Menos atestados, mesmo movimento
Pacientes ainda relatam espera e dificuldade para conseguir atestados após endurecimento das regras municipais

Menos atestados, mesmo movimento

Após criação do programa “Atestado Seguro”, pacientes relatam desde melhora discreta no fluxo até dificuldades para justificar ausência no trabalho

Mesmo após a Prefeitura de Ribeirão Preto endurecer as regras para emissão de atestados médicos nas unidades de pronto atendimento, as UPAs da cidade continuaram com movimento intenso nos dois meses seguintes à implantação da medida. O que mudou de forma mais significativa foi a quantidade de documentos concedidos aos pacientes. 


Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostram que, em janeiro e fevereiro, as quatro unidades de pronto atendimento do município realizaram 117.414 atendimentos e emitiram 58.158 atestados médicos. Já em março e abril, período posterior ao lançamento do programa “Atestado Seguro”, foram registrados 124.454 atendimentos e 47.849 atestados.


Na prática, isso significa que, mesmo com aumento de cerca de 6% no número de atendimentos, houve redução aproximada de 18% na emissão dos documentos.


Os dados parciais de maio indicam que o movimento nas UPAs pode voltar a crescer nas próximas semanas, impulsionado pelo aumento dos casos de doenças respiratórias típicas desta época do ano. Até o dia 19, as unidades já haviam registrado 33.216 atendimentos e 12.827 atestados médicos. Segundo a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, Luzia Márcia Romanholi Passos, o cenário acompanha um comportamento sazonal comum nos meses de outono e inverno. “A elevação no número de casos de doenças respiratórias  é típica deste período do ano por conta das mudanças climáticas e da maior circulação de vírus. Diante desse cenário, é fundamental reforçar a importância da vacinação, especialmente contra a Influenza, além de manter medidas preventivas como a higienização frequente das mãos e o uso de máscaras em caso de sintomas gripais”, afirma. 


O endurecimento das regras foi anunciado pela Prefeitura após a administração municipal afirmar que havia uso excessivo das unidades para obtenção de atestados, principalmente às segundas-feiras. Segundo a Secretaria da Saúde, havia momentos em que as UPAs chegavam a registrar até 50 pacientes por hora.


Pelas novas diretrizes, o atestado passou a depender obrigatoriamente de avaliação clínica presencial e registro em prontuário médico. A Prefeitura afirma que a medida busca organizar o fluxo das unidades e priorizar pacientes com necessidade clínica mais urgente. 


Na UPA Leste, na avenida 13 de Maio, a movimentação na manhã de quinta-feira, 21, parecia distante de qualquer sensação de esvaziamento. Pacientes aguardavam na recepção, profissionais cruzavam os corredores em ritmo acelerado. Algumas pessoas ouvidas pela reportagem disseram não ter opinião formada sobre as mudanças anunciadas pela Prefeitura, mas que na prática, nada mudou. “Nem piorou, nem melhorou”, disse um rapaz que aguardava atendimento há 25 minutos. Outras reclamaram da demora no atendimento. 


Houve ainda quem percebesse melhora discreta na rotina das unidades. A aposentada Guilhermina Soares, 66, aguardava atendimento após um episódio de pressão alta e tontura. Usuária frequente da rede pública, ela afirma ter percebido uma pequena diferença no tempo de espera em relação a atendimentos anteriores. “Já teve dia de eu ficar muito mais tempo esperando. Desta vez achei um pouco mais rápido”, afirmou ela quando saia da unidade para a casa, no bairro Campos Elíseos.


Por estar aposentada, Guilhermina diz não acompanhar diretamente a discussão envolvendo os atestados médicos. Ainda assim, afirma que a unidade parecia menos sobrecarregada do que em outras ocasiões. “Não estava vazio, mas achei mais organizado em relação à última vez que precisei vir, no ano passado.”


A percepção do motorista Carlos Pardinho, 55, é diferente. Dias antes, ele havia procurado a UPA Norte após passar a madrugada com febre, dores no corpo, tosse intensa e mal-estar. Segundo ele, o estado físico tornava impossível cumprir a rotina de trabalho naquele dia. Depois da consulta, recebeu medicação e orientação para repouso, mas saiu sem atestado médico. “Eu estava ruim mesmo. Corpo mole e garganta pegando. O médico falou que era um quadro viral e que eu precisava descansar, mas disse que não tinha necessidade de afastamento”, relata.


Sem o documento, Carlos precisou negociar diretamente com a empresa onde trabalha para justificar a ausência. “Nem sempre a pessoa procura a UPA porque quer faltar no serviço. Às vezes ela realmente não consegue trabalhar.”


Ele também afirma não ter percebido mudanças relevantes no atendimento desde a última vez em que precisou da unidade, no fim do ano passado. “Para mim continua parecido. Ainda tem espera, gente reclamando e demora dependendo do horário.”


Atualmente, Ribeirão Preto possui quatro unidades públicas de pronto atendimento funcionando 24 horas: as UPAs Leste, Norte e Oeste, além do Pronto Atendimento da Vila Virgínia. As estruturas funcionam como porta intermediária entre as unidades básicas de saúde e os hospitais, absorvendo casos de urgência e emergência de menor complexidade.


Nos últimos meses, a administração municipal passou a tratar a reorganização das UPAs como uma das principais vitrines da área da saúde. Entre as medidas anunciadas estão a criação de uma frota exclusiva para transferências inter-hospitalares, mudanças no fluxo interno das unidades e projetos para ampliação da rede. Segundo a Prefeitura, Ribeirão Preto deverá chegar a sete UPAs até 2028. 


A gestão do prefeito Ricardo Silva sustenta que o controle mais rígido na emissão de atestados ajuda a reduzir distorções e melhora a capacidade de atendimento das unidades. A administração também afirma que as mudanças trazem mais segurança aos profissionais responsáveis pela emissão dos documentos. 


Apesar disso, o ambiente nas salas de espera ainda revela uma percepção menos objetiva do que os números oficiais sugerem. Enquanto a Prefeitura aponta redução na emissão de atestados como sinal de reorganização do sistema, pacientes seguem convivendo com filas, demora em determinados horários e interpretações diferentes sobre o que efetivamente mudou dentro das unidades. 


Foto: Fernando Gonzaga / Prefeitura de Ribeirão Preto

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