O desafio estrutural do lixo
Foto: Fernando Gonzaga

O desafio estrutural do lixo

Ribeirão Preto produz, diariamente, toneladas de resíduos, mas ainda está longe de dar destino adequado à maior parte deles

Por trás dos sacos pretos de lixo deixados nas calçadas para coleta pelo poder público há um sistema inteiro pressionado em Ribeirão Preto. Os caminhões passam recolhendo o que já não serve mais, e esses materiais simplesmente “desaparecem” do campo de visão da população. Sem enxergar o caminho que seu descarte faz e o impacto que deixa no meio ambiente, a grande maioria se exime da responsabilidade sobre o destino do lixo que produziu. Este, segundo especialistas, é o maior — e crescente – desafio para a questão do lixo. Principalmente porque a cidade, impulsionada pelo crescimento populacional, pelo consumo e pela lógica de descarte rápido que marca a vida contemporânea, segue em ritmo elevado de produção de resíduos urbanos. São 600 toneladas/dia, um número acima da média nacional, de 1 kg por pessoa, o que revela o tamanho do problema.


Um dilema econômico, ambiental e social. Afinal, a gestão de resíduos sólidos custa ao município mais de R$ 100 milhões por ano, de acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Zeladoria de Ribeirão Preto, e a reciclagem de materiais, além de evitar a emissão de gás carbônico (CO²) de forma significativa, ainda gera trabalho e renda para coletores.

 

“Estamos em uma corrida contra o tempo”, afirma Juliana Ogawa

 

COLETA SELETIVA


O estudo “Impactos da Reciclagem na Emissão de Carbono”, realizado pela Planton e divulgado em agosto de 2025, atribui à gestão de resíduos um importante papel na redução das emissões de gases de efeito estufa (responsável pelo aquecimento global). Segundo a análise, substituir uma tonelada de material virgem por reciclado evita a emissão de 2,06 toneladas de CO². Em destaque aparece o alumínio, cuja reciclagem evita a emissão de até 10,563 tCO²e por tonelada; em seguida, aparecem o plástico (2,128 tCO²e, em média), papel (1,348 tCO²e), aço/ferro (1,79 tCO²e) e vidro (0,354 tCO²e).

Além disso, a utilização de material reciclado nas embalagens e produtos contribui para reduzir a extração e o lixo gerado.


Em Ribeirão Preto, porém, a capacidade de reaproveitamento desses materiais permanece baixa. Hoje, a maior parte do lixo gerado segue diretamente para o Centro de Gerenciamento de Resíduos (CGR) – o aterro sanitário – de Guatapará, sem qualquer tipo de separação. Por volta de 180 a 200 toneladas/mês são recicladas, próximo de 1%, segundo a Prefeitura. Isso ocorre embora a cidade tenha avançado na estruturação de políticas públicas, ampliando a coleta seletiva porta a porta e oferecendo alternativas como os ecopontos. “Ficamos muito aquém do que a lei preconiza porque, apesar de disponível em todos os bairros, a coleta ainda não se consolidou como prática cotidiana. Ribeirão Preto não tem a cultura da separação”, afirma Juliana Ogawa, secretária de infraestrutura.


O que fazer quando a coleta existe, o serviço foi ampliado, mas a participação da população ainda é limitada? Quando resíduos recicláveis continuam sendo descartados junto ao lixo comum, reduzindo significativamente o volume que poderia ser reaproveitado?

 

INFORMAR, SENSIBILIZAR, MOBILIZAR


Mudar a cultura de uma população que ainda não aprendeu a ser responsável pelo próprio lixo é um desafio estrutural que, segundo Daniela Cassia Sudan, bióloga e educadora do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da FFCLRP/USP-RP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto), não pode ser visto de forma simplista e passa por três eixos: informar, sensibilizar e mobilizar. “Não podemos afirmar que a população não participa se ela não tem condições adequadas para isso. A educação ambiental precisa caminhar junto com a infraestrutura”, enfatiza.

 

Daniela Sudan: “Não gerar lixo é mais sustentável do que reciclar”


Coordenadora da Comissão Interinstitucional Municipal de Educação Ambiental (Cimea), da qual participam distintos setores do poder público e da sociedade civil organizada, Daniela diz que está sendo elaborado um Plano Municipal de Educação Ambiental. “Fizemos quatro audiências públicas e um dos problemas mais recorrentes, ou seja, com maior número de reclamações por parte da população, é justamente o lixo. Por isso, teremos atividades direcionadas para o tema de resíduos sólidos”, relata.


Segundo ela, a existência da coleta seletiva, por si só, não garante engajamento, porque é necessário que a população tenha acesso a informação clara, condições práticas de separação e, principalmente, compreensão do impacto de suas ações. 


O distanciamento entre o indivíduo e o destino final dos resíduos contribui para a manutenção de hábitos pouco sustentáveis. Quando o descarte é percebido como um ato isolado — ou seja, algo que termina quando o saco é deixado na calçada —, perde-se a noção de continuidade e responsabilidade. “A informação é importante, mas não é suficiente. Tem gente que sabe separar, mas não vê sentido. Falta pertencimento, falta entender que a participação individual gera, sim, impacto coletivo”, afirma.


Além da baixa adesão, outro fator que compromete o processo de reciclagem em Ribeirão Preto é a qualidade do material descartado. Parte significativa dos resíduos que chegam às cooperativas de triagem acaba sendo rejeitada por contaminação. São embalagens com restos de alimentos, materiais sujos ou misturados de forma inadequada, o que inviabiliza sua reciclagem, fazendo com que acabem retornando ao fluxo do lixo comum. 


A ideia de que “alguém separa e limpa depois” sustenta um dos maiores equívocos sobre a reciclagem e, junto com ele, uma lógica cruel que empurra para a invisibilidade justamente quem está na base, cumprindo um papel essencial ao sistema. Mais do que eficiência ambiental, Juliana Ogawa chama atenção para uma dimensão muitas vezes ignorada nesse processo: a humana. “Se a gente pode dar dignidade para essas pessoas que fazem a coleta e separação nas cooperativas e pelas ruas, por que deixá-las no lixo?”, questiona.


Dando sua contribuição para tirar da “invisibilidade” toda essa problemática do lixo, o Centro de Educação Ambiental (CEA) Guatapará, do Instituto Estre, mantém o programa “Cadê o Lixo que Estava Aqui”, que convida estudantes e educadores a olharem com atenção o caminho dos resíduos produzidos.

 

“Este é um programa alinhado à Política Nacional de Educação Ambiental e à Política Nacional de Resíduos Sólidos, que aborda temas como consumo, descarte e responsabilidade compartilhada, oferecendo experiências pedagógicas acessíveis, sensíveis e contextualizadas que despertam a curiosidade, fortalecem o pensamento crítico e ampliam a compreensão sobre os nossos modos de viver e conviver”, explica a analista de projetos do CEA Guatapará, Gabriela Castro Alves.  Ao fim da atividade, os visitantes fazem um tour guiado pelo Centro de Gerenciamento de Resíduos (CGR) Guatapará.

 

Gabriela Alves: “Precisamos ampliar a compreensão sobre nossos modos de viver e conviver”

 

CONTAGEM REGRESSIVA


De acordo com a Estre Ambiental, empresa responsável pela administração do Centro de Gerenciamento de Resíduos (CGR) de Guatapará — para onde vai todo o resíduo urbano de Ribeirão Preto e outros municípios da região —, sua vida útil está estimada entre 10 e 14 anos.


A empresa adota, de forma contínua, estratégias de otimização do espaço já ocupado, bem como a implementação de novas tecnologias voltadas à redução da disposição final de resíduos em aterro, contribuindo, assim, para a ampliação da vida útil do empreendimento. “Reforçamos, de forma contínua, a importância da conscientização da população quanto à separação adequada dos resíduos sólidos domiciliares e recicláveis, como medida essencial para a redução da quantidade de resíduos destinados aos CGRs”, afirmam em nota.


“Estamos em uma corrida contra o tempo”, afirma Juliana Ogawa. Afinal, quanto mais lixo vai para o aterro, mais rápido ele se esgota. Embora o local conte com tecnologias de controle ambiental, como impermeabilização do solo, monitoramento de chorume e captação de gases, sua lógica é baseada no acúmulo progressivo de resíduos, um modelo que tem limite.


Reduzir o volume de resíduos, portanto, é estratégico. Nesse sentido, a Prefeitura já estuda alternativas como usinas de compostagem, tecnologias de reaproveitamento energético e ampliação da triagem de resíduos. Mas tudo ainda está em fase inicial. “Não é uma questão esquecida, mas um problema que foi deixado para depois por muito tempo”, afirma a secretária.


MASSA VERDE


Entre os diferentes fluxos de resíduos gerados em Ribeirão Preto, a chamada massa verde — composta por galhos, troncos, folhas, restos de poda e jardinagem — ocupa um lugar estratégico de atenção, tanto pelo volume quanto pelo potencial de reaproveitamento.


Esse material, abundante, gerado diariamente em áreas públicas e privadas a partir da manutenção da arborização urbana, limpeza de terrenos e cuidados com jardins, é encaminhado para a Unidade de Processamento de Resíduos Verdes do município, onde passa por trituração, transformando-se em cavaco — um material que pode ser utilizado em paisagismo, cobertura de solo e outras aplicações ambientais.


Apesar do benefício, o sistema ainda opera com limitações. Nem todo o volume gerado é absorvido de forma eficiente, especialmente os resíduos provenientes de áreas privadas. Pela legislação, esse material é de responsabilidade dos próprios geradores, mas, na prática, muitas vezes se torna descarte irregular — um problema recorrente em diferentes pontos da cidade. 


O acúmulo em vias públicas reforça a necessidade não somente de fiscalização, estrutura e orientação à população, mas de uma política pública que contribua com a solução para que essa massa verde seja reinserida no ciclo natural como insumo, em vez de se tornar passivo ambiental.


Experiências desenvolvidas no campus da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto mostram caminhos possíveis. A prática da compostagem, aplicada a resíduos orgânicos e vegetais, permite transformar restos de alimentos e poda em adubo de alta qualidade, capaz de enriquecer o solo e fechar ciclos dentro do próprio ambiente urbano. Além disso, iniciativas educativas promovidas pela universidade demonstram que esse processo pode ser replicado em escala doméstica, ampliando o impacto positivo da gestão de resíduos.


Mais do que técnico, o desafio é sistêmico. Integrar políticas públicas, ampliar a infraestrutura de processamento e estimular soluções descentralizadas, como a compostagem comunitária e doméstica, são caminhos que podem transformar a massa verde, de um problema em um recurso, reorganizando a relação da cidade com seus próprios ciclos naturais e reduzindo, de forma significativa, a pressão sobre o aterro sanitário.


Também por isso, a Prefeitura já estuda a implantação de uma usina de compostagem. A proposta surge como resposta direta à problemática da massa verde e ao volume crescente de resíduos orgânicos no município. Segundo a secretária, o projeto já está em andamento e deve representar uma mudança significativa na forma como a cidade lida com esse tipo de material. “Já temos um projeto na Secretaria de Obras, de uma emenda do então deputado Ricardo Silva, atual prefeito. Tão logo a gente consiga licitar, entra em operação. Acredito que já para o segundo semestre de 2027 possamos ter nossa usina de compostagem instalada”, afirma Juliana Ogawa.


A ideia é instalar a usina na área de transbordo, onde parte desses resíduos já é direcionada atualmente, reduzindo custos logísticos e otimizando o processo. A estrutura prevista segue um modelo técnico relativamente simples, mas eficiente: a transformação de resíduos orgânicos em adubo por meio da decomposição controlada. “São canteiros, como se fossem hortas, cimentados, onde a gente coloca a massa verde triturada, o resto das feiras e mais lodo, que viria da empresa de tratamento de água e esgoto. Esse material entra em decomposição e é produzido um adubo orgânico”, explica a secretária.


Hoje, sem uma estrutura consolidada, a destinação do cavaco é encaminhada para ONGs e iniciativas de plantio, mas ainda sem uma solução em escala. A expectativa é que, com a usina em funcionamento, o município consiga não apenas reduzir o volume de resíduos enviados ao aterro, mas também inserir esse material em um ciclo produtivo, seja por meio da doação para a população ou da comercialização. “A ideia é incentivar a distribuição, mas também procurar uma forma de a Prefeitura captar recurso”, pontua Juliana.

 

AÇÕES PARA A MUDANÇA


Outra iniciativa da Prefeitura para mudar o cenário da problemática do lixo será a estruturação de um programa inédito de Educação Ambiental, com foco inicial em condomínios e comércios — pontos estratégicos pela escala de geração de recicláveis. O material, desenvolvido em parceria com o Instituto Estre, será distribuído em formato digital e, posteriormente, impresso, com orientação prática sobre separação e conscientização do valor dos resíduos.


A estratégia inclui, ainda, ações já em curso no Centro da cidade, como a operação dos tuktuks [veículos pequenos] para coleta de orgânicos e recicláveis, que vêm reorganizando a dinâmica do descarte na região. 


Em paralelo, a Prefeitura não descarta o avanço de medidas legais para tornar a separação obrigatória, mas, segundo a secretária, a prioridade é clara: “primeiro eu educo, depois posso cobrar.”


Mais do que ampliar sistemas de coleta ou investir em tecnologia, é necessário transformar a relação cotidiana das pessoas com o resíduo que geram. Sem isso, qualquer solução estrutural será limitada. Daniela Sudan reforça que o debate precisa ir além da reciclagem e alcançar a própria lógica de consumo. “Não gerar lixo é muito mais sustentável do que reciclar. Precisamos incentivar o uso de materiais duráveis, o conserto de objetos e o reuso”, argumenta.


A educadora também destaca a importância de valorizar os agentes que já atuam na cadeia de resíduos, como catadores e cooperativas, responsáveis por grande parte do material efetivamente reciclado no país. “Quando as pessoas se sentem valorizadas, elas participam mais”, diz. 


Esse reconhecimento passa não apenas por políticas públicas, mas também por uma mudança de percepção social, entendendo que o lixo não desaparece — apenas muda de lugar — e que sua destinação exige planejamento, investimento e inovação, mas também depende de escolhas individuais feitas todos os dias, dentro de casa, no trabalho e nos espaços públicos.


Durante muito tempo tratado como algo invisível, o lixo é um problema de todos, cada vez mais presente, que começa muito antes do descarte. Não se trata mais apenas de “onde colocar o lixo”, mas de como deixar de produzi-lo na velocidade atual. 

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