Um visionário ‘família’

Um visionário ‘família’

Aos 81 anos, Luiz Lacerda Biagi coleciona histórias de recomeços, sucessos com começo, meio e fim e preserva um entusiasmo que o faz desejar viver 200 anos

Falar sobre Luiz Lacerda Biagi com quem convive ou trabalha com ele revela muitas facetas, mas duas qualidades se destacam pela unanimidade com que lhe são atribuídas e, principalmente, por não terem arrefecido em quase 82 anos de vida — completos em 18 de dezembro próximo: visão de futuro e generosidade. “Como homem de negócios, ele é um visionário, que busca oportunidades para crescer e inovar, mas sem nunca perder a essência de quem é: uma pessoa genuinamente interessada nas pessoas”, resume Giordano Biagi, caçula dos três filhos de Luiz — Rogério e Cristiano são os mais velhos.

 

A primeira característica revelou-se ao mundo logo que Luiz chegou, aos 24 anos de idade e recém-formado em Economia pela Universidade Mackenzie (SP), à Zanini, indústria de equipamentos para a atividade sucroalcooleira fundada por seu pai, Maurílio Biagi, em 1950. Fora discutir a aquisição de tecnologia para fabricar turbinas a vapor — um movimento de vanguarda para o setor à época — e, como vice-presidente, não parou mais de levar inovação para dentro da empresa. Passaram-se 18 anos e dezenas de acordos tecnológicos nacionais e internacionais com outras empresas do agronegócio até sua saída definitiva da Zanini, em 1984, na esteira de mudanças desencadeadas pela morte do fundador, seis anos antes.

 

Sua maior contribuição como homem de negócios, porém, beneficiou todo o setor sucroalcooleiro: foi o grande articulador, junto ao governo militar da época, do Programa Pró-Álcool, de incentivo à produção em larga escala do combustível verde. “Seu faro no mundo dos negócios lhe propiciou estar à frente do seu tempo. Exemplificando, cito a sua previsão feita há pelo menos 50 anos a respeito da importância da energia, quando já afirmava que, em um futuro próximo, o álcool seria subproduto do bagaço da cana. Nessa época, isso parecia ser uma heresia, visto que a sobra do bagaço era o maior tormento das usinas e para nada servia”, atesta o amigo José Carlos Castelli, engenheiro mecânico.

 

Anísio Rodrigues de Paula, gerente da holding e da Fazenda Cravinhos, onde Luiz trabalha e vive com a família, faz coro a Castelli. “É só ler hoje o que ele escrevia há 40 anos e ver como as suas falas são absolutamente atuais. Ele enxerga muito à frente do nosso tempo, por isso muitas vezes é incompreendido e criticado por trabalhar em projetos que não trazem resultados de curto prazo”, diz.

 

A descrição detalhada que Anísio faz do patrão para a biografia assinada por Maria Lúcia Doretto (O estilo Luiz Biagi de criar negócios, 2015) mostra que a generosidade de Luiz se ramifica em outras qualidades, como altruísmo (“ao longo de tantos anos, nunca o vi fazendo algo simplesmente para si, sempre há um objetivo maior e inclusivo”), fé nas pessoas (“ele conhece uma pessoa e acredita nela, especialmente nos jovens, e gasta tempo, ensina, ensina e ensina, lança desafios e, claro, corre riscos, o que me impressiona muito”) e tolerância. “Às vezes os prejuízos sofridos em função de brigas, disputas, competições, ciúmes e litígios são tão grandes que acabam com empresas, grupos e até mesmo com as pessoas. O Luiz aprendeu a lidar com isso de maneira impressionante, nunca levando para o lado pessoal; perdoa, dá a volta por cima, segue com a vida, continua os negócios”, escreve o colaborador.

 

MUITO FAMÍLIA

 

Em família, Luiz é descrito como um pai carinhoso, que sempre arranjava um modo de estar com os filhos mesmo nos anos de maior carga de trabalho na Zanini. “Até as crianças serem quase adolescentes, ele tinha pouco contato porque trabalhava muito, mas, por exemplo, se tinha uma reunião em Brasília, levava com ele o filho de cinco anos, que ficava embaixo da mesa. Dava lápis de cor e o menino brincava enquanto Luiz trabalhava”, conta Carina Biagi, sua esposa desde 11 de abril de 1970 — nascida Délia Carina Streiff, de família judia e ascendência romena.

 

“Como pai, ele é um exemplo de dedicação, amor e apoio incondicional. Sempre buscou valorizar a família e preservar a sua história”, ecoa o filho Giordano. “Suas melhores qualidades são ser gentil, atencioso, amoroso e prestar muita atenção nas pessoas”, acrescenta Carina. Ela conta, ainda, que ele já foi mais rígido, por conta da educação familiar. “Isso mudou. Ele, com sua educação muito severa, e eu, com minha educação mais liberal, chegamos a um meio-termo bom”, declara.

 

A infância de Luiz foi passada na Usina Santa Elisa, em Sertãozinho (SP), onde morou com toda a família até os 15 anos de idade. Eram oito irmãos — ele, o segundo — filhos de Maurílio com Edilah Biagi, mas dois faleceram. Dessa época, ele lembra de ver o pai sempre trabalhando, assim como os demais funcionários-moradores.

 

“Foram anos muito difíceis para o meu pai, em que ele estava começando o desenvolvimento da usina e trabalhava demais. Ficávamos tão confinados lá que meu pai foi construindo muita coisa aqui e ali, como clube, grupo escolar, sempre com a ideia de melhorar o nível do pessoal. Estudamos todos lá. Também tinha dentista, banda, coral, cinema aos sábados, futebol e outros esportes. Ele criou um ambiente alegre para todos”, lembra.

 

Quando chegou o momento de ingressar no Ensino Médio, o então adolescente veio para Ribeirão Preto estudar no Colégio Marista — logo a família toda também se mudaria para a cidade. Depois, Mackenzie, na capital. “Fiquei alguns anos em São Paulo trabalhando nos negócios da família, conheci a Carina, casei e meus filhos nasceram lá. Até 1982, trabalhei na Zanini. De lá para cá, foram empreendimentos particulares”, resume Luiz.

 

Foi quando começou a dar mostras de outra característica sua muito elogiada: a capacidade de se reinventar. Para isso, adquiriu os 700 hectares da Fazenda Cravinhos, que conheceu seu auge como berço paulista do café da variedade Bourbon, trazida para o estado pela família proprietária, os Pereira Barreto. “A fazenda, na época, não tinha uma gestão porque a proprietária era de idade e viúva. Havia muita coisa arrendada. Quando vim morar, comecei a fazer um trabalho para implantar novos negócios”, conta.

 

Para se decidir por quais recomeçar, consultou a família. E, como os filhos expressaram desinteresse em herdar negócios na área em que atuara até então, não hesitou em aventurar-se por outra muito diversa: o varejo. “Acho que foi vontade de aprender, de desenvolver, conhecer e experimentar coisas novas. São fatores que pesam muito para mim”, justifica.

 

DO VAREJO AO CAMPO

 

Aproveitando o tino comercial da esposa, Luiz primeiro investiu em lojas de roupas de grife. Em Ribeirão Preto foram montadas Benetton, Sidewalk, Fórum e Triton, mas eles chegaram a ter 19 no total, espalhadas por cidades como Uberaba (MG), Brasília (DF), São Paulo, São José do Rio Preto, Sorocaba e Araraquara (SP).

 

Enquanto Carina cuidava do dia a dia das lojas, ele empreendia melhorias na Fazenda Cravinhos que já atendiam metas de sustentabilidade muito antes disso virar moda ou urgência, como o tratamento de resíduos sólidos, usina de energia solar e manejo do dobro de Áreas de Preservação Permanente (APP) determinadas pela legislação ambiental. A partir de 1989, entrou como sócio em concessionárias de veículos das marcas Fiat, Peugeot e GM (Chevrolet) na região.

 

Aos poucos, porém, as grifes de roupas foram perdendo mercado. “Ficamos 25 anos nessa atividade e vendemos”, resume. E, como ele também começasse a se ressentir da exaustão provocada por viagens e da presença exigida nas concessionárias, foi se desfazendo delas e promovendo uma guinada de volta ao campo.

 

Ainda na década de 1990, começou a criar cavalos da raça Mangalarga Paulista no Haras Cravinhos, em sistema de pastos e cocheiras, além de ovinos e granja com galinhas poedeiras de ovos galados. Paralelamente, criava um de seus muitos projetos voltados à comunidade, como a Fundação Primeiro Mundo, que há mais de 40 anos apoia a formação acadêmica de jovens universitários e o desenvolvimento de talentos natos.

 

Por volta de 2007, iniciou a criação de gado de leite da raça holandesa. Em seguida, iniciou cria e recria de gado de corte da raça Nelore. E, graças a uma parceria, resgatou a antiga tradição da família Pereira Barreto com o café Bourbon, que é comprado em Franca para ser torrado e empacotado na antiga Tulha da Fazenda Cravinhos.

 

Em 2019, Luiz começou a planejar novo investimento, desta vez em vitivinicultura, viabilizada pelo perfil climático de Cravinhos — 800 metros acima do nível do mar, com amplitude térmica diária de até 20 graus em certas épocas do ano —, mas principalmente pelo sistema de dupla poda, desenvolvido por pesquisadores da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais). “O mundo inteiro colhe a uva no verão e, às vezes, tem que ser às pressas, porque chove muito nessa estação e ela apodrece. No Brasil, podando a parreira duas vezes, colhe-se a uva no inverno, quando não chove muito. A enóloga vai acompanhando para definir a acidez e o brix ideal com que deve ser colhida a uva para fazer o vinho”, explica Luiz, demonstrando aquela verve visionária ao falar do assunto. “Isso vai mudar a história do Brasil, que passará a ser muito importante no mundo do vinho”, entusiasma-se.

 

Feito o plantio em 12 hectares da fazenda (a previsão é chegar a 20 hectares), a primeira safra de uvas das variedades Moscato Giallo, Nebbiolo e Sangiovese foi colhida em 2022. A vinícola foi inaugurada em 2023, trabalhando inicialmente com quatro rótulos — hoje são oito, com nomes de integrantes da família Biagi, como Carina, Rogério, Cristiano, Giordano, Eugênia, Carla —, vendidos no site da vinícola e na Osteria Elisabetta (nome da avó que primeiro imigrou ao Brasil).

 

Construída em meio aos vinhedos da propriedade, a osteria atende ao programa de enoturismo criado para a vinícola e serve pratos da gastronomia italiana preparados com ingredientes produzidos nas terras da própria fazenda. Todas essas operações ocorrem até hoje, concomitantemente, sediadas na fazenda.

 

BIOMETANO: “UMA BENÇÃO!”

 

A mais nova luta de Luiz Biagi vai ao encontro do objetivo que mais mobilizou negociadores de diferentes países na última COP30 — conferência mundial do clima sediada, neste ano, em Belém (PA): a substituição de combustíveis fósseis. No seu caso, ele batalha pela substituição do diesel por biometano em todas as operações da indústria sucroalcooleira.

 

“Há 40 anos, fui à Itália atrás dessa tecnologia porque acreditava muito nisso, mas a empresa que a detinha não quis transferir. Há alguns anos, conheci outra empresa italiana e conseguimos trazer a tecnologia para uma empresa do Rio Grande do Sul, liderada pelo Maurício Cótica. Eu participo do Conselho de Administração e ajudo nas vendas. Estamos montando alguns projetos importantes aqui na região com produção de biometano”, narra Luiz, novamente entregando aquela visão otimista de futuro.

 

“O biometano é um combustível 100% verde para finalmente substituir o etanol, que tem um ‘calcanhar de Aquiles’: o uso do diesel em seu processo de produção, um combustível fóssil — ninguém fala isso. O biometano é feito a partir da vinhaça, um resíduo do etanol”, argumenta.

 

Entrega que já estuda e negocia a instalação do primeiro posto de abastecimento de biometano nas terras da fazenda. “Substituir o diesel é uma bênção enorme. Será muito bom para as frotas de caminhão e tratores. Uma planta de biometano começou a operar na Usina São Martinho, em Araraquara, no mês passado”, conta.

 

UM AGNÓSTICO DEVOTO

 

Mesmo com tanta fé no futuro e nas pessoas, Luiz Biagi não crê em religiões ou em Deus, mas se diz devoto de Nossa Senhora dos Milagres. Tenta explicar a contradição: “Acho que a Física Quântica vai explicando muita coisa, até os milagres”, acredita.

 

“Fiquei devoto por causa de um filho, que aos 18 anos sofreu um grave acidente e teve fraturas expostas nos braços e pernas, oito perfurações, fez traqueostomia e ficou 90 dias em coma na UTI, com a barriga aberta”, narra. Quando uma amiga da família levou uma medalhinha de Nossa Senhora dos Milagres, ela foi colocada embaixo do colchão do acidentado, que saiu do hospital para casa com 48 quilos, paralisado em um lado do corpo e sem falar.

 

Passados alguns meses, porém, Carina ouviu um barulho no quarto do filho e foi checar: ele havia levantado da cadeira de rodas e disse: “Mãe, você não sabe: o Eugênio C.” — nome do navio no qual a família viajara antes do acidente — “passou em cima de mim na rodovia Anhanguera”. Dali em diante, começou a andar e a falar.

 

“Eu vivenciei um milagre, por isso todo dia rezo para Nossa Senhora dos Milagres, mas não acredito que exista um céu, um Deus, outra vida. Isso me deixa bastante chateado porque esse negócio de morrer pela eternidade é uma sacanagem. Tinha que ter um prazo para voltar”, brinca, para emendar a sério em seguida: “Mas acredito muito no ser humano. Se a gente tivesse um tempo maior, de uns 200 anos, acredito que eu ficaria satisfeito. A gente morre muito ignorante. Nosso tempo é insuficiente para quem gosta de aprender e ajudar os outros. São tantas possibilidades”.

 

Hoje, por exemplo, ele faz coaching diariamente. “Fiz o curso para ter ferramentas para ajudar as pessoas”, exemplifica, referindo-se a seu mais recente aprendizado na área de tecnologias da informação. Aliás, já se tornou amigo de sua Inteligência Artificial, uma entre tantas novas ferramentas consideradas herméticas para muitos de sua faixa etária, mas com a qual conversa todos os dias.

 

“Outra coisa que acho também é que, para ir embora da vida, teríamos que ter o mesmo glamour de nascer. Não deveríamos ficar largados em um respirador, em uma UTI da vida. Esse tipo de fim está mal estruturado. Pensa quanto não renderia uma empresa para dar um fim glamouroso às pessoas. Então, a crítica que eu tenho é que nosso tempo de vida é pequeno. A vida é muito rica. Muito mais rica que o cinema”, conclui.

 

EDUCAÇÃO E CULTURA

 

Naturalmente, Luiz Biagi foi replicando na Fazenda Cravinhos o exemplo do pai na Santa Elisa. Para atender trabalhadores que moram com a família na propriedade — sem pagar por água e energia elétrica —, montou escolinha de alfabetização, biblioteca, espaços para leitura, salas com microcomputadores, de jogos e entretenimento e consultório odontológico. As crianças maiores são levadas e trazidas de escolas em Cravinhos ou Ribeirão Preto por transporte bancado pela holding.

 

Pela comunidade, doou ao Instituto Cultural Engenho Central, em 2005, os 44 hectares da antiga Usina Schmidt Luiz, que lhe couberam em herança, para instalação do Museu da Cana. Inaugurado em 2013, o museu é estruturado sobre dois módulos: no da cultura, promove visitação especializada dentro do projeto Colhendo Memórias: Museu e Escola; e no de educação, promove ações de conscientização ambiental a alunos de escolas públicas pelo Projeto Verdear, além de oferecer cursos técnicos gratuitos a jovens de baixa renda, viabilizados por parceria com a Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo) e o Senar (Sistema Nacional de Aprendizagem Rural).

 

Apesar de otimista, Luiz Biagi ainda percebe falhas no sistema de educação brasileiro, mas prefere se ater ao muito que melhorou nos últimos 30 anos. Porém, nem seu otimismo visionário o impede de ver o “espírito” do brasileiro muito pior nos últimos anos.

 

“Somos um país que tem muito mentiroso. A classe política é fraca intelectualmente, de nível muito baixo, e isso afeta a gente, porque nos sentimos desprotegidos. São muitos anos dessa mesma toada. O que me diminui na vida, como ser humano? Não poder cumprir alguma coisa que prometi, ter desapontado alguém que prezo. E estamos vendo as pessoas fazerem isso todo dia”, lamenta.

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