Ocupação do Lar Santana denuncia abandono e pede preservação histórica
Ocupação exige homenagem à freira torturada pela ditadura
Quem passa pela Rua Conselheiro Dantas na Vila Tibério se habituou a ver o prédio do antigo Lar Santana como uma figura fantasmagórica do passado. Contudo, o espaço de oito mil metros quadrados em um dos bairros mais tradicionais de Ribeirão Preto voltou a ser habitado, ou melhor, ocupado. Isso porque manifestantes ocupam o local desde a última segunda-feira, 11 de agosto. O ato ocorreu em protesto às condições de abandono da instituição nos últimos anos. Professores, moradores da região e movimentos estudantis se uniram para reivindicar que o espaço volte a ser utilizado como patrimônio histórico e cultural.
Os manifestantes exigem criação do Memorial da Resistência Madre Maurina Borges. O memorial busca preservar a história da luta contra a ditadura militar, homenageando Madre Maurina e outros perseguidos políticos, além de promover atividades culturais e educativas, como oficinas, debates, teatro e cinema, para manter viva a defesa da democracia e dos direitos humanos. "Sem memoriais, sem documentos, sem nomes em placas, a ditadura vence duas vezes: primeiro, ao calar suas vítimas; depois, ao convencer as novas gerações de que ‘foi tudo exagero’", destacam os organizadores.
Para Vanderley Caixe Filho, um dos apoiadores do movimento, os movimentos sociais que ocupam o Lar Santana desempenham um papel histórico em Ribeirão Preto. "Sua ação vai além de denunciar o abandono de um espaço de memória: eles o resgatam ativamente com a denúncia dos horrores da ditadura de 1964. Com primor, apresentam à cidade um modelo vibrante de gestão cultural popular, oferecendo uma alternativa essencial de acesso à cultura por meio de filmes e debates, saraus, rodas de choro e palestras. A semana culmina com a Mostra de Curtas Mares e o Musical 'Tempo de Resistência'", explica. Na quarta-feira, 20, foi realizada uma feira de agricultura familiar. A ideia é que o evento se repita toda quarta-feira.

Edificação de quase 8 mil m² permanece sem função definida, alvo de vandalismo, furtos e desgaste
Em nota à imprensa, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio de Ribeirão Preto (Conppac), por meio de seu presidente Lucas Gabriel Pereira, se manifesta sobre a ocupação pacífica do Lar Santana, realizada por movimentos sociais em defesa da memória e do patrimônio histórico. O texto ressalta que, embora a presidência não possa legalmente apoiar ocupações, reconhece a legitimidade da ação diante da negligência do poder público quanto ao restauro do espaço e à preservação da história de Madre Maurina, Dom Felício, Áurea Moretti e outros símbolos da resistência à ditadura. “Não há democracia sem memória. Não há democracia sem cidadania. A margem da dignidade humana integral, não haverá educação para a liberdade, os direitos humanos. Enfim, já dizia o profeta Zacarias: nunca despreze os pequenos começos”, argumentou Pereira.
O último posicionamento emitido pela Prefeitura de Ribeirão Preto sobre o caso, destacou que, desde janeiro deste ano, tem adotado medidas para reverter a situação de abandono do prédio, priorizando a definição de um novo uso para o espaço e mantendo tratativas com entidades interessadas em sua ocupação. A Prefeitura afirmou ainda que o imóvel está desocupado há décadas, sem ações efetivas de gestões anteriores para sua utilização. Paralelamente, a Secretaria de Infraestrutura realiza serviços de manutenção e conservação, incluindo limpeza, reparos e outras intervenções internas. Sobre o protesto, a nota acrescenta que a Guarda Civil Metropolitana acompanha a manifestação.

Ocupação realizará uma feira de agricultura familiar toda quarta-feira
HISTÓRIA
Inaugurado em 1931 pelas Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, o Lar Santana se tornou um dos marcos históricos e sociais da Vila Tibério, em Ribeirão Preto. Durante mais de oito décadas, funcionou como escola e orfanato, atendendo centenas de meninas carentes e abrigando gerações de memórias comunitárias. O prédio de arquitetura imponente se consolidou como referência afetiva e cultural da região.
Seu papel, porém, ultrapassou o campo educacional. Em 1969, em plena ditadura militar, a madre superiora Maurina Borges da Silveira foi presa dentro do Lar, acusada de dar abrigo a militantes contrários ao regime. Ela se tornou a única religiosa oficialmente encarcerada durante a repressão no Brasil, submetida a torturas e posteriormente banida para o México. O episódio transformou o Lar Santana em um símbolo da resistência e da memória contra os abusos da ditadura, o que reforça sua importância política e histórica.

Em 2014, após dificuldades financeiras e exigências legais de adequação, o Lar encerrou suas atividades
Apesar disso, o destino da instituição tomou rumos de abandono. Em 2014, após dificuldades financeiras, exigências legais de adequação e a falta de novas vocações religiosas, o Lar encerrou suas atividades. O fechamento foi marcado por uma missa de despedida que reuniu ex-alunas, religiosas e militantes históricos da esquerda, lembrando a herança política ligada à madre Maurina. No ano seguinte, o prédio foi tombado como patrimônio histórico municipal, mas a proteção legal não impediu sua deterioração.
Desde então, a edificação de quase 8 mil m² permanece sem função definida, alvo de vandalismo, furtos e desgaste. Tentativas de destinação envolveram propostas da Cultura, Saúde e Educação, mas nenhuma saiu do papel, sobretudo pela alegada falta de recursos públicos. Enquanto isso, a comunidade local, representada por antigos vizinhos e pela Associação de Moradores da Vila Tibério e Adjacências (Amovita), denuncia o risco de se perder não apenas um prédio, mas parte essencial da memória da cidade.
Durante a gestão do ex-prefeito Duarte Nogueira, a Prefeitura prometeu restaurar o imóvel para uso da Secretaria Municipal da Educação, e que já havia um projeto já desenhado por uma empresa de arquitetura. Contudo, o projeto ainda não saiu do papel e com a mudança de gestão, as prioridades podem ter mudado. O Lar Santana, que foi sinônimo de acolhimento e luta, continua à espera de um futuro digno de sua história.
QUEM FOI MADRE MAURINA
Nascida 1926 em Araxá. Minas Gerais, Maurina Borges da Silveira ingressou na vida religiosa franciscana em 1942. Trabalhou por anos em colégios até assumir, em 1968, a direção do Lar Sant’Ana, em Ribeirão Preto. Em 1969, foi presa, torturada e exilada sob a acusação de pertencer a uma organização guerrilheira. Segundo o livro “A Coragem da Inocência”, escrito pelo irmão da madre, frei Manoel Borges da Silveira, e organizado pelos jornalistas Saulo gomes e Moacyr Castro, as suspeitas se basearam no fato de a madre ter permitido que um membro das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), Mario Lorenzato, fizesse reuniões de estudantes em sua instituição religiosa.
A madre, que não sabia do teor das reuniões e que quando tomou ciência resolveu dissolver a célula, foi presa pela Polícia Militar em Ribeirão Preto e, depois, transferida para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo. Durante os cinco meses em que ficou detida, Maurina foi torturada constantemente. Os registros foram feitos em várias cartas que ela enviou às autoridades da época e também em entrevistas concedidas anos depois.

Durante os cinco meses em que ficou detida pela ditadura militar, Madre Maurina foi torturada constantemente
No livro, os autores trazem trechos de uma carta escrita por Maurina ao ministro da Justiça sobre as torturas sofridas. "Invocando a Deus como testemunha da verdade de minhas palavras, venho relatar a V. Exa. as torturas a mim infligidas, por agentes da Polícia de São Paulo, com a aquiescência de delegados de Ribeirão Preto: [...] 'Sua freira do diabo. Você não é filha de Deus. Fica sabendo que teremos o prazer de prender bispos e padres. Não pense que eles poderão te livrar. O que você tem nos joelhos são cicatrizes de tanto rezar... e por que não reza agora? Não adianta mais'. [...] Davam risadas sarcásticas. 'A certa altura o referido delegado gritou: ‘Veja se você não vai esquecer do seu Deus! Agora vai apanhar juntamente com o rapaz seu protegido’. Trazendo o rapaz à minha presença, o delegado intercalava às perguntas, pancadas no moço e em mim. Eram tapas no rosto que me deixavam completamente surda.'", escreveu Maurina.
Fotos: Guilherme Fuzaro