Superando previsões

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Da infância marcada pela fome no extremo sul da Bahia ao pós-doutorado na USP, Helenita Tamashiro relembra trajetória na qual a educação assumiu papel de sobrevivência

Hoje, quando entra em sala de aula, Helenita Tamashiro é prova de que a educação é ferramenta de reparação. Professora, pesquisadora e idealizadora de um projeto de empreendedorismo feminino no Parque Ribeirão Preto, que chega à terceira edição em 2026, ela resume sua trajetória como exemplo. “A educação é conquista pessoal e missão social”.


O projeto nasceu em 2021, no rescaldo da pandemia, quando Helenita percebeu que muitas mulheres precisavam, além da renda, reconstruir a própria confiança. Oficinas de artesanato, palestras e inclusão digital passaram a compor encontros regulares, com cerca de 20 participantes por ciclo. O objetivo: ensinar a produzir, mas mostrar também que é possível recomeçar. “A hora de aprender nunca passa. Ela chega e você decide se abre a porta ou deixa ir embora”, diz.


Embora os livros façam parte central de sua história, esse entendimento veio do caminho percorrido. Helenita leciona na Fatec de Ribeirão Preto e relembra a vida com detalhes que não cabem nesta página, começando pela infância atravessada por pobreza extrema, violência e ausência quase total de direitos básicos. 


Nascida em Itanhém, no extremo sul da Bahia, região de Porto Seguro, ela veio ao mundo logo após a fome ter levado dois irmãos mais velhos. “Nasci no mesmo berço”, recorda. Aos 2 anos, não andava, não tinha cabelos e rastejava pelo chão, com o corpo frágil e os ossos aparentes. Cresceu entre dois cenários igualmente duros. De um lado, um padrasto alcoólatra e violento. Do outro, uma mãe guerreira, mas exausta, que já havia perdido batalhas demais para a miséria. A casa de barro não tinha banheiro e cama. O descanso vinha sobre esteiras feitas de tábua. 


Ainda criança, Helenita ajudava a plantar milho, feijão, café e mandioca. Aos 8 anos, enquanto os adultos saíam para a roça, colocou os irmãos para dormir e fugiu para a casa da avó, na cidade. “Eu acreditava que ali eu iria estudar”, conta. O sonho era aprender a escrever o próprio nome e fazer desenhos coloridos. 


A avó não tinha condições de mantê-la, mas temia que o padrasto fosse buscá-la. A solução encontrada foi colocar Helenita para trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família de fazendeiros. 


Somente aos 12 anos, Helenita pisou pela primeira vez em uma sala de aula. “Cada letra que eu aprendia a soletrar fazia explodir dentro de mim uma alegria que até hoje não sei explicar”, diz. “A primeira palavra lida sozinha foi meu próprio nome”, lembra ela, que passou quatro anos estudando e trabalhando como doméstica. 


Aos 16, vieram outros desafios. Secretária, atendente ou vendedora. Os trabalhos foram mudando, mas sempre paralelos ao estudo contínuo, que a levou, em 1989, ao curso técnico em Contabilidade. Já era hora de voar mais alto. 


Em 1992, Helenita mudou-se para São Paulo e passou em uma seleção para auxiliar administrativa em uma empresa de marketing. No ano seguinte, foi convidada a integrar a filial da empresa em Ribeirão Preto. Aceitou sem hesitar. Ainda não havia passado no vestibular, mas acreditava que a hora chegaria. 


Chegou. Aos 26 anos, ingressou no curso de Ciências Econômicas. No meio do caminho, quase desistiu, quando a filha nasceu. “Cortava meu coração deixá-la chorando para ir à aula”, lembra.


Persistiu. Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado. Pesquisas e pesquisas até a docência na próxima USP. “Foi uma virada de destino. Uma reparação de oportunidades negadas. Hoje, tento ajudar mulheres a desafiarem a lógica e perceberem que elas podem prosperar.” 


Foto: Guilherme Fuzaro

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