De cinco deputados estaduais eleitos por Ribeirão Preto em 2002, restam dois
De cinco deputados estaduais eleitos por RSociedade civil se levanta em busca de reverter a perda de representatividade política de Ribeirão Preto
Na manhã do último dia 27 de julho, no espaço A Fábrica, empresários, pré-candidatos e representantes de mais de vinte entidades da cidade se reuniram para o lançamento da campanha "Voto Legal é Voto Local", criada em torno de uma pergunta incômoda: por que uma cidade de quase 700 mil habitantes, motor econômico do interior paulista, elege cada vez menos gente para falar por ela em Brasília e em São Paulo? A iniciativa não busca dizer em quem votar, mas insiste em uma ideia simples: quem vota longe, colhe pouco perto.
O diagnóstico foi apresentado por Murilo Pinheiro, diretor da revista Revide, um dos veículos de comunicação que apoiam o movimento. "Já chegamos a ter cinco representantes eleitos", afirmou Pinheiro, recuperando um retrato que os próprios registros da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) confirmam: na eleição de 2002, Ribeirão Preto elegeu cinco deputados estaduais — Luís Felipe Baleia (PMDB), Duarte Nogueira (PSDB), Milton Vieira (PSB), Rafael Silva (PSB) e Adilson Barroso Oliveira (Prona). Vinte anos depois, na eleição de 2022, a cidade elegeu apenas dois: Rafael Silva (PSD) e Léo Oliveira (MDB).
Os números da última eleição sustentam o alerta. Em 2022, Ribeirão Preto elegeu apenas dois deputados estaduais com base na cidade — Rafael Silva (PSD) e Léo Oliveira (MDB) — e três deputados federais: Baleia Rossi (MDB), Ricardo Silva (PSD) e Arnaldo Jardim (CIDADANIA). Os outros dois federais eleitos com votação expressiva na cidade, Ricardo Silva (PSD) e Arnaldo Jardim (Cidadania), não disputarão a próxima eleição. Ricardo Silva foi o mais votado entre os candidatos a deputado federal em Ribeirão em 2022, com 28.537 votos (9,07% do total), seguido por Baleia Rossi, com 19.977 votos (6,35%).
À frente do movimento estão os empresários Chaim Zaher e Isabel de Farias. "O objetivo dessa campanha não é dizer em quem as pessoas devem votar. A proposta é muito mais ampla: provocar uma reflexão sobre quem estará presente quando a cidade enfrentar seus grandes desafios. Nas crises, quando a população e os setores produtivos precisam de apoio, são os representantes comprometidos com a região, que conhecem a realidade local, que podem atuar de forma mais próxima", afirmou Chaim.
O comparativo que mais incomodou os presentes veio do deputado estadual Léo Oliveira (MDB), um dos dois nomes que hoje representam a cidade na Assembleia Legislativa. "Quando olhamos para os números, percebemos que Ribeirão Preto tem cerca de 500 mil eleitores, praticamente o dobro de Franca. Ainda assim, nas últimas eleições, as duas cidades elegeram o mesmo número de deputados estaduais: dois cada uma. A diferença é que, em Franca, existe um movimento consolidado para incentivar a população a valorizar os candidatos locais. Essa mobilização faz toda a diferença, e é justamente esse espírito que começa a ser construído em Ribeirão Preto", disse.
Por que isso acontece
Para o professor Luiz Eugênio Scarpino, especialista em Direito Eleitoral, a explicação não está numa mudança recente das regras do jogo. "O sistema eleitoral relativo à eleição de deputados estadual e federal não teve alteração significativa nos últimos anos a ponto de justificar a perda de representatividade de Ribeirão Preto", afirma. Segundo ele, o fenômeno está mais ligado à concorrência de candidatos de fora — os "forasteiros" — que encontraram nas redes sociais e nas grandes mídias uma forma mais eficaz de disseminar sua mensagem do que os representantes locais tiveram de se conectar com os anseios de quem poderia votar neles.
O mecanismo, explica Scarpino, castiga quem depende só de casa. "Se aquele candidato da região de Ribeirão Preto não performar bem em outras regiões, com eleitorado fora, não só do seu domicílio eleitoral, mas da sua região, ele não vai conseguir se eleger. Hoje a votação de um deputado estadual ou federal depende de uma combinação entre o desempenho individual e o desempenho do próprio partido, que precisa atingir o quociente eleitoral para ocupar cadeiras, seja de forma direta, seja por sobras." Na prática, isso significa que um bom candidato local pode ficar de fora se o eleitorado da região dispersar o voto entre dezenas de outros nomes. "Se o eleitorado da região metropolitana de Ribeirão Preto se concentrasse em votar em candidatos da sua região, as chances de eleger mais deputados estaduais e mais deputados federais cresceriam sem sombra de dúvida", resume.
Scarpino defende que o eleitor pense além da identificação ideológica na hora de escolher um nome para deputado. "Um candidato forasteiro que obteve voto em dezenas ou até centenas de cidades terá um olhar muito pulverizado. Se queremos melhorar as condições de investimento, ampliar o retorno dos recursos públicos e obter melhor aproveitamento do elevado volume de impostos que Ribeirão Preto e sua região destinam à União e ao Estado, é importante que os deputados venham da nossa região ou, ao menos, tenham um olhar preferencial por ela", afirma. Escolher alguém próximo, completa, também é uma forma de garantir acesso direto ao mandato: "Poder cobrar votações, participar, influir mais nas políticas."
O QUE A REGIÃO PERDE
Enquanto Scarpino explica o mecanismo, o professor Luiz Felipe Machado Muraca, de Direito Constitucional, decifra o que está em jogo quando ele falha. Para ele, a perda de representatividade de Ribeirão Preto tem raízes que vão além do comportamento do eleitor. "O fortalecimento orçamentário dos municípios tornou os cargos locais atrativos para políticos com alto desempenho eleitoral, que até então construíam suas carreiras com ênfase nas esferas estadual e federal. A vereança e a prefeitura deixaram de ser etapas intermediárias na trajetória política para se tornar o auge da carreira de diversos parlamentares", explica. Some-se a isso o efeito das redes sociais, que dissociou as necessidades locais dos interesses do eleitor: "O critério de pertencimento regional deixou de ser determinante na escolha eleitoral."
As consequências, segundo Muraca, não são abstratas. "O Brasil é um país continental e profundamente desigual, de modo que as questões que demandam a atenção do Estado são necessariamente regionalizadas. A perda de cadeiras significa redução da capacidade de intermediação política entre as demandas regionais e o processo decisório estatal", afirma. Ribeirão Preto, com sua economia ancorada no agronegócio e numa robusta cadeia produtiva de saúde, tem pautas orçamentárias muito distintas das de outros municípios paulistas — e, sem parlamentares que conheçam essa realidade, a cidade perde força para incluir suas demandas nas leis orçamentárias e nos programas de governo.
O paradoxo, aponta o professor, é que a Região Metropolitana de Ribeirão Preto reúne um dos maiores colégios eleitorais do interior paulista sem conseguir converter esse peso em cadeiras. "A desproporção entre o peso eleitoral da região e sua representação efetiva nos legislativos estadual e federal revela uma disfunção do nosso sistema. Isso ocorre porque o sistema proporcional em lista aberta, combinado com o peso das federações partidárias, permite que votos depositados na região sejam capturados por candidatos de outras bases territoriais que integram o mesmo partido ou federação", diz. "Um colégio eleitoral robusto não garante, por si só, a eleição de representantes efetivamente vinculados às demandas locais."
Para Muraca, o voto deveria ser entendido como instrumento de poder, não apenas de preferência. "Ao votar, o eleitor não seleciona apenas uma pessoa, mas define quem mediará os interesses de sua comunidade junto ao Estado e quais forças políticas deterão capacidade de negociar recursos, influenciar políticas públicas e fiscalizar sua aplicação", afirma. E adverte para o que vem se a trajetória de queda continuar: "A continuidade dessa trajetória produzirá uma progressiva marginalização política da região. Territórios com menor presença legislativa tendem a receber menos emendas parlamentares, a ter menos interlocutores em agências reguladoras e órgãos de fomento e a figurar em posição secundária na definição de prioridades de investimento. Em poucas palavras, a perda de representação marginaliza a região na distribuição de recursos e decisões."
UM MOVIMENTO DE ENTIDADES
O apoio à campanha reuniu lideranças de setores que, à primeira vista, pouco têm em comum. Alexandre Silveira, presidente da 12ª Subseção de Ribeirão Preto da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), reforçou a importância do voto livre, consciente e informado como instrumento essencial de fortalecimento da democracia e do desenvolvimento socioeconômico. "Cabe ao eleitor exercer sua cidadania de forma criteriosa, levando em consideração candidatos que efetivamente conheçam a realidade de sua região — suas demandas de infraestrutura, saúde, segurança, educação e desenvolvimento econômico. Representantes com vínculo genuíno e atuação concreta junto ao território tendem a traduzir, com maior fidelidade, os anseios da população em políticas públicas efetivas", afirmou.
Para Sandra Brandani Picinato, presidente da Acirp (Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto), o argumento é direto e fiscal. "É hora de nós — que pagamos imposto e geramos empregos todo dia — escolhermos quem vai nos representar em São Paulo e no governo federal. Ribeirão Preto tem 700 mil habitantes e se a gente não eleger nossa bancada, quem vai brigar por nós?", questiona. Já Paulo César Garcia Lopes, presidente do Sincovarp (Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto) e da CDL RP (Câmara de Dirigentes Lojistas), lembra que representatividade também é organização: "Votar em candidatos daqui facilita a participação da sociedade civil organizada, por meio de entidades setoriais, no sentido de construir soluções efetivas e sustentáveis."
Rubens Antônio da Silva Junior, diretor do Sescon-SP Regional em Ribeirão Preto, cita um caso concreto de como a proximidade rende resultado: a discussão da reforma tributária. "Já vivemos experiências muito positivas quando representantes da região participaram ativamente das discussões, promovendo encontros técnicos e aproximando os especialistas do Poder Legislativo. Esse relacionamento faz diferença na prática", ressaltou, lembrando que, a partir de 2027, a reforma trará grandes impactos para empresas e profissionais da região. Fernando Junqueira, presidente da AEAARP (Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto), colocou a infraestrutura da entidade à disposição da causa.
A campanha também tem concepção criativa. Aline Pileggi, da agência MOV, responsável pelo conceito da iniciativa, adiantou que um site com informações sobre os candidatos da região vai ao ar antes da eleição de outubro. "Nosso objetivo não é dizer a ninguém em quem votar, mas incentivar o voto consciente em um representante local", disse. Como próximo passo, será feita uma pesquisa para identificar quais pré-candidatos da região — a deputado estadual e federal — têm maior viabilidade eleitoral, informação que os organizadores pretendem colocar à disposição do eleitorado.
O CUSTO DA ABSTENÇÃO
Enquanto a cidade discute quem vai representá-la, mais de um terço do seu eleitorado sequer participa da escolha. Na eleição de 2022, 35,9% dos eleitores aptos de Ribeirão Preto — 167.890 pessoas, de um total de 467.661 — deixaram de votar de forma efetiva: 21,8% (101.950) se abstiveram, 7,3% (34.140) votaram em branco e 6,3% (29.462) anularam o voto, segundo dados eleitorais levantados para a campanha. Para 2026, o voto segue obrigatório para 401.279 pessoas (85,17% do eleitorado da cidade) e facultativo para 69.849 (14,83%), majoritariamente idosos e adolescentes.
"Ribeirão Preto tem 700 mil habitantes e se a gente não eleger nossa bancada, quem vai brigar por nós? Por isso, eu peço que se lembrem sempre: voto legal é o voto local", resume Sandra Picinato.
COMO SE ELEGE UM DEPUTADO NO BRASIL
O sistema eleitoral brasileiro para deputados federais e estaduais é proporcional, e não distrital: o eleitor vota em um nome, mas a conta que decide quem se elege é feita por partido ou federação. Primeiro se calcula o quociente eleitoral — o total de votos válidos (de candidatos e de legenda) numa eleição, dividido pelo número de cadeiras em disputa naquele estado. Depois, o quociente partidário: os votos de cada partido ou federação são divididos pelo quociente eleitoral, e o resultado indica quantas cadeiras aquela sigla conquista de forma direta. As cadeiras que sobram são distribuídas por regras complementares, entre os partidos que mais se aproximaram de eleger mais um representante.
Na prática, isso significa que um candidato só se elege se dois fatores se combinarem: um bom desempenho individual e um bom desempenho do seu partido como um todo. Um nome forte numa região, mas de um partido fraco no restante do estado, pode ficar de fora — e um candidato de fora da região pode se eleger puxado pela votação que seu partido obteve alhures.
São Paulo, o Estado mais populoso do país, elege 70 deputados federais para a Câmara dos Deputados — o teto máximo previsto pela Constituição para qualquer estado, independentemente do tamanho da população. Já o número de deputados estaduais de cada unidade da federação é fixado em três vezes a sua bancada federal, o que garante a São Paulo 94 cadeiras na Assembleia Legislativa.
Para o Senado, cada estado elege sempre três senadores, com mandatos de oito anos. Mas as eleições são escalonadas: a cada quatro anos, o eleitor renova apenas parte da bancada — ora um senador, ora dois — para que a Casa nunca seja completamente substituída de uma só vez.
RIBEIRÃO PRETO NAS URNAS
Colégio eleitoral (2026): 471.128 eleitores, sendo 79,93% (376.595) com biometria cadastrada e 20,07% (94.553) sem biometria. O eleitorado é formado por 54% de mulheres (255.687) e 46% de homens (215.305); 1,04% (4.917) são eleitores com deficiência (PCD). O voto é obrigatório para 401.279 pessoas (85,17%) e facultativo para 69.849 (14,83%).
Deputados federais mais votados em Ribeirão Preto em 2022: Ricardo Silva (PSD), 28.537 votos (9,07%); Baleia Rossi (MDB), 19.977 (6,35%); Carla Zambelli (PL), 15.877 (5,04%); Ricardo Salles (PL), 13.665 (4,34%); Guilherme Boulos (PSOL), 11.611 (3,69%). Eleitos com base na cidade: Baleia Rossi (candidato à reeleição), Ricardo Silva e Arnaldo Jardim (Cidadania) — os dois últimos não concorrerão em 2026.
Deputados estaduais mais votados em Ribeirão Preto em 2022: Rafael Silva (PSD), 25.803 votos (8,44%); Duda Hidalgo (PT), 22.325 (7,30%); Léo Oliveira (MDB), 19.973 (6,53%); Maurício Gasparini (União Brasil), 16.031 (5,24%). Eleitos: Rafael Silva e Léo Oliveira.
Fonte: TRE-SP, dados compilados para a campanha "Voto Legal é Voto Local". Histórico de 2002 (5 deputados estaduais eleitos por Ribeirão Preto): registro público da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).