Caminhos que ensinam
Entre sonhos, medos, carreira e reinvenções, quatro mães avaliam o maternar aos 40 anos
Completando quatro décadas este ano, a Revide olha para sua própria trajetória com a maturidade de quem aprendeu a atravessar transformações sem perder a essência. Aos 40, o orgulho pelo caminho construído se mistura à consciência dos desafios enfrentados e à disposição para continuar entregando para a cidade sua melhor versão. Algo que se repete todos os dias, com inúmeras mamães que atravessam também esta fase da vida.
Monise Lujan, Marcela Marques Ferreira, Maria Paula Gironi Pontes e Daiana Pezarezi Yoshimura, por exemplo, percebem um ponto comum de convergência, aos 40 anos, quando as urgências começam a perder espaço para as prioridades e o excesso dá lugar ao essencial. Seja para quem foi mãe muito jovem e hoje vive a colheita dessa relação ou para quem descobriu na maturidade mais escuta, mais presença e menos culpa, a dos 40 é uma fase atravessada por consciência.
Mulheres distintas, com rotinas e profissões diferentes e histórias completamente particulares, essas mães se veem conectadas pela percepção de que a maternidade não as tornou perfeitas, mas mais humanas, conscientes dos próprios limites, capazes de sustentar escolhas e disponíveis para crescer junto com os filhos. A mesma disposição da Revide junto aos seus leitores.
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DE SURPRESA
Ela queria ter filhos mais madura e emocionalmente preparada para a responsabilidade de formar um ser humano, mas a vida não esperou sua versão “ideal” de maternidade. Aos 24 anos, em meio a um tratamento hormonal e com a vida profissional começando a ganhar forma, Monise Lujan descobriu que estava grávida. “Foi um choque”, lembra.
Na época, questionava sua capacidade de equilibrar carreira, maternidade e vida pessoal. A gravidez, no entanto, acelerou seu amadurecimento. Depois do susto inicial, veio a entrega e, aos poucos, ela deixou de enxergar a gestação como uma interrupção de planos. “A gente cai na realidade e começa a curtir”, diz. Foi assim, entre medos e descobertas, que o “susto” virou experiência vivida com intensidade. “Era uma montanha-russa de sentimentos”, recorda.
A maternidade de Monise foi construída no dia a dia, no improviso possível de quem ainda estava aprendendo a ser e, ao mesmo tempo, já precisava ser... Mãe.
Hoje, aos 40, olhando para trás, ela ressignifica tudo. O que antes parecia cedo demais, agora ganha outro valor. Ser mãe jovem permitiu que ela crescesse junto com o filho e, mais do que isso, construísse com ele uma relação que ultrapassa os papéis tradicionais, criando um vínculo raro. Pedro, hoje com 16 anos, não é apenas filho, mas parceiro de viagens, conversas e de trocas. “A gente se curte muito”, conta. Talvez – acredita – porque ela tenha escolhido, desde cedo, não se distanciar do universo dele, mantendo-se atualizada, interessada e disponível.
Não há barreira geracional rígida entre eles, mas troca, algo que deixa a relação horizontal, ampliando o espaço de conexão, sem que ela perca o lugar de mãe. Para Monise, a maturidade chegou na prática. “Quando nasce um filho, nasce uma mãe”, lembra. O instinto, segundo diz, atravessa idade, preparo ou planejamento. “A gente vira uma leoa. E não é força de expressão”, acrescenta. Trata-se de um estado quase automático de prontidão, de defesa, entrega.
Desenhando sua maternidade com firmeza, limites claros, presença ativa e olhar atento ao que considera essencial – a formação do caráter –, ela resume seu maternar em uma frase: “Educar é a maior prova de amor.” Em um cenário onde, muitas vezes, o amor se confunde com ausência de limites, Monise não encontrou dificuldade em dizer “não” quando necessário. Também não renunciou a valores ou terceirizou a educação. Mesmo jovem, sustentou uma postura que, hoje, ela mesma reconhece madura, não pela idade, mas pela consciência do papel que assumiu.
A maternidade, para ela, não foi apenas transformadora, mas reveladora. “Eu me surpreendi comigo mesma”, admite. Aliás, o auto encontro foi ponto alto dessa trajetória. “Não se trata apenas de criar um filho, mas de se reconstruir enquanto cria, de se observar, se ajustar, se fortalecer. É um processo silencioso, mas contínuo. Posso dizer que essa é a minha maior realização como mulher”, conclui.
Foto: Naiane Costa
APRENDENDO A FLUIR
Se existe uma palavra que define a maternidade, para Marcela Marques Ferreira é consciência. Administradora, empresária e influenciadora, ela sempre conduziu a vida com planejamento. Foi assim com o nascimento das filhas Antonella, de 9 anos, e Catarina, de 5. Elas foram desejadas e organizadas dentro de um projeto de vida. Apesar da previsibilidade, a maternidade trouxe desafios que estavam fora dos planos. “Para mim, não foi algo natural”, admite.
Marcela nunca foi a menina que brincava de boneca. Seu universo era outro: escritório, negócios, trabalho. O instinto maternal nasceu junto com as filhas e amadureceu ao longo da convivência com elas. Talvez por isso sua forma de maternar, hoje, tenha menos romantização e mais verdade.
Ela não esconde as dificuldades. Fala abertamente sobre os julgamentos que enfrentou pela cesárea, pela amamentação e pelas escolhas na criação das filhas. O ponto de virada em sua trajetória foi quando decidiu parar de buscar aprovação externa. “Existe um botão maravilhoso que, quando a gente ativa, muda tudo: o protagonismo”, diz.
Aos 40, falando de um lugar emocionalmente mais sólido, Marcela diz que a decisão de sustentar quem se é, mesmo diante das críticas, traz profunda paz. “Maternar não significa corresponder às expectativas alheias, mas construir uma maternidade coerente com quem somos”, define. O que isso significa? Menos comparação. Menos culpa. Mais segurança para escolher o que faz sentido dentro da própria casa.
Para ela, o maior desafio não está no cuidado físico das filhas, mas na formação. “Estamos formando um ser humano”, reflete. Por isso, acredita menos em discursos e mais em exemplo. “Quero deixar no mundo meninas conscientes, íntegras, conectadas a princípios e valores reais. Sei que isso começa por mim, com minha própria postura diante da vida”, enfatiza.
Enquanto cria as filhas, Marcela também se recria. Para ela, a maternidade virou um convite inevitável ao autoconhecimento – um espelho, onde enxerga suas fragilidades e revê padrões, para interromper comportamentos que não deseja perpetuar. “Às vezes, sinto que precisaria me apresentar de novo”, brinca.
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O VALOR DA PRESENÇA
Para Maria Paula Gironi Pontes, a maternidade foi um chamado silencioso, que amadureceu junto com ela, reflexo de um desejo profundo de viver o amor em sua versão mais transformadora.
Mãe de Bernardo, de 11 anos, e Antonella, de 6, ela viveu cada gestação como um mergulho emocional diferente. A primeira carregada do “frio na barriga” de quem entra em território desconhecido. A segunda, em meio à pandemia, foi um exercício diário de resistência emocional.
Comissária de voo, Maria Paula vive uma rotina marcada por ausências – viagens, distância física, logística intensa –, mas foi justamente esse contexto que a ensinou uma das lições mais importantes: presença não é quantidade de horas. Uma consciência nascida da culpa já enfrentada, da saudade já sentida e da tentativa constante de equilibrar profissão, identidade pessoal e maternidade sem apagar nenhuma dessas partes. “Agora, quando estou com eles, estou inteira”, afirma.
Aos 40, ela entende que a maturidade trouxe algo precioso: clareza. Hoje, Maria Paula escolhe melhor onde coloca energia, o que merece atenção e o que realmente importa. Isso mudou sua forma de maternar. Com menos rigidez e mais escuta, menos busca por perfeição e mais acolhimento, inclusive consigo mesma, ela conquistou a liberdade de ser mãe sem tentar corresponder a um ideal inalcançável. “Entendi que não existe perfeição na maternidade”, diz. Assim, para além da maternidade, ela também pode ser mulher, profissional, indivíduo.
“Eles trouxeram sentido para minha vida”, resume. Não um sentido grandioso ou performático, mas o que nasce nas pequenas coisas: no tempo compartilhado, no olhar atento, na simplicidade. “Filhos precisam muito mais de conexão do que de excesso”, conclui.
ACOLHER O INESPERADO
Fisioterapeuta, instrutora de Pilates e apaixonada pelo funcionamento do corpo humano, Daiana Pezarezi Yoshimura aprendeu a enxergar movimento como algo muito maior do que deslocamento físico. “Movimento é fluxo, transformação, vitalidade. Onde há movimento, há alegria. E onde há crianças, há movimento”, resume. Uma frase que traduz o ritmo da vida com três filhos: Valenttin, de 9 anos, Marttin, 5, e Mathias, 1.
Ser mãe nunca foi uma dúvida para ela ou para o marido. O desejo era mútuo. Apesar disso, nenhuma gestação foi planejada. A primeira, chegou entre encanto e vulnerabilidade. A segunda, durante a pandemia, foi tensa. A terceira, um “susto bom”. “Ensinou-me a acolher o inesperado com amor”, brinca.
Conciliar maternidade e profissão, para ela, nunca foi simples. A decisão de voltar ao trabalho apenas 30 dias após os partos a exigiu física e emocionalmente. Havia o desejo de manter corpo e mente ativos, também a responsabilidade com os pacientes, alunos e pessoas que dependiam do seu trabalho. Na prática, foram adaptações intensas. Da rotina, do sono, da dinâmica familiar... dela mesma. “Entender que o corpo tem seu próprio tempo para se reorganizar ajudou muito”, explica.
Aos 40 anos, com uma rotina intensa, atravessada pelo trabalho, pelos filhos e pelas demandas físicas e emocionais que acompanham a maternidade, Daiana reconhece que o corpo cobra fisicamente, de outra maneira, mais cuidado, atenção e consciência. Sua maior questão é com o tempo. “Muitas vezes, sinto que fico menos com as crianças do que gostaria”, admite, não como confissão de culpa absoluta, mas como consciência.
Para Daiana, ter rede de apoio foi essencial. O marido – presente na rotina da casa, nos cuidados diários, na alimentação, nos banhos, na vida escolar dos filhos – fez diferença. Uma parceria que sustenta não só a vida prática, mas também o emocional. “Conciliar trabalho e maternidade com três meninos seria extremamente difícil sem alguém disposto a caminhar junto”, declara.
Outro elemento, silencioso, sustentando tudo ao seu redor, é a fé. Quem convive com Daiana percebe sua serenidade. Daiana aprendeu a direcionar energia apenas para aquilo que pode alcançar. O restante ela entrega, confia, acredita. “Com o tempo, aprendi a agir apenas onde o meu ciclo de influência alcança”, finaliza.