Na Melhor Fase!
Soninha, "feliz", no jardim de sua casa: sozinha, mas não solitária

Na Melhor Fase!

É como se sente atualmente a relações públicas Sônia Maggiotto, que aos 59 anos assume-se yogaterapeuta e terapeuta ayurvédica sem abrir mão de nada do que foi e é

O nascimento em 22 de junho de 1966 faria dela uma nativa de câncer pelo horóscopo ocidental. Mas a relações públicas Sônia Maggiotto, que está em transição de carreira aos 59 anos de idade, segue a astrologia védica, que a considera de peixes – ambos signos de água, que atribuem ao menos duas características em comum a seus nativos: sensibilidade e intuição. Soninha, como é chamada pelos mais chegados, tem as duas de sobra, mas também outras atribuídas a um e a outro signo: de câncer, a natureza cuidadosa com os que ama; e de peixes, a profundidade espiritual e os dons acadêmicos.

 

Só para seguir uma ordem minimamente cronológica, abordemos primeiros os dons acadêmicos, que podem ser traduzidos como a sede de conhecimento que a move desde seu nascimento, na pequena Ribeirão Pires (SP). Do Ensino Fundamental cumprido na cidade natal, passando pelo Médio, em Santo André (SP), sem se esgotar na graduação em Relações Públicas pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP, em 1988), Sônia sempre quis estudar a fundo todos os assuntos. Continuou assim desde seu primeiro emprego em uma multinacional – considerada a maior empresa de relações públicas do mundo –, da qual se desligou ainda em licença-maternidade do primeiro filho, Leo, para mudar-se para Ribeirão Preto.

 

Por aqui, Sônia e seu marido à época, o jornalista Gustavo Junqueira, foram contratados por Fernando Brizola, na primeira assessoria de relações públicas da cidade – Imagem –, mas “descontratados” meses depois, quando o Plano Collor descapitalizou empresas por todo o país. Gustavo logo conseguiu outra colocação na Usina Zanini, e Sônia passou a atender clientes de relações públicas. Foi o que precipitou, pouco tempo depois, a criação de outra das pioneiras assessorias de imprensa e relações públicas de Ribeirão Preto, pela dupla: a Conceito Comunicação.

 

Pelos 30 anos seguintes, Sônia nunca parou de buscar atualizações nas áreas de atuação da assessoria. “Sempre olhei muito para a questão técnica e busquei cursos. Fiz pós-graduação em Marketing e ia atrás de tudo o que era congresso de comunicação, relações públicas, comunicação interna, etc. E trazia tudo para a empresa”, conta. Ao longo desse mesmo tempo, nasceu o segundo filho, Luís Paulo (em 1996), e a Conceito foi crescendo em clientes, sócios e prestígio. Hoje funciona em sede própria, em edifício empresarial da avenida Presidente Vargas. “Sempre trabalhamos a Conceito de forma muito profissional e o sucesso está aí. Fizemos tudo muito direitinho, com planejamento estratégico, missão, visão e valores”, comenta.

 


"Tudo o que preciso fazer na minha vida tem que ser bem feito. Mas estudar só,
para mim, é pouco. Também quero compartilhar o que estou aprendendo”


 

Soninha não está mais na linha de frente dos atendimentos na assessoria. Participa ainda de reuniões estratégicas e apoia a parte do financeiro, mas suas ocupações principais, agora, são a yogaterapia e a terapia ayurveda. “Passei o bastão para as pessoas mais novas, que estão mais atualizadas, mas não consigo sair de lá, porque a gente não deixa de saber o que sabe. Muitas vezes, a pessoa fala que fez transição de carreira e esquece seu passado. Não é para esquecer. Se alguém me pedir um planejamento estratégico de comunicação agora, vou fazer um muito bom. A pessoa não deixa de ser quem era porque mudou de profissão. Só está acrescentando”, frisa.

 

TRANSIÇÕES

A semente das transições protagonizadas por Soninha foram plantadas por volta de seus 30 anos de idade. Na época, com filho pequeno para cuidar, empresa a tocar e uma asma tardia, sentiu necessidade de uma prática que a ajudasse a lidar com o estresse de conciliar tudo. Encontrou o yoga. Encantada com os resultados – muito rápidos por sinal – não se contentaria por muito tempo em apenas ter aulas, e este foi o ponto em que aquela sede conhecimento encontrou sua busca latente por profundidade espiritual: em 2012, iniciaria formações em yoga, no Brasil e na Índia.

 

Em 2019, foi passar dez dias em um Ashram (local de reunião para práticas espirituais) brasileiro para um programa de desintoxicação, chamado Panchakarma, e conheceu a ayurveda. “Fui sem nenhuma doença, em busca de rejuvenescimento celular, e isso transformou a minha vida!”, lembra Sônia, que em 2020 começou a estudá-la. Seguiram-se novas temporadas na Índia – ao todo, foram seis até agora, em 2013, 2015, 2018, 2019, 2022 e 2024 – para cursos e até um estágio em clínica ayurvédica de um médico indiano, que foi professor no Brasil. “Fui estudar um pouco de sânscrito para conseguir chegar mais perto da ayurveda e ainda estudo mantras. Sou muito ‘Caxias’. Tudo o que preciso fazer na minha vida tem que ser bem feito. Mas estudar só, para mim, é pouco. Também quero compartilhar o que estou aprendendo”, diz Sônia, já entregando o que motivou todas as transições.

 

Atualmente, ela faz especialização em “Ayurveda na Saúde da Mulher e da Criança”, que concilia com aulas de yoga – agora como professora –, atendimentos em terapia ayurvédica e a atuação mais reduzida na Conceito. “Digo que a Conceito é como uma filha. Tem muito da minha alma lá e muito da Conceito na minha alma. É muito mais que um trabalho”, declara.

 

AQUELA NATUREZA CUIDADORA

 

Uma das missões assumidas por Soninha, quando exclusiva na Conceito, era a de preparar os profissionais que entravam para que saíssem melhores. “Hoje, vejo que esse meu olhar de cuidadora, que deixo expressar na yoga e na terapia ayurveda, já existia. Faz muito sentido para mim e continuo nessa parte do cuidar em todas as esferas: organizo os encontros, cuido do relacionamento entre as pessoas, porque precisa desse olhar. Não podemos deixar nada seguir no automático”, diz, traindo aquela natureza “cuidadora com os que ama” de Câncer.

 

Natureza que não a poupou de sofrer a tal “Síndrome do Ninho Vazio”, após o último filho sair definitivamente de casa, no ano passado – já estava divorciada. “Sinto muita falta da companhia, da conversa, das trocas com meus filhos, sim, mas é só um novo degrau na vida e era esperado. Hoje, quando me vejo sozinha na casa, falo para mim: ‘Sônia, toma conta dessa casa, toma conta de você’. E me vem a objetividade que o yoga e o vedanta ensinam: somos seres emocionais e, se a gente se entregar para as emoções, perde um pouco o rumo e as rédeas da vida. Eu retomei minhas rédeas, perguntei onde quero chegar daqui para frente e segui”, relata.

 


Diz que “estar” sozinha em casa não é sinônimo de “ser” solitária e pode provar: tem uma relação saudável com
o companheiro, Costi, ainda tem seus pais, e há seis meses vive a delícia de ser avó da filha de Leo


 

Tais conhecimentos milenares também a ajudaram a adentrar muito tranquilamente a fase que mais temia: da menopausa. “Tinha pânico, por causa de tudo o que se fala a respeito. Mas quando entrei, e já estava com a ayurveda, foi mágico para mim. Morria de medo de engordar e emagreci. Foi, como diz a tradição chinesa, ‘um novo florescer’”, afirma. Com base na experiência, ela ministrou vários workshops sobre o assunto, estimulando mulheres a refletirem sobre o feminino e suas fases. “A mulher não é só um ser produtivo ou reprodutivo, bonita ou feia, gorda ou magra. Ela é toda uma lindeza, que tem um sistema hormonal maravilhoso, que só a enriquece. Não empobrece como falam. É preciso respeitar e acolher tudo isso”, fala.

 

Tudo somado, Soninha tomou consciência recentemente de que vive sua melhor fase. Diz que “estar” sozinha em casa não é sinônimo de “ser” solitária e pode provar: tem uma relação saudável com o companheiro, Costi – não moram juntos, mas compartilham tudo o mais, inclusive a carreira –, ainda tem os pais (“minha mãe é minha aluna mais fiel”) e há seis meses vive a delícia de ser avó da filha de Leo. “Recebi a visita da minha neta pela primeira vez na semana do meu aniversário. Naquele dia, quando passava pelo espelho, me olhei, voltei e falei para a minha nora: ‘Karen, estou na melhor fase da minha vida!’. E que bom é poder dizer que estou na melhor fase física e emocional perto dos 60 anos. É uma conquista!”, parabeniza-se – algo que aprendeu e hoje faz muito. “Olho para trás e me digo: parabéns, você cumpriu tudo lindamente.”

 

 

SAIBA MAIS SOBRE...

AYURVEDA 
- Palavra deriva do sânscrito e significa "ciência da vida";
- É um sistema tradicional de medicina da Índia, com mais de 3.000 anos de existência, que busca o equilíbrio e a harmonia entre o corpo, a mente e o espírito, pois considera que a saúde é um estado de equilíbrio entre os elementos do corpo (éter, ar, fogo, água e terra) e suas manifestações energéticas (doshas) Vata, Pitta e Kapha. Quando esses elementos e doshas estão em desequilíbrio, podem surgir doenças. O tratamento ayurvédico visa restaurar esse equilíbrio através de práticas como dieta, mudanças no estilo de vida, ervas medicinais, massagens, yoga e meditação.


VEDANTA
- Em sânscrito, significa "a conclusão dos Vedas" ou "o ápice do conhecimento";
- É um meio de conhecimento para nos levar ao entendimento sobre nossa real natureza, baseado nos Vedas (conjunto de escrituras sagradas do hinduísmo considerados a fonte do conhecimento espiritual mais antigo), especialmente nos Upanishads (parte mais filosófica dos Vedas), que busca compreender a relação entre o indivíduo (Atman) e o Absoluto (Brahman).


Lucas Nunes

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