Ressignificando a vida
João Rangel conta como tornou-se cozinheiro e chef e criou seu restaurante Mesa, no qual segue ativo mesmo convivendo com a evolução da doença degenerativa ELA
Nasci em Ribeirão, em 13 de agosto de 1985, e sempre fui um comilão curioso. Me recordo de ficar na cozinha com minha avó – Maria Rita Rangel, hoje com 86 anos –ajudando, enquanto beliscava as guloseimas que ela fazia para os netos. Minha graduação é em Administração de Empresas pela Unip (2009), com pós em Gestão de Pessoas. Tive vontade de ser cozinheiro antes de ser chef – um cargo com a obrigação de manter a cozinha organizada, limpa, estoque com reposição – e surgiu a partir de uma necessidade, quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos, logo que me formei. No começo foi uma delícia comer junkie food por dois meses, mas chegou um ponto em que eu não aguentava mais, porque é o mesmo gosto, além de fazer mal.
Fui morar com um pessoal de Ouro Verde (GO), que cozinhava e combinamos que todos teriam que fazê-lo. Até então, eu sabia o básico: fritar bife, ovo e fazer um misto-quente – não incluía cozinhar feijão e arroz. Comecei a pedir instruções por telefone à minha avó e a fazer e pegar gosto, mas ainda era uma culinária caseira, do dia a dia. Quando comecei a namorar uma menina de Nova York, conheci por lá pratos mais elaborados da gastronomia. Fiquei fascinado!
Quando voltei para o Brasil, em 2010, meu pai montou uma ótica com um café ao lado, em uma esquina da rua Nélio Guimarães com avenida Independência, onde comecei a fazer minhas experiências gastronômicas: risotos, crepes, almoço executivo, sobremesas, drinks, tudo de forma autodidata, mas com orientações de cozinheiros conhecidos. Entre eles, Nicholas e Thaís, hoje donos do Skull Burguer. Uma das experiências com eles foi fazer hamburguer, o que futuramente deu origem ao Bendito Burguer, à rua Conde Afonso Celso, no qual fui sócio deles entre 2013 e 2016. , Em 2016, quando me casei em Cuzco, no Peru, conheci a gastronomia regional do país, que ia muito ao encontro do que minha avó fazia para eu comer quando passava as férias com ela, em Minas Gerais. Naquele momento eu quis virar cozinheiro profissionalmente, porque encontrei uma gastronomia que fazia sentido na minha visão.
De 2016 a 2017, fiz estágios e cursos em São Paulo, para me desenvolver, em restaurantes, como Ristorantino, Jamille, do Henrique Fogaça e Varanda Steak House. No restaurante Maní, da Helena Rizzo – primeiro em que estagiei, por quatro meses – quiseram me contratar como cozinheiro ao final, mas não aceitei, porque ainda me sentia inexperiente. Queria ter liberdade de aprender o que eu queria em cada restaurante e sair sem deixar buraco na equipe.
Pensei: ‘se não der certo, vou virar motorista de Uber e Ribeirão inteiro vai saber que sou um fiasco’. Mas foi o jantar da minha vida! Nele decidi que queria ser chef.
Voltei para Ribeirão Preto quando minha mulher, Janaína Rangel, estava grávida de cinco meses de nosso filho Matteo, que nasceria em julho de 2017 – eu já era pai da Pietra (2005) e da Antonella (2010). Tentei trabalhar com o chef João Roberto, que estava se aposentando e, como não tinha nenhum lugar que me interessasse cozinhar em Ribeirão, comecei a fazer jantares em casa, para os amigos, que pagavam pelos cardápios que eu preparava, com entrada, prato principal e sobremesa. Começou a dar certo!
Uma das frequentadoras era a Lídia Muradás [fotógrafa], que me perguntou para qual espaço eu iria depois do nascimento do Matteo. Como eu não sabia ainda, ela ofereceu um espaço no seu estúdio para alugar. Pedi que ela convidasse amigos seus para saborear o primeiro jantar. Só me informou quem eram no dia: a Bel [Isabel de Farias, diretora da Revide], seu marido, Val, e a Margareth Prezotto, da EPTV. Pensei: ‘se não der certo, vou virar motorista de Uber e Ribeirão inteiro vai saber que sou um fiasco’. Mas foi o jantar da minha vida! Nele decidi que queria ser chef.
A partir dali, até julho de 2019, fiz “jantares secretos” no espaço – as pessoas me informavam suas restrições alimentares e eu preparava pratos-surpresa, que elas só descobriam do que eram feitos ao final – e também atuava como personal chef, indo à casa das pessoas cozinhar para alguma ocasião. Quando essa demanda começou a crescer, vi a necessidade de ter uma cozinha maior. Foi quando eu encontrei o espaço onde hoje funciona o meu restaurante Mesa, no Jardim Irajá, que inicialmente era para ser uma cozinha de produção para eventos externos. Abri em dezembro de 2019. Janeiro e fevereiro foram meses fracos. Em março começamos a ir bem, mas veio a pandemia!
"Precisei enterrar o João antigo e fazer nascer um novo, através de muita terapia
e Deus, para me auxiliar na ressignificação da vida"
Achei que ia voltar logo, mas quando percebi que não, tive uma baita crise de ansiedade. Passei dois meses com aversão de cozinhar. Procurei um psicólogo, que me orientou a buscar uma conexão com a cozinha de novo fazendo o que eu quisesse, para quem eu quisesse. Comecei a preparar, para retirada ou entrega, pratos que remetiam à minha avó, como lasanha, ravioli, galinhada, parmegiana, nhoque com polpetone, etc. Chamava de “almoços que abraçam”. Saíam muito!
Quando começaram a liberar idas a restaurantes, passei a fazer hambúrgueres de sexta e sábado, para entrega ou comer no local; e quando liberou de vez, em 2021, passei a servir também pratos mais rústicos, sempre inspirados na minha avó. Ao perceber que o pessoal estava gostando mais dos pratos, fui substituindo os hamburgueres aos poucos. Ali entrei em definitivo no papel de chef.
Fui estruturando o Mesa aos poucos, até chegar ao formato de hoje: um restaurante intimista, que trabalha sob reserva e mesas por ordem de chegada. Quando finalmente parecia que tinha dado tudo certo, comecei a sentir uma fraqueza na mão esquerda, que, com o tempo, foi se estendendo para o braço todo. Passei um ano investigando para, em 2022, receber o diagnóstico do ELA [Esclerose Lateral Amiotrófica, doença neurodegenerativa progressiva que afeta os neurônios responsáveis pelo controle dos movimentos].
Minhas primeiras reações foram de negação e revolta. Não parei de trabalhar, mas foi tão disruptivo que entrei em um “modo avião”. Mentalmente, fiquei totalmente perdido, feito um barquinho sem capitão vendo o tsunami chegar. Uma pergunta ressoava na minha cabeça: ‘como Deus me deu esse restaurante e não vai me deixar cozinhar?’. Comecei a beber mais e me alimentar mal, como se quisesse ir de encontro a um caminhão. Pensar nos meus filhos foi o que me segurou para não cometer um ato egoísta nos momentos mais obscuros – ‘pior do que a doença é o que a doença te promove’. A cabeça pensava mil saídas, menos continuar [com o negócio] – quase fechei ou vendi o Mesa algumas vezes, mas minha esposa não deixou. ‘Você é mais que isso’, ela dizia.
Quando um amigo, João, que havia vivenciado uma dessas situações que nos levam a descobrir do que realmente somos feitos, me disse: ‘a doença pode te roubar muita coisa, mas não a sua felicidade’. Eu virei uma chave da noite para o dia e comecei a buscar minha essência. Precisei enterrar o João antigo e fazer nascer um novo, através de muita terapia e muito Deus para me auxiliar na ressignificação da vida. Consegui descobrir quem é o verdadeiro João Rangel, porque parei de colocar as máscaras sociais. Precisei perder fisicamente para ganhar minha liberdade espiritual e mental, o que me dá forças para não perder a ambição e a esperança – se perde isso, o ser humano pode estar fisicamente saudável, mas se mata.
A doença foi avançando. Continua, o que torna muito difícil achar um novo caminho a cada perda física – quando começo a me adaptar a um novo cotidiano, vem outra perda motora. Hoje não olho para o que me falta, mas para o que eu tenho. Claro que o ego fica ressoando no fundo do ouvido, mas eu coloco sempre a gratidão à frente, porque olho para a família que tenho, para o restaurante que tenhom com 14 pessoas que remando o barco junto comigo. Se estou aqui agora foi graças a Deus, minha família e à equipe do restaurante... e vem mais um por aí.
Fotos: Guilherme Fuzaro