Uma dose reforçada
Vacinas complementares às encontradas no SUS estão disponíveis na rede privada e ampliam a proteção, mas indicação depende de avaliação individual
Quando o sogro da médica psiquiatra Flávia Bisson e Silva estava na faixa dos 70 anos, o herpes-zóster atingiu a região de sua face, deixando o idoso em situação delicada. A experiência ficou na memória da família. “Foi uma experiência que me marcou muito e me fez perceber como uma doença que pode ser prevenida pode também ter manifestações bastante graves”, lembra Flávia, que anos mais tarde, na idade indicada, tomou a vacina contra a doença.
A vacina contra o herpes-zóster, doença causada pela reativação do vírus da catapora e que pode provocar dor intensa, é um exemplo de proteção que existe além do calendário oferecido de forma universal pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Recomendada pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) rotineiramente, a partir dos 50 anos e, em situações específicas, para pessoas mais jovens, está disponível na rede privada, mas não foi incorporada ao SUS.
É nesse espaço entre o que o sistema público oferece e o que pode ser recomendado individualmente que entram as chamadas vacinas complementares. Nem sempre se trata de um imunizante inexistente no SUS. Ele pode ser oferecido gratuitamente apenas para determinadas idades ou condições clínicas. Em outros casos, a rede privada dispõe de versões que protegem contra um número maior de sorotipos ou utilizam tecnologias diferentes.
“O calendário vacinal do SUS é excelente e contempla a maioria das vacinas que a pessoa necessita ao longo da vida. Porém, existem imunizantes que, por vários motivos, ainda não estão disponíveis na área pública. Nesse sentido, é possível ampliar a proteção utilizando as vacinas da área privada”, afirma a médica infectologista Karen Mirna Loro Morejón.
Essa fronteira muda à medida que novas tecnologias são incorporadas. Desde julho, por exemplo, a pneumocócica 20-valente passou a ser oferecida pelo SUS para crianças menores de cinco anos e grupos específicos. A vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) está disponível para gestantes, mas não para idosos, que também podem ter indicação na rede privada.
As diferenças não significam que exista uma vacinação “básica”, pública, e outra particular, “melhor”. O Programa Nacional de Imunizações define quais grupos devem receber cada vacina em escala nacional, considerando evidências científicas, situação epidemiológica, benefícios coletivos e viabilidade financeira. No consultório, a análise pode se concentrar nas características de uma única pessoa. A complementação deve ser decidida entre paciente e profissional, considerando o benefício individual.
Flávia levou essa preocupação para a vida adulta. Além das vacinas da infância, tomou imunizantes contra meningococo e pneumococo e, neste ano, contra influenza. “Vacinação não é um cuidado que termina na infância. É uma forma de prevenção que deve nos acompanhar durante toda a vida”, acredita.
CARTEIRA ABERTA
Para a empresária Tatiana Florenzano Cioban, foi a maternidade que ampliou o interesse pelo assunto. Com os filhos, seguiu o calendário do SUS e recorreu à rede privada para complementar a imunização. “Foi principalmente a vontade de oferecer aos meus filhos a maior proteção possível”, justifica. Anos depois, quando o filho Davi foi estudar nos Estados Unidos, a universidade exigiu complementações de imunização, apesar do histórico vacinal acumulado desde a infância. A experiência reforçou para Tatiana a necessidade de acompanhar a carteira ao longo da vida.
Karen observa que adultos frequentemente dão menos atenção aos reforços. O tétano é um exemplo: a proteção precisa ser renovada periodicamente. “Precisamos conversar muito sobre a questão da vacina no adulto e no idoso e levar informação de qualidade para essas faixas etárias”, pontua.
Há também diferenças entre os imunizantes disponíveis. A meningocócica ACWY integra o calendário do SUS em determinadas idades, enquanto a meningocócica B permanece fora da vacinação pública de rotina. No caso do HPV, o SUS utiliza a quadrivalente, enquanto a rede privada dispõe também da versão nonavalente, que contempla nove tipos do vírus.
Ampliar a proteção, entretanto, tem um preço. Tatiana conta que já pagou mais de R$ 1 mil por uma dose. A médica endocrinologista Deborah Goulart Ferreira desembolsou aproximadamente R$ 1,8 mil pelo esquema contra herpes-zóster. É justamente essa vacina que ajuda a dimensionar a distância entre uma recomendação individual e uma política pública. Neste ano, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) concluiu uma avaliação sobre sua incorporação ao SUS para pessoas com 80 anos ou mais e imunocomprometidos a partir dos 18. Apesar dos benefícios clínicos, considerou desfavorável a relação de custo-efetividade nas condições apresentadas.
A escala ajuda a explicar por que uma vacina importante para um indivíduo não é automaticamente oferecida a milhões de brasileiros. No sistema público entram na equação eficácia, segurança, incidência da doença, grupos vulneráveis, benefício coletivo e custo.
Deborah conta que a pandemia de Covid-19 aumentou a atenção sobre o assunto. Embora já conhecesse as vacinas particulares por ser médica, passou a procurá-las mais ativamente, primeiro para os pais, depois para o filho e para ela própria. Já tomou vacinas contra dengue, influenza, VSR e herpes-zóster. “Passei a enxergar a vacinação de uma forma mais ampla”, afirma.
Isso não significa que todos devam receber todos os imunizantes disponíveis. Idade, histórico vacinal, doenças, profissão, viagens e exposição a riscos interferem na recomendação. E a fronteira entre público e privado continua mudando conforme novas vacinas chegam ao SUS. Por isso, Karen recomenda que a carteira seja avaliada como parte do cuidado de saúde. “Sempre é uma decisão compartilhada entre o paciente e o profissional, ponderando os benefícios da vacina complementar para aquele indivíduo”, conclui.