Gêmeas siamesas se recuperam bem e já respiram sem a ajuda de aparelhos
Cirurgia, que durou mais de 20 horas, entrou para a história do Hospital das Clínicas
Os médicos que realizaram a cirurgia de separação das gêmeas siamesas concederam uma entrevista coletiva no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, nesta segunda-feira, 29. Após 20 horas de cirurgia, as gêmeas cearenses Maria Ysabelle e Maria Ysadora, que nasceram unidas pela cabeça, foram separadas na madrugada do último domingo, 28. Segundo o professor Hélio Machado, as crianças passam bem.
“Uma delas já estava no colo da mãe, agora cedo. Ambas estão sem o respirador e passando muito bem”, anunciou Machado.
O trabalho em equipe e a dedicação de todos que participaram da cirurgia foram elogiados pelo especialista estadunidense, James Goodrich. “O que eu aprendi com experiências anteriores é que não importa quão bom é um cirurgião, ele depende de uma boa equipe. E o Dr. Machado tem uma ótima equipe aqui. Em todos os níveis, desde os enfermeiros, até os neurocirurgiões", comentou Goodrich.
O médico, que é referência mundial nesse tipo de cirurgia, explicou que com o mesmo nível de dificuldade, foram realizadas apenas outras quatro cirurgias iguais no mundo. Goodrich avalia que, neste caso em específico, o procedimento tomou um grau maior de complexidade em razão da grande área do cérebro das meninas que estava interligada.
“Antigamente, infelizmente, uma das crianças seria sacrificada. Os médicos perguntavam aos pais: qual vocês querem sacrificar? As cirurgias eram realizadas todas de uma vez. Nesse caso, realizamos o procedimento em várias cirurgias e com tempo de aclimatação entre elas”, explicou o especialista.

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O neurocirurgião Ricardo de Oliveira ressaltou que o modelo utilizado pelo Dr. Goodrich traz um grande avanço. “Essa é a grande vantagem de uma cirurgia em etapas: proporcionar às crianças uma melhor adaptação ao que está acontecendo, para que os cérebros possam se habituar com uma circulação diferente”.
Oliveira também contou como o trabalho, que chegou a envolver mais de 30 pessoas em atividades simultâneas na mesma sala, possuía uma sinergia e funcionava em diversos níveis. "Sabíamos que a reconstrução seria um grande desafio, não só a reconstrução da membrana do cérebro, mas também de toda a parte óssea. Enquanto nós operávamos as crianças, os cirurgiões plásticos estavam preparando os fragmentos ósseos para a reconstrução", relembra.
A separação e o pós
Por fim, o neurocirurgião comentou sobre a emoção de ser um dos responsáveis, ao lado do também neurocirurgião Marcelo Volpon, por segurar as crianças no momento da separação. “Depois de realizarmos todas as dissecções, trocamos algumas palavras e concordamos: chegou o momento. Pedimos a presença do o professor Hélio e de Goodrich para acompanhar. E a medida em que as crianças se soltaram, depois de tanto trabalho e de inúmeras horas, ficar com uma na mão e o Marcelo [Volpon] com a outra, foi realmente muito emocionante”, conta.
Os cirurgiões plásticos Jayme Farina Júnior e Pedro Coltro explicaram como foi realizado o procedimento de reconstrução do crânio das gêmeas. Farina relembra que as crianças possuíam uma formação óssea em forma de anel que as unia. “O osso foi removido e dividido em pedaços. Cada pedaço foi para cada uma das crianças. Eles foram unidos como um quebra cabeça para cobrir o topo da cabeça”, explica.

Já Coltro comentou que, do ponto de vista estético, os resultados superaram as expectativas da equipe. “Em um primeiro momento, imaginávamos que a formação do crânio das crianças iria ficar um pouco quadrada. Porém, com essa nova montagem da calota craniana, ele ficou relativamente arredondado e os enxertos de pele cobriram de forma satisfatória os defeitos”, esclareceu.
Os especialistas afirmaram que foram além do que era descrito nos livros sobre o assunto. "Fomos além do que estava na literatura, este caso servirá como base daqui para frente para outros especialistas que venham nos procurar. Foi histórico", concluiu Coltro.
Apesar de o procedimento ter sido bem sucedido, a gêmea Ysabelle precisará passar por uma nova etapa cirúrgica para terminar um último enxerto que será necessário. A cirurgia deve ocorrer dentro de três semanas. Segundo os médicos, a recuperação das irmãs deve levar alguns meses.
Sob supervisão de Marina Aranha.
Fotos: HC / Paulo Apolinário