Caminhos da educação superior
Antônio Esteca analisa os desafios da regulação da educação superior no Brasil
A regulação da educação superior brasileira passa por mudanças que exigem das instituições atenção às normas, aos modelos de oferta e aos critérios de qualidade. Esse cenário é tema do livro “Mapa da Regulação 2026 – Desvendando a regulação da educação superior”, que reúne orientações sobre a organização e o funcionamento do setor. Entre os colaboradores está o professor Antônio Esteca, CEO e diretor-geral da Faculdade Metropolitana, autor do capítulo “Os Caminhos na Educação Superior – Como se Organizam os Cursos Nesta Etapa da Educação no Brasil”. Formado em Ciência da Computação, Psicologia e Gestão de Negócios, Esteca iniciou a carreira na docência, passou pela coordenação de cursos e pela gestão acadêmica e administrativa. Desde 2018, atua também como avaliador do INEP/MEC, experiência que lhe permite conhecer diferentes realidades institucionais no país. Na entrevista, ele analisa os desafios da regulação, a inovação nos modelos de ensino e os caminhos para ampliar o acesso e a conclusão da formação superior.
O que o motivou a participar do livro Desvendando a regulação da educação superior – Mapa da Regulação 2026? Qual foi o foco da sua contribuição para a obra?
O principal motivo foi a oportunidade de contribuir para tornar o conhecimento sobre a educação superior e sua regulação mais acessível. O Brasil possui um sistema complexo, com diferentes tipos de instituições, cursos, formatos de oferta e exigências regulatórias, cuja estrutura nem sempre é fácil de compreender, mesmo para profissionais do setor.
Minha contribuição foi o capítulo “Os Caminhos na Educação Superior – Como se Organizam os Cursos Nesta Etapa da Educação no Brasil”, no qual apresento de forma didática a organização da educação superior brasileira.
Abordei desde os cursos sequenciais até a graduação, a pós-graduação e a extensão, explicando suas características e diferenças. Também destaquei as particularidades dos bacharelados, das licenciaturas e dos cursos superiores de tecnologia. A ideia central é que a educação superior não deve ser vista como um conjunto de formações isoladas, mas como um ecossistema de oportunidades que podem se complementar ao longo da vida. Acredito na importância de traduzir assuntos técnicos para uma linguagem compreensível, algo que também procuro fazer em meus artigos sobre políticas educacionais, regulação e avaliação.
Bacharelados, licenciaturas e cursos superiores de tecnologia têm objetivos distintos. Quais são os principais desafios para estruturar essas formações e garantir que cada uma atenda às suas finalidades?
O primeiro desafio é compreender que estamos falando de três tipos de graduação com finalidades diferentes, mas igualmente importantes. Os bacharelados procuram oferecer uma formação mais ampla, combinando fundamentos científicos, conhecimentos teóricos e competências profissionais. As licenciaturas têm a responsabilidade específica de formar professores para a educação básica, o que exige uma forte articulação entre conhecimentos científicos, pedagógicos e prática docente.
Já os cursos superiores de tecnologia possuem uma característica importante: são graduações mais direcionadas a determinadas áreas profissionais, geralmente com duração menor e forte conexão com o mundo do trabalho. Um equívoco bastante comum é considerar os cursos superiores de tecnologia como formações de qualidade ou nível acadêmico inferior. Não são. São cursos de graduação, conferem diploma de nível superior e permitem o ingresso na pós-graduação.
Na estruturação desses cursos, o grande desafio é construir projetos pedagógicos coerentes com suas finalidades, respeitando as diretrizes nacionais e as necessidades da sociedade. Também considero fundamental evitar a excessiva padronização. Não podemos esperar que formações com objetivos diferentes sejam estruturadas a partir de uma mesma lógica pedagógica. A qualidade de um curso deve ser avaliada, principalmente, pela capacidade de cumprir sua missão formativa.
Os cursos superiores de tecnologia têm uma ligação direta com áreas específicas do mercado de trabalho. Como as instituições podem acompanhar as mudanças nas profissões e adaptar esses cursos às novas demandas?
Esse é um dos maiores desafios dos cursos superiores de tecnologia, diante da velocidade das transformações tecnológicas. Algumas competências profissionais se tornam obsoletas rapidamente, enquanto novas ocupações e especialidades surgem em intervalos cada vez menores.
Para acompanhar esse cenário, as instituições precisam manter uma relação próxima com o setor produtivo, ouvir empresas, acompanhar indicadores de empregabilidade e monitorar a trajetória dos egressos. Também é essencial revisar os projetos pedagógicos, incorporando novas tecnologias, metodologias e competências, sempre respeitando as diretrizes regulatórias.
Entretanto, as instituições não podem formar profissionais apenas para atender às necessidades imediatas do mercado. Precisam desenvolver competências que permitam aos estudantes continuar aprendendo e se adaptar ao longo da carreira. O profissional de hoje provavelmente precisará se reinventar diversas vezes. Por isso, a capacidade de aprender continuamente será uma das competências mais importantes para o futuro do trabalho.5. O avanço da educação a distância, da inteligência artificial e de novas formas de aprendizagem tem provocado mudanças no ensino superior.
Como as instituições podem incorporar essas transformações sem comprometer a qualidade da formação acadêmica?
A primeira questão é compreender que inovação e qualidade não são conceitos opostos. Pelo contrário, quando bem utilizadas, as tecnologias podem ampliar significativamente as possibilidades de aprendizagem.
Sou um defensor da educação a distância porque conheço seu potencial de democratização do acesso ao ensino superior. Para milhões de brasileiros, especialmente aqueles que trabalham, possuem responsabilidades familiares ou vivem distantes dos grandes centros, a EaD representa uma oportunidade concreta de formação.
Entretanto, a qualidade não está determinada pelo formato de oferta, mas pela consistência do projeto pedagógico, pela preparação dos professores, pelas estratégias de aprendizagem e pelos resultados alcançados pelos estudantes. A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão a esse cenário. Ela permite personalizar experiências de aprendizagem, identificar dificuldades dos estudantes e ampliar as possibilidades de acompanhamento pedagógico.
Ao mesmo tempo, precisamos discutir seus limites, especialmente em relação à autoria, à integridade acadêmica e ao desenvolvimento do pensamento crítico. Não acredito que o futuro da educação esteja em substituir professores por tecnologias. Acredito em utilizar as tecnologias para potencializar o trabalho dos professores e melhorar a aprendizagem.
O grande erro seria tentar preservar modelos educacionais do passado apenas porque estamos acostumados com eles. A educação precisa evoluir na mesma velocidade em que a sociedade se transforma.
Como conciliar as exigências de regulação e avaliação do ensino superior com a autonomia das instituições e a criação de novos modelos de formação?
Considero que regulação, avaliação e autonomia institucional devem ser complementares, e não forças opostas. A regulação é indispensável para proteger os estudantes, assegurar condições adequadas de oferta e garantir a credibilidade dos diplomas. Entretanto, precisamos evitar que o excesso de exigências comprometa a inovação das instituições.
Um dos riscos da regulação excessivamente prescritiva é transformar meios em finalidades. A quantidade de atividades presenciais, por exemplo, não garante, por si só, a aprendizagem. Precisamos de modelos avaliativos que valorizem evidências de qualidade, resultados educacionais, permanência dos estudantes, formação proporcionada e inserção dos egressos na sociedade.
A autonomia institucional deve vir acompanhada da responsabilidade pelos resultados. As instituições precisam ter liberdade para desenvolver soluções pedagógicas inovadoras, desde que demonstrem sua efetividade. O papel da regulação é garantir a qualidade da educação, e não determinar que todas as instituições ensinem da mesma maneira.
Olhando para Ribeirão Preto e região, quais são os principais desafios do ensino superior nos próximos anos?
Ribeirão Preto ocupa uma posição privilegiada no cenário educacional brasileiro, com instituições reconhecidas, centros de pesquisa e uma economia diversificada, que inclui saúde, agronegócio, tecnologia, indústria e serviços. Entretanto, acredito que teremos três grandes desafios nos próximos anos. O primeiro será ampliar o acesso ao ensino superior e garantir que mais estudantes concluam suas formações. O ingresso na faculdade é apenas o começo dessa trajetória.
O segundo será aproximar as instituições das necessidades econômicas e sociais da região, formando profissionais preparados para as transformações do agronegócio, da saúde, da indústria e dos serviços, especialmente diante do avanço da inteligência artificial e da automação. O terceiro desafio será a inovação. O perfil dos estudantes mudou, as formas de aprendizagem estão evoluindo e as expectativas em relação à formação superior também.
As instituições que combinarem qualidade acadêmica, flexibilidade, inovação e proximidade com os estudantes estarão mais preparadas. Ribeirão Preto tem potencial para consolidar sua posição como polo de educação, conhecimento e inovação. Mas o sucesso do ensino superior não deve ser medido apenas pelo número de instituições ou matrículas, e sim por quantas pessoas concluem os estudos e transformam essa formação em melhores oportunidades de vida.
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