O ‘x' da questão

O ‘x' da questão

Para o engenheiro florestal Daniel Caiche, a arborização urbana precisa ser tratada como infraestrutura crítica, tão prioritária quanto rede elétrica e drenagem

Um coqueiro de 30 metros caiu no Jardim Paulista durante o vendaval de 24 de julho. Uma entre muitas cenas contabilizadas pela prefeitura, preliminarmente, em 1.500 árvores derrubadas pela tempestade que atingiu Ribeirão Preto naquela madrugada. Para o engenheiro florestal Daniel Tonelli Caiche, doutor em Ciências Ambientais com pós-doutorado em Cidades Globais, o episódio expõe uma contradição que a cidade ainda não resolveu: precisa de mais árvores para enfrentar o calor, mas não sabe cuidar das que já possui. Coordenador do grupo de trabalho que elaborou o texto do projeto de lei da Política Nacional de Arborização Urbana, hoje Caiche atua como coordenador técnico de projetos de carbono e finanças sustentáveis. Nesta entrevista à Revide, ele defende que a arborização urbana seja tratada como infraestrutura crítica, tão prioritária quanto a rede elétrica ou o sistema de drenagem, e mostra, com números, por que o modelo atual é reativo: a Prefeitura gasta R$ 23 milhões por ano com manutenção da arborização, e o vendaval de julho, sozinho, deve custar R$ 21,15 milhões só em limpeza emergencial.

 

Como poderia ser feita uma melhor gestão desse desafio: o déficit de árvores da cidade versus a necessidade de plantio seguro?

 

Precisamos ter clareza de que já sentimos os efeitos das mudanças climáticas, e os modelos científicos mais robustos mostram que essa intensidade só vai aumentar. Por isso, penso em duas agendas complementares: mitigação, redução de emissões rumo a uma economia de carbono neutro, e adaptação, medidas que aumentem nossa resiliência aos efeitos já em curso. Ampliar a cobertura arbórea é estratégia essencial para melhorar a qualidade do ar e enfrentar ilhas e ondas de calor. Ao mesmo tempo, em eventos extremos, como microexplosões atmosféricas e rajadas muito fortes, sentimos o lado inverso: a queda de árvores afeta diferentes dimensões da vida na cidade. A conclusão é que a arborização urbana é uma infraestrutura da cidade, tanto quanto a rede elétrica ou o sistema viário, e como toda infraestrutura, precisa ser gerida, não apenas ampliada. O primeiro passo é saber exatamente a condição em que estamos: não existe planejamento sério sobre aquilo que não se conhece. Defendo, como ponto de partida, um inventário arbóreo completo do município, com espécie, porte, estado fitossanitário, risco de queda e proximidade de redes e edificações.

 

Existem hoje informações suficientes para fazer uma gestão de forma adequada?

 

Temos algumas informações, mas ainda insuficientes para uma gestão realmente adequada. Em 2022, foi feito o Inventário Amostral da Arborização de Acompanhamento Viário, primeiro diagnóstico que permitiu estimar a condição de arborização da cidade. Esse estudo identificou que Ribeirão Preto tem aproximadamente 17% de sua área urbana coberta por copas de árvores. Há um consenso científico de que o mínimo desejável é de 30% — temos um déficit de 13 pontos percentuais, e numa cidade quente como Ribeirão, esse indicador deveria ser ainda maior. O problema é que, ao analisar o estado fitossanitário de cada árvore, o inventário cobriu apenas 10% das vias públicas. É um avanço real, mas parcial. E o temporal de 24 de julho mostrou por que essa parcialidade importa, pois o evento não atingiu a cidade de forma uniforme, alguns setores foram muito mais afetados do que outros. Precisamos conhecer o estado de todas as árvores, principalmente as de acompanhamento viário, pelo risco de cair sobre postes, fiação, edificações, veículos e, sobretudo, pedestres.

 

Alguém sabe, ainda que aproximadamente, quantas árvores a cidade tem?

 

O Inventário Amostral da Arborização de Acompanhamento Viário, de 2022, contratado pela Prefeitura, é um estudo amostral, não um censo completo. A equipe percorreu 290,8 km lineares de calçadas e canteiros, cerca de 10% do sistema viário urbano. Nessa amostra foram identificados 26.669 indivíduos arbóreos e arbustivos, densidade média de 92 árvores por km. O estudo também mapeou os vazios arbóreos — espaços na calçada onde caberia uma árvore e não há nenhuma — e encontrou 28.811 vazios. Ou seja, mesmo nessa amostra, há mais espaço disponível para plantio do que árvores efetivamente plantadas. Extrapolando essa densidade para 100% do sistema viário, chegamos a uma estimativa entre 266 mil e 267 mil árvores e arbustos nas vias públicas de Ribeirão Preto. É uma estimativa por amostragem, não uma contagem exata. Por isso, reforço: precisamos de um inventário total, não amostral, principalmente nas vias públicas, onde o risco de queda sobre pessoas, veículos, edificações e redes é maior.

 

Quem deveria ser responsável por controlar o plantio de árvores na cidade?

 

Assim como a gestão das demais infraestruturas urbanas é responsabilidade da municipalidade, a arborização urbana também deve continuar sendo. Isso não impede pensar novos modelos, como concessão ou consórcio entre municípios da região metropolitana. Quanto maior a capacidade do Estado de gerir essa infraestrutura, maior sua capacidade de proteger as pessoas, reduzir riscos e fortalecer a confiança nas instituições públicas.

 

É recomendável que pessoas e grupos saiam plantando árvores pela cidade sem controle técnico?

 

Há árvores plantadas em locais que hoje atrapalham a visibilidade no trânsito, por exemplo? É desejável, e muito bem-vindo, que as pessoas estejam cada vez mais conscientes da importância das árvores urbanas, pois esse engajamento é parte da solução para o déficit de arborização. No entanto, não é recomendável que a população plante em áreas públicas por conta própria, sem critérios técnicos. A escolha da espécie, a distância de redes elétricas e edificações, e a projeção de como a árvore vai crescer ao longo de décadas são decisões técnicas, não de gosto pessoal. Um plantio bem-intencionado, mas mal planejado, pode virar o problema que estamos discutindo: uma árvore que compromete a visibilidade no trânsito, cresce sob a fiação e exige podas agressivas recorrentes, ou tem raiz incompatível com o espaço da calçada. O caminho correto é o munícipe entrar em contato com a Prefeitura antes de plantar, para que a escolha da espécie e do local sigam o procedimento técnico e legal adequado.

 

Como poderia ser feito o trabalho de avaliação e, quando necessário, de supressão das árvores que estão comprometidas?

 

Esse trabalho começa por uma avaliação técnica individualizada de cada árvore, feita por profissional habilitado, engenheiro florestal, agrônomo ou arborista com formação em avaliação de risco. Existem metodologias consolidadas internacionalmente, que analisam tronco, raízes, copa, sinais de apodrecimento, cavidades, inclinação, histórico de podas mal executadas e a proximidade de redes elétricas, edificações e áreas de grande circulação. A partir desse diagnóstico, a árvore é classificada por nível de risco — e nem toda árvore de risco precisa ser suprimida. Muitas vezes o problema se resolve com poda técnica, cabeamento de contenção ou mudanças no entorno. A supressão deve ser a última alternativa, reservada para os casos em que o risco de queda é iminente. O ponto central é que essa avaliação não pode ser pontual ou reativa, feita só depois que a árvore já caiu. Precisa ser parte de um programa contínuo de monitoramento, com prioridade para árvores de grande porte em vias de grande circulação, perto de hospitais, escolas e áreas de grande fluxo de pedestres, onde a consequência de uma queda é mais grave.

 

Ribeirão enfrenta um problema parecido com o de São Paulo, que também lida com vendavais recorrentes. A cidade pode aproveitar a experiência de outros municípios?

 

Temos exemplos brasileiros que servem como referência. Maringá, no Paraná, grande referência em arborização urbana, também enfrenta vendavais recorrentes com queda de árvores e impacto na rede elétrica. Em projetos de reurbanização recentes, a cidade tem repensado o desenho da infraestrutura urbana como um todo: alargamento de calçadas para dar mais espaço de raiz e copa às árvores, rebaixamento ou enterramento de cabos de energia, e rebaixamento dos postes de iluminação, um desenho pensado para conviver com a árvore de grande porte, em vez de empurrá-la para um espaço apertado que gera conflito permanente. Belo Horizonte é referência por outro caminho: o da governança de dados. A cidade fez uma parceria entre a Prefeitura, a Universidade Federal de Lavras e a Cemig para estruturar o SIIA-BH, Sistema de Informações do Inventário da Arborização de Belo Horizonte. Diferente do modelo amostral que Ribeirão Preto tem hoje, BH avançou para um cadastro completo, com mais de 500 mil árvores em logradouros públicos, cada uma avaliada em dezenas de critérios técnicos de saúde e risco, uma base compartilhada entre Prefeitura e concessionária de energia, que permite antecipar prioridades de poda e remoção antes que a árvore caia, não depois.

 

Na sua avaliação, qual seria a gestão ideal para esse equilíbrio entre arborização e segurança?

 

A gestão ideal parte de um princípio simples: entender a arborização urbana como infraestrutura crítica da cidade, no mesmo patamar da rede elétrica, do sistema viário ou da drenagem. E toda infraestrutura crítica precisa de três pilares funcionando ao mesmo tempo: diagnóstico completo, avaliação técnica contínua e coordenação institucional. O diagnóstico completo, porque não dá para gerir com precisão o que se conhece apenas por amostragem. Um inventário total, como o de Belo Horizonte, diria exatamente onde estão as árvores de maior risco e maior porte, mais próximas de redes, hospitais, escolas e áreas de grande circulação. A avaliação técnica contínua, com plano de poda e manejo preventivo, não reativo, para intervir antes da tempestade, não depois dela. E a coordenação institucional, talvez o pilar mais difícil de construir: hoje, o manejo de uma árvore de risco passa por Prefeitura, órgão ambiental, concessionária de energia e, em alguns casos, Ministério Público, cada um com sua competência e seu tempo de resposta — enquanto isso, a árvore de risco permanece onde está. Maringá e Belo Horizonte mostram um caminho possível que é integrar esses atores em um fluxo único de decisão, com dados compartilhados e desenho urbano que reduza o conflito entre árvore e rede desde a concepção da rua.

 

Os recursos públicos hoje são suficientes, ou há necessidade de um investimento maior para evitar a repetição desse tipo de desastre?

 

De acordo com a Lei Orçamentária Anual de 2026, a Prefeitura destina R$ 23 milhões para o ano inteiro à manutenção rotineira da arborização, que inclui roçada, poda e paisagismo. O temporal de 24 de julho deve custar R$ 21,15 milhões só em limpeza emergencial e remoção de árvores, valor que a própria Prefeitura encaminhou ao Governo Federal pedindo reconhecimento de emergência e repasse de recursos. Ou seja, em poucos dias, uma tempestade consumiu praticamente o equivalente a um ano inteiro do orçamento municipal de manutenção arbórea. É a prova mais concreta de que o modelo atual é reativo, não preventivo, a cidade gasta relativamente pouco para cuidar da árvore antes que ela caia, e depois precisa gastar um valor quase equivalente, de uma só vez, para limpar os estragos de quando ela cai. Isso sem contar o custo mais difícil de quantificar, que é o risco à vida. Ainda pela LOA 2026, apenas 1% do orçamento vai para a Secretaria de Meio Ambiente. O padrão se repete pelo Brasil, onde investe-se pouco em prevenção e manejo contínuo, e paga-se um preço multiplicado em resposta emergencial. Se uma fração do que foi gasto em limpeza emergencial fosse redirecionada para prevenção — inventário completo, poda técnica programada e uma linha orçamentária de expansão da cobertura arbórea —, o mesmo dinheiro teria potencial de reduzir a frequência e a gravidade desses episódios, em vez de apenas remediar seus efeitos depois que já aconteceram.  

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