Perigo geracional

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Queda da cobertura vacinal infantil em Ribeirão Preto preocupa especialistas, reacende alerta para doenças antes controladas e amplia o desafio de combater a desinformação

Mais de 4 mil crianças deixaram de se vacinar no último ano em Ribeirão Preto, segundo a Secretaria Municipal da Saúde. Entre as principais vacinas aplicadas em menores de 2 anos, apenas três atingiram a cobertura recomendada pelo Ministério da Saúde. A meta nacional é de 95% de imunização para impedir a circulação de doenças como sarampo e poliomielite.

 

“As pessoas não veem mais essas doenças circulando e acreditam que a vacinação não é mais necessária”, afirma Mayra Fernanda de Oliveira, coordenadora do Programa Municipal de Imunizações.

 

A queda preocupa porque compromete a proteção coletiva. “Quando menos pessoas se vacinam, aumentam as chances de doenças voltarem a circular”, afirma o pediatra Alberto Dabori.

 

Segundo o médico, a imunização começa praticamente no nascimento. “Na sala de recepção do recém-nascido já é aplicada a primeira vacina da hepatite B”, explica. A partir do segundo mês de vida, inicia-se uma sequência de doses para proteger crianças contra doenças graves, como meningite, coqueluche, poliomielite e hepatites.

 

“A importância de proteger o bebê é que eles são muito vulneráveis. O sistema imunológico ainda não está consolidado”, diz Dabori.

 

Mayra destaca que a pólio se tornou um dos principais termômetros da queda vacinal. Historicamente, a vacina registrava índices elevados no país. Hoje, porém, a cobertura em Ribeirão Preto está abaixo da meta do Ministério da Saúde.

 

“É uma doença que não temos circulando no Brasil neste momento, mas ela continua existindo em outros países”, afirma.

 

Outra preocupação envolve a vacina pentavalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções associadas a meningites graves.

 

Preocupação

 

A médica Gláucia Schiavon Matta Benedicto acompanha essa transformação com preocupação. Mãe de Arthur, ela afirma que mantém atualizado o calendário vacinal do filho. “A diminuição da mortalidade infantil teve muito a ver com vacinação”, afirma.

 

Gláucia também carrega uma memória familiar. “Minha avó perdeu um filho com sarampo. Então, não é banal”, diz.

 

Ela declara confiar no sistema público de vacinação. “Se hoje somos um território livre da poliomielite, por exemplo, foi por causa da vacinação.”

 

A preocupação com a desinformação aparece em praticamente todos os relatos ouvidos pela reportagem. Para Mayra, a hesitação vacinal se tornou mais comum do que a recusa explícita. “Muitas vezes a pessoa vai postergando a vacinação até perder o momento adequado”, afirma.

 

Segundo ela, profissionais das salas de vacina passaram a enfrentar um trabalho diário de convencimento diante de informações falsas disseminadas pelas redes sociais.

 

Dabori observa o mesmo movimento nos consultórios. “As redes sociais trazem muitas inverdades. Isso acaba influenciando as pessoas”, observa.

 

O pediatra explica que parte do medo dos pais está associada a reações leves após a aplicação das doses. “Pode ocorrer febre, mal-estar ou dor no corpo, mas são reações benignas e de fácil resolução”, garante.

 

Kelly Santos Santiago, mãe de Noah Rodrigo, de 1 ano e três meses, e de Maria Antonella, de 8 anos, mantém a carteira dos filhos atualizada. A dose contra a febre amarela do filho mais novo precisou ser adiada temporariamente por investigação de possível alergia ao ovo. “As demais estão todas em dia”, conta.

 

Ela afirma que nunca observou reações importantes nas crianças além do desconforto momentâneo típico da aplicação. “Só o chorinho mesmo por medo da vacina.”

 

Já Mariana Titoto Hermes da Fonseca, mãe de três filhos, descreve a vacinação como parte natural da dinâmica familiar. “Vacina, para mim, é cuidado, proteção e compromisso com o próximo”, afirma.

 

Ela também chama atenção para o excesso de informações nas redes sociais. “Hoje existe um excesso de opiniões circulando o tempo todo, e isso acaba confundindo muitas pessoas”, comenta.

 

Para ela, o acompanhamento médico contínuo foi essencial para manter a confiança nas vacinas. “Informação sobre saúde precisa vir de fontes responsáveis e técnicas.”

 

Reconstruir confiança

 

A dificuldade em manter as coberturas vacinais adequadas se intensifica após o primeiro ano de vida. Segundo Mayra, muitos pais acreditam que uma única dose já garante proteção definitiva. “A gente vê muito isso: ‘meu filho já tomou essa vacina’, mas quando vamos olhar, faltam os reforços”, afirma.

 

Entre as vacinas com melhores índices em Ribeirão Preto estão a BCG e a vacina contra o rotavírus.

 

Para Mayra, o desafio daqui para frente passa menos pela oferta das doses e mais pela capacidade de reconstruir a confiança coletiva na imunização. “A gente precisa aprender a falar a linguagem das pessoas e estar nos ambientes em que elas estão”, conclui.

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