não corresponde à “primeira esperança” no que se diz respeito ao tratamento da depressão, pois todo medicamento psicotrópico lançado corresponde à uma esperança de se curar uma psicopatologia  - que em muitos casos é a mesma correspondente a se enxugar gelo. Segundo, a depressão tem sim um aspecto fundamentalmente bioquímico mas desprezar a dimensão psicológica é recorrer em um erro desastroso.

O diagnóstico e tratamento das psicopatologias, como as depressões e as ansiedades, sofrem profundo viés histórico e político e não deve ser considerado definitivo. Por exemplo, temos alguns diagnósticos que foram utilizados por um bom tempo e que caíram em desuso como o “Railway Spine” (espinha da estrada de ferro) por John Eric Erichsen em 1867, que era o diagnóstico dado à pessoas que reclamavam por ter andado de trem mas que não tinham nenhum tipo de traumatismo observável. Os médicos da época chegaram a conclusão de que o movimento brusco dos trens, que eram bastante desconfortáveis, produziam micro lesões na espinha e no cérebro que ocasionavam um estado de desconforto mental. A Draptomania, descrita pelo medico americano Samuel A. Cartwright em 1851, é a mais curiosa. Tratava-se de um desejo incontrolável que os escravos americanos tinham de fugir e viver em liberdade. Sim, isso era uma doença mental. E como todo bom médico, ele oferecia a cura. A cura era chicotear o escravo para liberá-los desse desejo demoníaco de fuga (portanto, quando você, vê na televisão cenas de escravos sendo chicoteados saiba que esse processo tinha comprovação científica). Além disso, se o chicote não resolvesse, era bom que se retirasse os dedões dos pés como terapia definitiva.

A própria homossexualidade, passou a ser considerada doença no século XIX e deixa de ser considerada psicopatologia em 1974, por pressão popular dos movimentos gays, em uma das votações da Associação Psiquiátrica Americana, que decide o que é ou não é psicopatologia até os dias de hoje. Nessa lista temos também a Histeria Clássica descrita exaustivamente por Sigmund Freud e as Personalidades Múltiplas, uma doença típica americana. Ambas caíram em desuso.

Em 1980 DSM III (manual que, infelizmente se transformou a bíblia da psiquiatria moderna no mundo) sofreu uma mudança importante. O sintoma psicológico para os psiquiatras era tratado como simbólico, como uma aviso do próprio corpo que indicava algum conflito que deveria ser resolvido. Essa postura sofre evidentemente influência da psicanálise de Freud, da Fenomenologia (que trata-se da experiência individual do sujeito) e por não se ter até o momento técnicas e tratamentos biológicos (farmacológicos) minimamente eficazes. A clorpromazina, sintetizada em 1950, é a primeira droga antipsicótica clássica ou típica, sendo protótipo no tratamento de pacientes esquizofrênicos. A droga diminuía os sintomas sem produzir sonolência e prostração. Isso revolucionou (para o bem ou para o mal) a questão de como os profissionais da saúde observam o sofrimento mental. Além disso, muda também a relação do paciente, ou seja, da sociedade, com as psicopatologias. Se no inicio da psicofarmacologia (anos 50 ou 60) as pessoas de certo modo escondiam que tomavam certos medicamentos psiquiátricos (e nesse sentido temos muita propaganda feita sobre esses medicamentos), hoje tomar um medicamento dessa espécie é comum e até desejável.

A psicofarmacologia torna-se então um dos ramos mais lucrativos da economia impactando severamente a psiquiatria e impactando como nós entediamos o sofrimento metal. A psiquiatria que nas décadas de 60 e 70 passava por um profunda crise de confiabilidade, se apega na nova esperança dos tratamentos exclusivamente psicofarmacológicos. E assim, há uma mudança drástica no paradigma das doenças mentais no mundo todo, e se exclui quase por completo a influência da psicanálise freudiana e da fenomenologia. 

Há portanto na classificação psicopatológica interesses financeiros enormes das companhias de seguros, sistema público de saúde e da indústria farmacêutica e também interesses em se manter uma ideia de normalidade psíquica que tem relação intima com a obrigação de sermos felizes e potentes em termos de desejarmos consumir e trabalhar mais e mais e, portanto, produzir adequadamente em um sistema capitalista dependente do tal “capital humano”.

Já vi inúmeras vezes a Revista Veja tentar criar um “frenesi” em torno de alimentos e comportamentos, estampando em suas capas o que pode ou o que não pode, o que a ciência permite ou não. Mas no caso da depressão, ou qualquer outra psicopatologia, essas capas sensacionalistas podem produzir um efeito idiotizador sobre as pessoas. Falar que a depressão tem cura com um simples remédio é recusar que todo ser humano tem uma história e conflitos importantes e, afirmar que nós “podemos” e “devemos” ser felizes independente da nossa vida cotidiana ser um miséria completa.    

 

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