Serena e ativa

Serena e ativa

Companheira de Welson Gasparini por décadas, Auri Stela viveu os bastidores da política ribeirãopretana e, hoje, reafirma que a maturidade pode ser ativa, lúcida e cheia de propósito

Aos quase 80 anos, Auri Stela Menna Barreto Gasparini não se reconhece na imagem tradicional da velhice. Dirige sozinha, faz musculação, frequenta a igreja diariamente, às 7h da manhã, encontra as amigas para o café da tarde, almoça em família, vai a barzinhos acompanhada dos netos e ainda encontra tempo para assistir aos doramas de que tanto gosta. “A cabeça não envelhece, só o corpo”, diz, com serenidade. 

 

Viúva de Welson Gasparini (1936–2024), ex-prefeito que marcou a história política de Ribeirão Preto, Auri Stela construiu uma trajetória que vai além do papel institucional de primeira-dama. Sua história começa muito antes da vida pública. 

 

Nascida no Rio de Janeiro, filha única de um militar, cresceu sob disciplina e valores tradicionais. “Quem era o general da casa era minha mãe”, brinca. Teve educação dividida entre escola pública e particular, formou-se professora, estudou música, acordeom e teoria musical. Fez balé. Sonhava cursar Medicina. A transferência do pai para Ribeirão Preto mudou os planos — e também o rumo da vida. 

 

Foi na nova cidade que conheceu Welson Gasparini. Em um ano namoraram, noivaram e se casaram. Iniciou o curso de Letras, pensou em Pedagogia, mas interrompeu os estudos com a chegada dos filhos — Júnior, Luciana e depois os gêmeos. “Fiquei mesmo como dona de casa, mãe e esposa. Essa sempre foi minha identidade primeiro. Depois vinha o restante”, diz. 

 

Quando se casou, o marido já estava na política e ela sabia que a exposição faria parte do pacote. “Minha grande rival foi a cidade de Ribeirão Preto”, afirma brincando, com um sorriso no rosto.

 

A dedicação de Gasparini à política era absoluta. Ribeirão Preto ocupava um espaço central em sua vida e no coração do casal. “Ele tinha uma paixão imensa por essa cidade”, lembra Auri. Ao longo dos anos, essa entrega foi compartilhada. “Quando me perguntavam de onde eu era, eu dizia que era daqui. Sou nascida no Rio, mas a maior parte da minha vida vivi aqui. Hoje sou ribeirãopretana de fato.” O reconhecimento veio, inclusive, com o título de cidadã concedido pelo município — um símbolo da ligação construída ao longo das décadas.

 

Entre a vida pública e o lar

 

Ao assumir a presidência do Fundo Social de Solidariedade, Auri Stela encontrou uma forma concreta de atuar. Implantou cursos de capacitação, como padaria artesanal, costura e silk — iniciativas pioneiras à época e que ajudaram a gerar renda para muitas famílias. “Eu acho que me dediquei bem àquilo que me propus”, acredita. 

 

Até hoje, ao caminhar pela cidade, é reconhecida por ex-alunas dos cursos. “Encontro pessoas que dizem: ‘eu fiz tal curso quando a senhora estava lá’”. Ainda assim, nunca deixou que o papel público apagasse sua identidade pessoal. “Nunca abandonei meu papel de dona de casa para ser primeira-dama”, garante. 

 

A família sempre foi prioridade. Com pouca rede de apoio — a mãe era quem ajudava com as crianças —, precisou equilibrar maternidade, exposição e rotina institucional. 

 

A vida social intensa não fazia parte do perfil do casal. Compareciam aos compromissos oficiais, mas preservavam a intimidade. “Procurávamos manter uma vida mais pacata, mais dentro de casa”, conta. 

 

Hoje, mãe de quatro filhos, avó de sete netos e bisavó de quatro bisnetas, ela celebra a união familiar como seu maior patrimônio. Mora sozinha, mas mantém autonomia. Vai ao supermercado, ao médico, resolve compromissos, dirige. “A hora que eu achar que não dá mais, eu paro, mas, por enquanto, faço tudo.”

 

Entre Fé e movimento 

 

A morte do marido, há quase dois anos, marcou uma virada silenciosa. A fé tornou-se ainda mais central. “É o que me sustenta, o que me faz continuar e conseguir sorrir.” 

 

Auri frequenta a igreja todos os dias. Fala de Deus com naturalidade, sem discurso ensaiado. “Se eu estou aqui é porque ainda tenho alguma coisa a cumprir”, crê. 

 

Ao refletir sobre envelhecimento, ela compara gerações. Lembra da avó, que viveu até os 96 anos com vaidade e lucidez. Pensa nos pais aos 80, que na época já eram considerados idosos. “Hoje eu vou fazer 80 e não me acho idosa”, garante. 

 

Para ela, a diferença está no estilo de vida. Alimentação, acompanhamento médico, atividade física, mas, principalmente, atitude. “Tem gente que se entrega. Eu tenho dor? Tenho, mas se for me entregar por causa da dor, não saio mais”, reflete. 

 

Faz fisioterapia, musculação, mantém rotina ativa. Gosta de se arrumar. “Não deixo de passar meu batom.” Nunca fez plástica. “Está tudo natural, mas a gente disfarça”, diz, rindo. 

 

Evita noticiário e prefere filmes e séries leves. Seleciona compromissos. Escolhe com quem e onde quer estar. “A velhice tem um privilégio: você pode escolher”, agradece. 

 

Para ela, idade é mais experiência do que número. “Tem jovem que já está velho.” E deixa um conselho direto às mulheres de sua geração. “Que não se entreguem. Que vivam enquanto têm saúde e força. E que tenham fé acima de tudo, porque a fé, na nossa idade, é o que sustenta”, conclui.


Foto: Guilherme Fuzaro

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