A história da Alice

A história da Alice

Caso de afogamento que mobilizou a cidade em oração teve desfecho feliz; meses após o acidente, a mãe, Vanessa, conta como tudo aconteceu e alerta sobre a importância da prevenção

Foi no final de abril deste ano que a notícia de que a Alice, de três anos, tinha se afogado na piscina de casa e estava hospitalizada em estado grave, mobilizou Ribeirão Preto. O caso ganhou grande repercussão, principalmente por meio das redes sociais. Convocadas pelos amigos da família, as pessoas se sensibilizaram e logo formaram uma verdadeira corrente de orações, que não parava de crescer. Independentemente de crença ou de religião, de conhecerem ou não a família, de estarem perto ou longe, todos estavam unidos em uma mesma intenção: a vida da Alice e a sua plena recuperação. Após muitas batalhas, 13 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e um dia no quarto, a tão sonhada alta se tornou uma realidade, trazendo uma enorme alegria e renovando a esperança no coração de muita gente. A evolução do quadro foi considerada surpreendente, até mesmo pelos especialistas envolvidos. 


A rotina com os pais, Lucas Mussi e Vanessa Garcia Rizzi, e com o irmão, Paulo Neto, de seis anos, já voltou à normalidade, com a retomada das aulas na escola, viagens e muitas brincadeiras. São poucas e vagas as lembranças que a pequena tem daquele dia, mas, quando elas surgem, são ouvidas, acolhidas e tratadas com naturalidade, para não gerar nenhum tipo de trauma maior. “Quando saímos do hospital, perguntei se ela sabia porque tinha ficado dodói. Ela respondeu que não. Questionei se ela queria saber e ela disse que não. Então, respeitamos. Uns dois dias depois, estávamos brincando com um jogo e ela perguntou. O Paulo Neto contou. Eu também expliquei. Ela se assustou, de início, mas reagiu de forma muito madura. Nos abraçamos, deixamos o sentimento fluir, como tinha que ser, e voltamos a brincar. Ela não está com medo da piscina. Já até pediu para nadar. Só não deixamos porque está frio”, revela Vanessa.


A onda de amor e de fé propagada alcançou a família e os sustentou durante os momentos mais delicados. Por isso, a mãe sentiu que era hora de compartilhar o que aconteceu, como forma de agradecimento e de alerta, para que a situação não se repita. “As pessoas realmente se envolveram com o nosso caso. Foi genuíno, sincero. Nós recebemos essa força que todos mandavam. Não tenho como descrever o quanto sou grata pelo carinho de cada um. Isso me tranquilizou, me afastou de pensamentos ruins, como a culpa, e acabou me motivando a falar, mas quero que essa fala seja com propósito de ajudar, de levar informação de qualidade, para conscientizar sobre como agir em situações semelhantes e, especialmente, sobre como evitar que esses acidentes ocorram”, pontua.


Vanessa confessa que sempre teve um certo receio com os filhos perto da piscina de casa. Por isso, a área é cercada. “O Paulo Neto fez natação. A Alice, muito por conta da pandemia, acabou não fazendo, mas ela sabia como entrar e sair da parte rasa. Naquele dia, nós, juntamente com o seu sogro e a minha sogra, tínhamos almoçado fora e voltamos para casa para tomar um café. A cerca estava aberta e estávamos cientes disso. Os ambientes são integrados e, de onde estávamos, víamos a piscina, o Paulo Neto e a Alice. Tudo aconteceu em um instante. Não ouvimos nenhum barulho, nada. Quando sentimos falta e procuramos, ela estava no fundo da piscina”, recorda. 


Foi Lucas que a retirou e iniciou os protocolos de reanimação. Mesmo sendo da área de saúde – e feito diversos cursos de primeiros socorros –, Vanessa conta que ficou paralisada. “Quando vi aquela cena, eu entendi que tinha perdido da minha filha, que tinha acabado. Sei o quanto a privação de oxigênio pode afetar o nosso organismo e não tínhamos ideia de quanto tempo ela tinha ficado submersa. Os vizinhos notaram que tinha algo errado, vieram nos socorrer e ligaram para o serviço de resgate. Um deles, inclusive, auxiliou Lucas no processo de reanimação, sustentando a vida da Alice. Em meio a tanto desespero, eles – e tantas outras pessoas que vieram depois – foram anjos que Deus enviou. Foi Ele, também, que me mostrou que, mesmo naquele turbilhão, eu precisava olhar e cuidar do Paulo Neto, que, tão criança, estava vivenciando tudo aquilo com a gente”, afirma. Os bombeiros chegaram, fizeram a estabilização no local e Alice foi encaminhada para o hospital já entubada. 


A questão do resgate é um dos pontos que Vanessa mais deseja destacar em seu depoimento. Por várias vezes, ela questionou o tempo da ambulância chegar até a casa e se não seria melhor a família mesmo levar a filha até o hospital. “Aprendi que temos que ter o número dos bombeiros decorado, anotado em um papel na geladeira, nos favoritos do celular. O Paulo Neto ligou para os meus pais quando tudo aconteceu. Ele teria condições de ligar para o resgate, caso tivesse esse número, caso tivéssemos ensinado. Acionar os bombeiros é primordial. Eles passam as primeiras orientações pelo telefone mesmo, enquanto a equipe se desloca. São mais experientes, rápidos e possuem os equipamentos e a técnica para realizar o atendimento no local. O tempo até a vítima receber os primeiros socorros acaba sendo menor, mesmo que não pareça. Além disso, eles se comunicam com os hospitais e conseguem ver qual pode prestar a melhor assistência para aquele quadro, naquele instante, em termos de especialistas e de infraestrutura disponível. Foi uma sequência de fatores que, juntos, conduzidos pelas mãos de Deus, salvaram a Alice”, detalha. Após a recuperação, a família fez questão de visitar o 9º Grupamento de Bombeiros. Foi um gesto simbólico de reconhecimento da importância do trabalho desses profissionais e de agradecimento. 


A conduta humanizada do hospital também fez toda a diferença no processo de recuperação, segundo Vanessa. “Eles tiveram muita compaixão. O hospital ficou lotado com os nossos familiares e amigos, que se revezavam e nos davam todo o apoio que você possa imaginar. Realizamos até um encontro de oração, que reuniu várias pessoas na área externa, todos orando pela cura. Quando lembro desses momentos, fico emocionada. Deus carregou a gente no colo. Nós ficávamos com a Alice praticamente o tempo todo. Só saíamos quando a equipe médica precisava fazer algum procedimento. Conversávamos, dizíamos para ela ser forte e lutar pela vida, que estávamos esperando ela acordar. Segurávamos suas mãos e rezávamos. Eu confiei em Deus, de coração aberto. Entreguei a Alice nas mãos dele e acreditei. Aos poucos, ela começou a mexer e responder aos nossos estímulos. Ela saiu do hospital sem sequelas. Foi um milagre”, ressalta.


Vanessa tem consciência de que teve um final feliz e de que nem todos os desfechos são assim. Por isso, tem tentando usar a experiência que viveu para fazer o bem para outras pessoas. “Tenho respondido a todos que me procuram para conversar, com pedidos de oração. Essa conexão, que acontece muito pelas redes sociais, tem sido bastante benéfica para mim. Tantas pessoas nos ajudaram, agora, é a nossa vez de ajudar da melhor maneira possível. Desse episódio, tiro como lição a importância de medidas de prevenção, para evitar acidentes como o da Alice, o domínio de informações básicas de salvamento, para saber como proceder nessas situações, o valor das amizades e da empatia das pessoas, mesmo desconhecidos, e, acima de tudo, a força e o poder da fé em Deus. Essa é a nossa história. Não posso dizer como eu reagiria se fosse diferente, mas, a dor profunda que passei voltou o meu olhar, tanto para a urgência de viver cada segundo ao lado de quem amamos, quanto para a necessidade de cuidar das famílias que perderam seus filhos. Tenho pensado no assunto e quero muito fazer um projeto nesse sentido”, finaliza.

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