Sem medo de querer

Sem medo de querer

Nascida com catarata congênita, em família humilde, Gleice Priscila dos Santos se recusa a deixar que sua origem ou a deficiência visual a definam ou a impeçam de alcançar seus objetivos

Ter conquistado casa própria e ensino superior sem nenhuma ajuda já é considerado um grande feito, principalmente para quem nasce em família humilde e cresce em submoradias. Gleice Priscila dos Santos ainda teve que lidar com a deficiência visual em um país onde as políticas de inclusão existem mais no papel do que na prática. Recusou-se, porém, a deixar sua origem ou a deficiência defini-la.

 

Nascida há 32 anos, em Serra Azul (SP), Gleice recebeu aos 5 o diagnóstico de “catarata congênita de causa desconhecida no olho direito e miopia de 12 graus no esquerdo”. Na escola, a timidez a impedia de explicar às professoras por que, às vezes, mesmo usando óculos de lentes grossas, ainda precisava ir até a lousa para enxergar os escritos. “Achavam que eu queria aparecer”, lembra. Aos 12, começou a enxergar bolinhas pretas flutuando. A mãe a levou ao posto de saúde, onde o plantonista as mandou para casa sem sequer examiná-la, alegando falta de um encaminhamento. 

 

Um mês depois, a visão de Gleice começou a “apagar” durante uma aula. De volta ao plantão, ela foi atendida por outro oftalmologista, que diagnosticou descolamento de 100% da retina do olho esquerdo e negligência do platonista anterior. Ele tentou manter ao menos 5% da visão de Gleice submetendo-a a cirurgia. “Consegui por um mês enxergar só vultos, mas a retina voltou a descolar totalmente e tive sangramento no fundo do olho. Foi como me tornei totalmente cega”, lembra ela.

 

Triste e sentindo-se injustiçada, a adolescente abandonou os estudos, mas a mãe não desistiu dela. Ouviu de uma amiga sobre a Adevirp (Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto) e tratou de conseguir, junto ao Serviço Social de Serra Azul, transporte diário gratuito para a filha frequentar a entidade. 
Uma memória marcou Gleice naquele recomeço: ouvir outras crianças cegas correndo e brincando na associação. “Se elas conseguiam, eu também poderia”, pensou. Passou, então, a participar de atividades de reabilitação, fez aulas de orientação de mobilidade e de terapia ocupacional, tudo para ganhar autonomia. Ainda tomava parte nas oficinas literárias em braile ministradas pela bibliotecária Helena Agostinho, que volta e meia inscrevia os textos dela em concursos – foi como retomou o hobby de escrever seu diário. 

 

Aos 16 anos, a jovem conheceu José Marques, deficiente visual que veio da Bahia estudar na Adevirp. Apaixonaram-se e ela ignorou a oposição da mãe ao namoro com um homem muitos anos mais velho. Gleice garante que tudo o que se seguiu foi iniciativa sua: a fuga de casa, o casamento e as duas gestações, que trouxeram ao mundo Glenda – hoje com 14 anos – e Juan, 10. 

 

“Ser mãe era um sonho meu. Os médicos falaram que meu caso era hereditário e que meus filhos provavelmente teriam minha deficiência, mas decidi tê-los mesmo assim. Se eu, vinda de uma família desestruturada, consegui superar barreiras, meus filhos, com pais cegos autônomos, também conseguiriam”, declara. Para sua grata surpresa, porém, nenhum dos dois herdou.

 

Com a renda obtida como revendedores de cosméticos, Gleice e o marido financiaram a primeira casa própria – mais tarde dada como entrada na aquisição de outra maior. Depois investiram em um terreno na zona norte de Ribeirão Preto, onde foram construindo a casa onde moram hoje. Paralelamente, ela concluiu o Ensino Médio via supletivo do EJA (Educação de Jovens e Adultos) e, quando Juan fez 4 anos, sentiu que queria mais da vida. “Vivi todo um processo para entender qual eu queria que fosse meu lugar no mundo”, comenta. 
Após uma amiga convencê-la de sua aptidão para o Jornalismo, lá foi Gleice pleitear uma bolsa de estudos em faculdade particular. Recebeu a resposta positiva no mesmo dia em que foi convidada a assumir um cargo de educadora social na Adevirp. 

 

Hoje, Gleice divide seu tempo entre os filhos, as vendas de cosméticos – com parceria do marido –, as aulas de Tecnologia Assistiva que ministra e a faculdade EAD (Ensino à distância), mas ressente-se por não ter colegas de estudo ou trabalho em Jornalismo. Sabendo disso, o amigo Luiz Puntel, escritor, intermediou um estágio na área para ela, que logo passará a conciliá-lo com as demais atividades, sem nenhum medo de não dar conta. “Tenho uma frase que levo sempre comigo: ‘não seja o obstáculo, mas a acessibilidade’. Nós, mulheres de classe social baixa, negras e as deficientes, nos deparamos com muitos, não só físicos, mas superamos. Então, é importante que as pessoas olhem para nós e não vejam só a deficiência, mas nossa eficiência. É isso que eu quero mostrar para o mundo”, conclui.

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