Doce Sonho
De um projeto social na periferia de Ribeirão Preto ao próprio negócio, Paulo Henrique transformou oportunidades em fermento para a vida
Nascido no bairro Ipiranga, em Ribeirão Preto, Paulo Henrique da Silva de Oliveira, o Paulinho, foi criado pela mãe e pela avó. Desde pequeno, as lembranças mais fortes vinham da cozinha. “Minha avó sempre fazia bolos e tortas para os aniversários da família. Acho que foi ali que o cheiro de fermento e o calor do forno começaram a fazer parte de mim”, reflete.
Aos 11 anos, sem o pai por perto, Paulo foi inscrito pela avó, a dona Maria Aparecida Costa da Silva, na Casa das Mangueiras, projeto social voltado a crianças e adolescentes da periferia. Foi lá que ele aprendeu disciplina e descobriu que podia ir além. “A horta era a primeira oficina, e as crianças precisavam se comportar bem para participar das outras. Depois, eu fui para a cozinha. E foi ali que me encantei”, lembra.
Durante uma entrevista de fim de ano para a TV, perguntaram qual era o seu sonho. Ele respondeu, sem hesitar, que era “ser dono de um restaurante.” Nem sabia direito o que era isso, mas a frase chamou a atenção do empresário Renato Aguiar, que o convidou para estagiar no buffet que leva seu nome.
Sempre com a ajuda de Renato, que custeou 80% do curso de Gastronomia, Paulo mergulhou no mundo da panificação. “Fiz cursos, me especializei e comecei a estudar fermentação natural. Rodei o Brasil. Queria aprender o máximo que pudesse”, conta.
Hoje, ele é dono da padaria artesanal Pão do Paulinho. A rotina é puxada. “De segunda a segunda, o trabalho não para. No início da semana, começamos às 7h da manhã e vamos até à noite. No fim de semana, madrugamos às 3h, 4h. Mesmo quando não estou com a mão na massa, estou cuidando dos pedidos, fornecedores e criação de novos produtos”, narra.
Entre o forno e as planilhas, ele tenta equilibrar qualidade e atendimento. “Fazer pão é a parte mais fácil. O mais difícil é manter o padrão todos os dias. O público é exigente, mas também muito generoso. Quando alguém volta e diz: ‘Paulinho, aquele pão estava maravilhoso’, isso paga tudo”, diz.
Paulinho faz questão de lembrar o papel da Casa das Mangueiras, que o preparou para o mundo. “A Sueli, que coordenava o projeto, nos ensinava até a administrar o dinheiro. A gente fazia tapetes, velas e parte do lucro voltava pra gente. Ela ensinava a apresentar nota, devolver o troco. A Casa das Mangueiras foi uma ponte pra eu enxergar outro mundo”, recorda.
Anos depois, ele voltou ao projeto. Agora para ensinar. “Montei duas oficinas de panificação. Ensinava crianças e adolescentes a fazerem pão e sonho. Eles comiam lá e também levavam para casa. Depois, criei uma oficina aberta ao público, de pães de fermentação natural. Parte do lucro voltava ao projeto”, descreve.
PARCEIRA DE VIDA
Paulo é casado com Luciana Marques dos Santos Oliveira, com quem tem dois filhos. Isaac, de 12 anos, e Lavínia, de 4. “Minha esposa é minha parceira de vida e de negócios. Está comigo nos momentos bons e ruins. E meus filhos são meu combustível. O sorriso deles apaga qualquer cansaço”, declara.
O menino que um dia sonhou ser dono de restaurante virou referência em panificação e sonha agora em ensinar o que aprendeu: “quero voltar a dar aulas e criar um projeto gratuito para crianças e adolescentes, ensinando panificação e empreendedorismo. O mercado precisa de profissionais preparados e eu quero ajudar a formar esses jovens”.
Ao olhar para trás, Paulinho se reconhece como um vencedor. “Nasci na periferia, fui criado por duas mulheres incríveis, tive oportunidades e as abracei. Hoje tenho uma família, uma empresa e posso ajudar outras pessoas. Ser vencedor é isso”, conclui
Foto: Guilherme Fuzaro