Prevenção feminina

Prevenção feminina

Câncer de colo do útero ainda desafia a saúde pública; prevenção passa por vacina e diagnóstico precoce, explica especialista

O mês de março é marcado pela campanha Março Lilás, iniciativa dedicada à conscientização e à prevenção do câncer de colo do útero. A mobilização busca informar a população sobre uma doença que ainda representa um importante problema de saúde pública, apesar de ser altamente prevenível. No Brasil, são estimados cerca de 17 mil novos casos por ano, além de milhares de mortes que poderiam ser evitadas com vacinação, exames de rastreamento e tratamento precoce. A principal causa da doença é a infecção persistente pelo HPV (papilomavírus humano), um vírus sexualmente transmissível bastante comum. Como a evolução para o câncer costuma ser lenta, o diagnóstico precoce por meio de exames como o Papanicolau ou testes de HPV permite identificar alterações antes mesmo do surgimento do tumor. Em entrevista à Revide, a Dra. Silvana Maria Quintana, Professora Titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), explica como ocorre a relação entre o HPV e o câncer, detalha os principais fatores de risco, comenta o papel decisivo da vacinação e alerta para a baixa cobertura de exames preventivos no país. A especialista também aborda os sinais que podem surgir em estágios mais avançados da doença e reforça a importância do acompanhamento ginecológico regular como estratégia central para reduzir a incidência e salvar vidas.

 

O câncer de colo do útero ainda está entre os tumores mais comuns entre as mulheres. Por que ele continua sendo um problema de saúde pública mesmo com métodos de prevenção disponíveis?

 

O câncer de colo tem início como uma infecção sexualmente transmissível, a infecção pelo HPV, e representa um importante problema de saúde pública. No Brasil, estimam-se cerca de 17 mil novos casos por ano, o que faz desse tumor o terceiro mais frequente entre as mulheres, excluindo o câncer de pele não melanoma. A doença também provoca mais de 6 mil mortes anuais no país. Hoje sabemos que o câncer de colo do útero pode ser prevenido com três medidas principais: vacinação contra o HPV, rastreamento periódico, ou seja, a realização de exames que detectam o HPV ou as células alteradas pelo vírus (Papanicolau) e o tratamento das lesões precursoras. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu uma estratégia global para eliminar esse câncer como problema de saúde pública nas próximas décadas (até 2030), estabelecendo metas de 90% de vacinação contra o HPV em meninas até 15 anos; 70% de cobertura de rastreamento com testes de alta performance até os 35 e 45 anos; e 90% de tratamento para mulheres com doença cervical. O acesso à vacinação e aos exames para rastrear esta infecção viral são as principais formas de evitar o câncer cervical, mas infelizmente ainda não são a realidade no nosso país. Nossa cobertura vacinal não atinge 90% e o rastreio de câncer do colo, de acordo com o INCA, é de 33%, ou seja, de cada 100 mulheres que deveriam realizar exames, apenas 33 realizam.

 

Grande parte dos casos está associada ao HPV. Como ocorre essa relação entre o vírus e o desenvolvimento do câncer?

 

O HPV, ou papilomavírus humano, é um vírus muito comum. Estima-se que cerca de 80% das pessoas sexualmente ativas terão contato com o vírus em algum momento da vida. Na maioria das vezes, o organismo elimina o vírus espontaneamente. No entanto, alguns tipos são considerados de alto risco para câncer, especialmente os tipos 16 e 18, responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de câncer de colo do útero no mundo. Quando a infecção por esses tipos de HPV persiste por muitos anos, ela pode provocar alterações nas células do colo do útero. Esse processo costuma ser lento e pode levar 10 a 20 anos até evoluir para câncer. Justamente por essa evolução lenta, o rastreamento consegue identificar alterações antes que a doença se desenvolva.
 

Quais são os principais fatores de risco que podem aumentar a chance de uma mulher desenvolver o câncer de colo do útero?

 

O principal fator de risco é a infecção persistente por HPV de alto risco. No entanto, alguns fatores podem favorecer a persistência do vírus e aumentar o risco de evolução para câncer. Entre eles estão: início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros sexuais, tabagismo, sistema imunológico enfraquecido, infecção por HIV e ausência de rastreamento regular. Outro fator importante é não ter recebido a vacinação contra o HPV, que hoje representa uma das formas mais eficazes de prevenção da doença.

 

Muitas vezes a doença é silenciosa. Existem sintomas que podem servir de alerta ou o diagnóstico depende principalmente dos exames preventivos?

 

Nas fases iniciais, as lesões precursoras ou o câncer de colo do útero em estágio inicial geralmente não provocam sintomas. Por isso, o diagnóstico depende principalmente dos exames de rastreamento (Teste do HPV ou a citologia-Papanicolaou). Quando a doença já está em estágios mais avançados, podem surgir sinais como sangramento vaginal fora do período menstrual, sangramento após relação sexual, corrimento persistente ou dor pélvica. No entanto, o objetivo do rastreamento é justamente identificar alterações antes que o câncer apareça, detectando as chamadas lesões precursoras, que podem ser tratadas precocemente.
 

Nos últimos anos, a vacinação contra o HPV passou a fazer parte das estratégias de prevenção. Qual é o papel dessa vacina na redução dos casos da doença?

 

A vacina contra o HPV é considerada uma das ferramentas mais importantes na prevenção do câncer de colo do útero. Ela protege contra os principais tipos do vírus responsáveis pela maioria dos casos da doença. Em países que atingiram altas coberturas vacinais, já se observou uma redução expressiva das infecções por HPV, das lesões precursoras e até dos casos de câncer em mulheres jovens. No Brasil, a vacina está disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos a partir dos 9 anos. Quando aplicada antes do início da vida sexual, ela oferece a maior proteção. A vacina é capaz de reduzir infecções em adolescentes em cerca de 88% e, consequentemente, diminuir o número de lesões precursoras — cerca de 40% nas lesões pré-cancerosas do colo do útero. No Brasil, um estudo com dados do SUS envolvendo mais de 60 milhões de mulheres mostrou que a vacinação reduziu em 58% os casos de câncer de colo do útero e em 67% as lesões pré-cancerosas graves. Além disso, o perfil de segurança é muito favorável: mais de 135 milhões de doses administradas foram monitoradas sem sinais de problemas graves relacionados à vacina. A vacinação em larga escala tem potencial de reduzir drasticamente a incidência desse câncer nas próximas décadas.

 

Para finalizar, qual mensagem a senhora deixaria para as mulheres sobre a importância do cuidado preventivo e da realização periódica dos exames ginecológicos?

 

O câncer de colo do útero é um dos poucos tipos de câncer que podemos prevenir de forma muito eficaz. Hoje contamos com três ferramentas fundamentais: vacinação contra o HPV, rastreamento e tratamento precoce das lesões precursoras. Tradicionalmente, o rastreamento era feito com o exame de Papanicolau, que identifica alterações nas células do colo do útero. Nos últimos anos, muitos países e serviços de saúde passaram a incorporar o teste de HPV como método de rastreamento, que é mais sensível porque detecta diretamente a presença do vírus responsável pela doença. Esse novo modelo permite identificar mulheres com maior risco de desenvolver câncer antes mesmo de surgirem alterações celulares, tornando a prevenção ainda mais eficaz. A principal mensagem é que a prevenção salva vidas. Manter o acompanhamento ginecológico regular, realizar os exames recomendados e garantir a vacinação dos adolescentes são medidas simples que podem evitar a grande maioria dos casos de câncer de colo do útero. 

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