Os Arnaldos
Pai e filho usam quadrinhos e linguagem visual para repensar o ensino de História e aproximar alunos da aprendizagem
Em tempos de atenção fragmentada, excesso de estímulos digitais e desinteresse crescente em sala de aula, dois professores de Ribeirão Preto vêm apostando no desenho, nas histórias em quadrinhos (HQs) e na criatividade como ferramentas para transformar o ensino de História. Conhecidos como “Os Arnaldos”, Arnaldo Martinez de Bacco Junior e Arnaldo Martinez de Bacco Neto desenvolveram, ao longo de décadas, uma metodologia própria que combina HQs, mapas mentais ilustrados, zines e produção autoral dos alunos para estimular aprendizagem, engajamento e protagonismo em sala de aula. Pai e filho, eles têm em comum a paixão pela História e pela educação. Junior é graduado em História, com mestrado e doutorado em Educação; Neto iniciou a trajetória na administração antes de abandonar o mundo dos negócios para seguir carreira docente. O que começou de forma intuitiva, com desenhos na lousa para facilitar a compreensão dos conteúdos, transformou-se em um método estruturado, hoje aplicado em escolas públicas e privadas e fundamentado em estudos sobre neurociência, criatividade e aprendizagem
Em que momento você percebeu que queria ser professor — e como o desenho entrou nessa trajetória profissional?
Arnaldo Junior: O desenho para mim é natural. Eu sempre desenhei e quando comecei a lecionar, logo me vi desenhando na lousa. Primeiro os mapas de localização, depois os personagens que interagem com os alunos, as aulas ilustradas, as apostilas e por aí foi.
Arnaldo Neto: Todos nós desenhamos em nossa primeira infância, mas a estrutura escolar, a falta de incentivos, faz com que muitos parem de desenhar. E aí está um dos pontos fundamentais de nossa metodologia que é o resgate desse primeiro desenho adormecido lá dentro do aluno. Não somos professores de Arte, não pretendemos formar artistas, mas pessoas criativas, que saibam encontrar soluções para as mais diversas complexidades. O desenho ajuda muito a desenvolver esse lado criativo nos alunos.
Quando você decidiu transformar conteúdo histórico em quadrinhos, imaginava que aquilo poderia se tornar uma metodologia estruturada?
Arnaldo Junior: Como disse, o desenho surgiu naturalmente nas minhas aulas e no início, nem imaginava o alcance que o desenho poderia ter. Só comecei a perceber quando os alunos começaram a copiar em seus cadernos, os desenhos que eu fazia na lousa, não iguais aos meus, mas no jeito de cada um desenhar. Daí, passei a estudar mais sobre o modo como o cérebro aprende, o que me levou a algumas especializações e aos poucos fui estruturando essa ferramenta.
Arnaldo Neto: Quando comecei a lecionar, me deparei com o desinteresse e a indisciplina dos alunos. Comecei a desenhar na lousa mais como um jeito de chamar a atenção dos alunos e deu muito certo. Tão certo que uso o desenho como ferramenta de ensino no ensino fundamental, no ensino médio e na faculdade, quando lecionava no terceiro grau. O desenho tem um poder de sintetização surpreendente e ajuda ao aluno na compreensão dos conteúdos.
Em que medida o contato com áreas como neurociência e teorias da aprendizagem ajudou a consolidar seu método?
Arnaldo Neto: Nosso cérebro funciona como uma usina de ideias, mas essa usina precisa ser estimulada para poder gerar essa energia criativa. Numa sociedade em que os estímulos já veem prontos e não desafiam a inteligência, a tendência do pensamento criativo é atrofiar. Nossa metodologia atua exatamente nessa linha limítrofe. Ao propor desafios criativos aos nossos alunos, incentivamos o uso dos dois lados do cérebro. O tal “sair da caixinha” que hoje se fala muito. Além disso, ao desenhar, o aluno desenvolve a coordenação motora fina que é o nosso grande diferencial em relação aos outros animais. Veja, nós humanos aprendemos a desenhar antes de aprendermos a falar. Isso acontece hoje e isso aconteceu no início da humanidade. Nossos antepassados desenhavam nas cavernas o que ainda não conseguiam registrar pela fala ou escrita.
Há resistência por parte de alunos — ou até de colegas professores — em relação ao uso de HQs como linguagem pedagógica?
Arnaldo Junior: No começo, claro que meu modo de ensinar causou uma estranheza em alguns colegas e gestores e ao mesmo tempo, encantamento em outros. Os alunos, no entanto, receberam a novidade com a mente aberta, desde o início.
Arnaldo Neto: Evidente que nosso modo de ensinar chama a atenção. Imagina uma lousa que mais parece uma página de gibi ou de almanaque antigo, cheio de desenhos, balões com frases de efeito, mapas conceituais ilustrados e tudo o mais. Porém, meu fazer pedagógico sempre foi tranquilo, muito mais na admiração do que na crítica. E quando alguém faz uma crítica, alguma observação ao nosso método, aceitamos gratos, pois tudo é um processo no qual estamos sempre aprendendo, buscando respostas, construindo outras.
Há algum caso ou situação que mais te marcou ao longo desses anos aplicando essa metodologia?
Arnaldo Junior: Mesmo não tendo a pretensão de formar artistas, depois de um bom tempo na sala de aula, hoje conseguimos ver que alguns alunos de fato, enveredaram pelo caminho das artes visuais, do desenho, das artes plástica e até dos quadrinhos. Também é comum encontrar antigos alunos pela rua e eles logo se lembrarem dos desenhos e relatarem que performaram bem num concurso ou num vestibular porque os desenhos os ajudaram a lembrar as respostas corretas por associação ou que em seu trabalho diário, fazem uso do pensamento criativo e isso os auxilia a fazer a diferença e isso é muito gratificante. Mas o mais gratificante é quando um aluno com grandes dificuldades cognitivas ou até com algum tipo de comprometimento que dificulte sua aprendizagem, consegue, por meio de uma atividade visual, expressar sua compreensão sobre a aula. Essa alegria de ver que o desenho faz com que na sala de aula dos Arnaldos possa caber todo mundo, sem distinção, não tem preço.
Em um cenário dominado por estímulos digitais e atenção fragmentada, o que o seu método nos aponta sobre os limites do modelo tradicional de ensino e sobre o futuro da educação?
Arnaldo Junior: O que faz uma aula ser tradicional ou inovadora, não é a ferramenta, mas o que o professor faz com a ferramenta. O professor pode ter às mãos os mais avançados recursos tecnológicos e dar uma aula extremamente tradicional, conservadora, ao passo que outro professor pode ter somente uma lousa e um giz e dar uma aula profundamente inovadora, transformadora. A boa aula é aquela em que o aluno saia dela com mais ideias do que entrou e, se possível, com muitas perguntas e reflexões.
Arnaldo Neto: As mídias sociais, a IA e outros recursos tecnológicos estão aí e não podemos ignorá-los ou demonizá-los. Precisamos aprender o seu uso para poder extrair delas o maior proveito possível, mas temos também que ter cuidado para que o seu uso não desestimule o pensamento criativo que a gente só aprende praticando. É bom ter um tablet, um celular etc. Mas também é primordial que a criança escreva, desenhe, que exercite sua mão para que o cérebro registre esses movimentos síncronos entre o corpo e o pensamento. O novo não apaga o velho e nem o velho se sobrepõe ao novo. Assim como na vida, só construímos um bom futuro quando damos as mãos, velhos e novos, com um único objetivo: nos tornar cada dia mais humanos.