Sementes da transformação

Sementes da transformação

Aos poucos, os ecopontos vão modificando a paisagem urbana e a história da gestão de resíduos em Ribeirão Preto

O descarte irregular de resíduos sólidos que a coleta comum de lixo não recolhe – entulho, móveis velhos, restos de podas – é um problema ambiental, social e urbanístico enfrentado pela maioria das cidades brasileiras e está diretamente ligado à falta de infraestrutura adequada. Em Ribeirão Preto, este desafio vem sendo enfrentado há décadas, mas, nos últimos anos, a implantação dos chamados Ecopontos tem redesenhado a relação da população com o descarte de resíduos.


O caminho até esse modelo foi longo. Na década de 1990, a cidade tentou solucionar o problema com a implantação dos primeiros Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), porém, a falta de controle operacional, episódios de vandalismo e o acúmulo desordenado de resíduos levaram à desativação, em meados dos anos 2000.


Em 2016, surgiu o programa “Caçamba Social”, como uma tentativa de atender regiões com altos índices de descarte irregular, mas a experiência enfrentou rejeição popular, problemas de subdimensionamento e degradação de áreas no entorno das caçambas. A ausência de fiscalização constante e de critérios técnicos na escolha dos locais também contribuíram para o fracasso do modelo.

 

Essas experiências deram forma a uma nova estrutura, a partir de 2020, alinhada à Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), que instituiu o princípio da responsabilidade compartilhada, envolvendo poder público, empresas e cidadãos na gestão dos resíduos. Pressionada pelo Ministério Público e pela sociedade civil, a Prefeitura iniciou um novo planejamento, baseado em critérios técnicos, mapeamento de “pontos viciados” de descarte irregular e implantação gradual dos Ecopontos. Voltados ao pequeno gerador — moradores que realizam pequenas reformas ou precisam descartar móveis, eletrodomésticos, resíduos verdes e recicláveis —, eles funcionam gratuitamente, das 7h às 19h, todos os dias.


O plano municipal prevê a instalação de 29 deles, em quatro fases. A primeira etapa priorizou a substituição das caçambas sociais em regiões com maior incidência de descarte irregular. A segunda fase contou com revisão do projeto arquitetônico, melhorias estruturais, iluminação reforçada e soluções de drenagem pluvial. A terceira amplia a cobertura territorial para bairros com menor incidência, e a quarta prevê a consolidação da política em áreas de maior renda, integrando os equipamentos ao planejamento urbano.


Atualmente, segundo a Prefeitura, são oito ecopontos em funcionamento (veja mapa). Outros dois estão sendo licitados, nos bairros Flamboyant e Cristo Redentor, segundo a secretária de Infraestrutura e Zeladoria de Ribeirão Preto, Juliana Ogawa. Ela informa que o limite de descarte foi ampliado de 1m³ para 2m³ por pessoa.


Apesar da indicação de crescimento progressivo da adesão popular, o entendimento da atual gestão é de que aumentar a estrutura do programa não é positiva. “Temos priorizado ampliar as Parcerias Público Privadas, para fazermos a gestão dos resíduos sem ampliar demais os gastos do município”, explica a secretária. 


A Prefeitura não apresentou dados atuais sobre a coleta realizada nos ecopontos, mas notícias disponíveis indicam que, em 2023, mais de 101 mil pessoas os utilizaram no município, resultando na destinação de cerca de 35 mil toneladas de materiais. Desse total, foram aproximadamente 18 mil toneladas de resíduos da construção civil; 16 mil toneladas de inservíveis; 560 toneladas de recicláveis e 10 toneladas de lixo eletrônico. 


“A política de ecopontos foi implantada na gestão anterior e, pelo que se pode observar, buscou atender todas as regiões da cidade, mas, além do crescimento de Ribeirão Preto, não houve um trabalho intensivo e efetivo que mudasse a cultura da população, o que não trouxe tanto resultado quanto o esperado”, afirma Juliana. Segundo ela, o foco do trabalho tem sido na divulgação da existência dos ecopontos, assim como na informação da gratuidade dos seus serviços.


Vilson Naves, aposentado, diz que inaugurou o ecoponto do Jardim Centenário, localizado no bairro Maria Goretti. “Dia sim, dia não, estou por aqui. Faço limpeza nas casas, então trago móveis e entulho, mas vem tudo separado certinho, como os meninos ensinaram, para jogar na caçamba certa”, afirma. Carreteiro autônomo há mais de dez anos, ele conta que, antes, havia um terreno bem próximo dali, onde o lixo era acumulado, porque não tinha lugar adequado para fazer o descarte. “Era uma coisa de louco. Ficava tudo junto e virava um fogo só. AÍ, quando inaugurou aqui, melhorou muito”, relata. 


Segundo Juliana, o resultado da divulgação dos ecopontos tem sido positivo. “Houve aumento de cerca de 25% de descarte”, afirma. Para a prefeitura, a ampliação de unidades precisa considerar crescimento populacional, expansão urbana e padrões de geração de resíduos. Já os usuários do programa, em todas as unidades visitadas pela reportagem, são unânimes em dizer: “precisa ter mais.”  

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