Processo e orientação
Foto: Victor Rocha

Processo e orientação

Prédio corporativo da zona Sul de Ribeirão Preto incluiu a gestão de resíduos como método e passou a fazer do cuidado com o lixo parte da estratégia diária

Durante os primeiros anos do edifício empresarial Le Monde, no Jardim Botânico, o lixo produzido no local seguiu o destino mais comum e menos pensado. Tudo era descartado junto, em lixeiras comuns, sem separação, rastreabilidade ou qualquer garantia de destinação ambientalmente correta. O resultado previsível implicava volume elevado de resíduos, desperdício de materiais recicláveis e riscos invisíveis, sobretudo em um prédio que abriga clínicas, consultórios e escritórios de serviços especializados.


A virada começou quando a síndica profissional Márcia Mafra decidiu tratar o lixo como parte da governança no empreendimento. “A gestão de resíduos foi pensada de forma estratégica desde a concepção do projeto até a operação diária”, explica ela. O prédio passaria a ter um sistema estruturado, com pontos de descarte definidos tecnicamente, coleta especializada e capacitação contínua das equipes envolvidas.


O projeto foi desenvolvido em parceria com o Instituto Recicla+, organização dedicada ao gerenciamento de resíduos recicláveis e à educação ambiental. Antes da implantação, um diagnóstico técnico mapeou o perfil de geração de resíduos, a rotina dos usuários e a infraestrutura existente. A partir disso, nasceu um modelo sob medida para o edifício, adaptado à diversidade de empresas instaladas ali e à dinâmica diária do prédio.


Hoje, os condôminos descartam corretamente materiais como papelão, vidro, plásticos, metais, pilhas, baterias e eletrônicos nos contêineres do Instituto. Resíduos infectantes, comuns em clínicas e serviços de saúde, passaram a ter áreas específicas e tratamento conforme as normas técnicas.


Antes disso, erros comuns se repetiam, segundo a gestora. Resíduos contaminantes misturados ao lixo comum, descarte inadequado de eletrônicos e ausência de segregação correta inviabilizam qualquer política ambiental consistente e aumentam riscos à saúde e ao meio ambiente.

 

TREINANDO PARA ENCARAR DESAFIOS


“Na maioria dos condomínios existe boa vontade, mas sem orientação clara e engajamento os recicláveis acabam contaminados e seguem para o aterro”, explica Patrícia Casemiro, Head de Novos Negócios e Parcerias Corporativas do Recicla+. O trabalho combina implantação técnica, comunicação visual, treinamentos e acompanhamento contínuo, transformando a coleta seletiva em um processo educativo e mensurável.

 

Márcia Mafra, síndica profissional, explica que não foram necessário grandes investimentos para o início da mudança de cultura no edifício Le Monde

 

Os resultados ajudam a traduzir o impacto da mudança. Entre julho de 2024 e janeiro de 2026, mais de 4,2 toneladas de materiais recicláveis deixaram de ir para o aterro sanitário graças ao projeto no Le Monde. A estimativa é que a iniciativa tenha evitado a emissão de cerca de 6,4 toneladas de gás carbônico – gás que contribui para o aquecimento global – e ainda reduziu o consumo de matérias-primas virgens e o uso indireto de energia e água nos processos produtivos.


Nada disso teria funcionado sem mudança de comportamento. “O treinamento das equipes de limpeza é central”, diz Márcia. Muitos profissionais chegam sem vivência em sistemas estruturados de separação. Capacitação constante garante alinhamento de práticas e continuidade dos resultados. O engajamento dos escritórios, segundo ela, é um processo permanente: comunicação, estímulo e acompanhamento. Quando informados, os usuários passam a colaborar ativamente e a incorporar a responsabilidade ambiental à rotina do trabalho. 

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