Especial mulheres: Odinê Bechara
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A Saúde começa pela boca, porém quando fala em dor, Odinê Bechara não começa pelo dente. Começa pelo sono. Pela respiração curta. Pela ansiedade que se acumula nos músculos da mastigação e ATM. Pela rotina que não desacelera.
Pernambucana com o coração paulista, Odinê carrega no discurso uma mistura de firmeza clínica e acolhimento quase pedagógico. Formou-se cirurgiã dentista ainda muito jovem e construiu uma carreira sólida na odontologia tradicional. Durante anos, fez o que se espera de uma boa profissional da área. Restaurou sorrisos, devolveu função e estética, fez tratamentos endodônticos e reabilitadores. Mas algo a inquietava. Queria fazer mais.
Os pacientes que apresentavam dores crônicas eram o seu maior desafio, conta. A inquietação coincidiu com uma mudança radical de vida. Depois de 16 anos à frente do próprio consultório em São Paulo, Odinê escolheu fechá-lo por conta da transferência do marido e recomeçar do zero em Ribeirão Preto. Em poucos meses, já estava novamente atendendo, mas agora com a disposição e curiosidade de estudar com profundidade a medicina chinesa, integrar equipes acadêmicas, pesquisar dor envolvendo acupuntura e odontologia e até buscar formação na China, berço da acupuntura. A mudança de endereço tornou-se uma reinvenção profissional.
Foi nesse ponto que decidiu ampliar o olhar. “A acupuntura sistêmica entrou na minha vida como uma pergunta, não como resposta pronta”, lembra. O que mais a atraiu nessa técnica milenar, foi a lógica por trás da ideia de que o corpo opera em rede, de que energia estagnada se manifesta como dor e de que tratar apenas o sintoma pode ser insuficiente. Em vez de escolher entre ciência ocidental e medicina chinesa, decidiu estudar as duas com profundidade.
“A ACUPUNTURA NOS PERMITE UM NOVO OLHAR NA DOR OROFACIAL, MAIS AMPLO, INTEGRATIVO E FOCADO NA CAUSA”
Passou a integrar uma equipe multidisciplinar dedicada à disfunção temporomandibular e dor orofacial na USP de Ribeirão Preto, onde atuou por quase duas décadas. Ali, entre pesquisas, atendimentos e congressos, consolidou uma prática que une base científica e abordagem integrativa. Não fala em milagre. Fala em evidência, em comprometimento do paciente e em responsabilidade terapêutica.
Hoje, à frente da Viver Terapias Integrativas, recebe pacientes que chegam exaustos antes mesmo de abrir a boca para exame. Bruxismo, sensibilidade dentária, dores cervicais, cefaleias tensionais. Em comum, quase sempre, um estilo de vida em desequilíbrio. Sono fragmentado, excesso de telas, uso de cigarros eletrônicos, ansiedade crônica. “O sistema bucal denuncia o que o corpo inteiro está vivendo”, costuma explicar.
No consultório, a investigação começa com perguntas que ultrapassam a arcada dentária. “Como você dorme? Como respira? Como lida com a pressão diária?” A partir do diagnóstico, elabora um plano de tratamento que pode incluir agulhas, auriculoterapia, guashaterapia, baseado na Medicina Chinesa e ajustes na rotina. O objetivo é ampliar as possibilidades da odontologia tradicional para a odontologia do estilo de vida, inclusive evitando procedimentos invasivos quando o quadro é essencialmente funcional.
Para Odinê, cuidar não é apenas intervir. É ensinar o paciente a reconhecer sinais. “A dor é uma linguagem. O corpo fala. E o tratamento eficaz começa quando alguém se dispõe a escutá-lo”, explica.
Ao falar sobre realização profissional, ela não menciona títulos ou conquistas acadêmicas. Fala do momento em que o paciente volta diferente, dormindo melhor, sorrindo com menos tensão, entendendo a própria participação no processo de cura. É nesse ponto que encontra sentido e propósito.