Uso sem orientação médica e falsificação ampliam riscos das canetas emagrecedoras

Uso sem orientação médica e falsificação ampliam riscos das canetas emagrecedoras

Especialistas alertam para impactos nutricionais e metabólicos e reforçam a importância do acompanhamento profissional

Uma pesquisa publicada na Journal of Medical Internet Research analisou 1.080 links de venda de semaglutida — princípio ativo presente em medicamentos como o Ozempic — e identificou 59 farmácias online ilegais que comercializavam o produto sem exigência de receita. Juntas, essas páginas concentravam milhões de acessos.

 

Entre as amostras adquiridas, os pesquisadores encontraram falhas na embalagem, níveis de pureza abaixo do esperado, concentração do princípio ativo até 38% acima do declarado no rótulo e presença de endotoxinas, substâncias capazes de provocar reações inflamatórias no organismo.

 

“Ao injetar um produto falsificado, o principal risco é não saber o que está sendo aplicado. Pode haver dose incorreta, impurezas e até contaminantes, o que pode resultar em reações adversas imprevisíveis, perda de eficácia e aumento do risco de eventos graves”, explica o farmacêutico Rafael Appel Flores, diretor científico da Dr. Fisiologia.

 

Segundo ele, o problema envolve tanto a procedência do produto quanto o uso sem acompanhamento médico.

 

Do ponto de vista nutricional, o uso inadequado também preocupa. “O emagrecimento acelerado e desordenado pode levar a uma ingestão calórica muito baixa. Sem planejamento alimentar, o organismo passa a utilizar não apenas gordura, mas também massa muscular como fonte de energia”, afirma o nutricionista e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), Anderson Marliere Navarro.

 

Influência das redes sociais

 

A popularização dessas medicações está diretamente ligada à forma como são divulgadas nas redes sociais. Um estudo da revista Frontiers in Pharmacology (2025) aponta que 53% dos usuários de medicamentos para emagrecer utilizam essas substâncias sem orientação médica.

 

Entre eles, 32% adquiriram o produto em farmácias sem prescrição e 15% pela internet, incluindo redes sociais. Ainda segundo o levantamento, 68% relataram que a decisão de uso foi fortemente influenciada por conteúdos online.

 

No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante. Dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF) indicam que 77% dos brasileiros têm o hábito de se automedicar, e mais da metade já alterou por conta própria a dose de medicamentos prescritos.

 

“É impossível ignorar o papel das redes sociais na popularização dessas canetas. Muitas vezes, o emagrecimento é apresentado de forma superficial, sem discussão sobre riscos, critérios médicos ou necessidade de acompanhamento”, alerta Navarro.

 

Diferenças entre produtos originais e falsificados

 

Medicamentos aprovados passam por rigorosos controles de qualidade, que garantem pureza, concentração adequada e segurança microbiológica. Já os produtos vendidos ilegalmente apresentam variações significativas nesses parâmetros.

 

Doses acima do indicado podem aumentar o risco de efeitos adversos, como problemas gastrointestinais, desidratação e distúrbios metabólicos. Por outro lado, doses abaixo comprometem a eficácia e podem levar o paciente a ajustes por conta própria.

 

“Quando a dose é maior, aumenta o risco de efeitos adversos e piora na tolerabilidade. Quando é menor, reduz a eficácia e pode gerar frustração, incentivando o uso inadequado”, explica Appel.

 

Caminhos seguros para o emagrecimento

 

Especialistas reforçam que a segurança no uso dessas medicações depende de prescrição médica, acompanhamento profissional e aquisição em estabelecimentos regularizados.

 

“O farmacêutico tem papel estratégico na orientação sobre indicação correta, ajuste de dose, possíveis interações, armazenamento e identificação de efeitos adversos”, destaca Appel.

 

Já Navarro ressalta que o emagrecimento saudável não deve estar baseado em soluções rápidas. “O processo deve envolver um plano alimentar equilibrado, com ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais, além da prática regular de atividade física orientada”, afirma.

 

Apesar dos riscos, o especialista pondera que os medicamentos não devem ser demonizados. “Em casos de obesidade com comorbidades, eles podem ser ferramentas importantes, desde que utilizados dentro de um tratamento sério, com acompanhamento médico e mudanças no estilo de vida”, conclui.


Foto: Canva

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