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Olhar “sem” vergonha

Origens: símbolo de luta e orgulho

Ribeirãopretanos falam sobre preconceitos impostos pelas sociedade por conta de aparência

“Lembro de vários momentos na infância, na adolescência e até mesmo na fase adulta. Até os 35 anos eu alisava o meu cabelo para me enquadrar nos padrões impostos pela sociedade. É tão séria essa definição de padrão que isso afeta todas as fases da vida se você não decidir se aceitar como é. O que observo atualmente é que essa aceitação agora está acontecendo cada vez mais cedo”. Esse é o depoimento da enfermeira de 37 anos Fabiane Cristina Santos de Oliveira. Fala semelhante ao que acontece com milhões de pessoas com origem negra em todo mundo.

Segundo especialistas, atualmente nota-se que a aparência tornou-se a essência humana, sendo considerada mais importante do que valores e princípios que vigoravam em tempos passados. A preocupação excessiva com a estética e os padrões de beleza faz aumentar em grande escala o número de doenças relacionadas aos transtornos alimentares, bem como o número de cirurgias plásticas.

Fabiane Cristina Santos de OliveiraFabiane fala que quando iniciou em sua profissão, o hospital era um espaço de poucos negros em cargos de liderança. “Eu sempre tive a preocupação em seguir o padrão por medo de não ser aceita no grupo e com isso reduzir as oportunidades. Mas chega um momento que você já tem certeza do que é e da sua capacidade, reconhece que não precisa provar mais nada a ninguém. Isso é um alívio e você passa a perceber o quanto é importante você reconhecer isso para que as outras pessoas do seu grupo vejam e se reconheçam também”.                       

Para ela, falar que as oportunidades para uma mulher negra são iguais às de outras mulheres é mentira. “Escutamos muitas piadas e recebemos vários olhares de reprovação, infelizmente temos que provar muita coisa para conquistar nosso espaço. O importante é não se abater e sempre que houver necessidade ter uma resposta na ponta da língua. O cabelo afro representa a minha verdade. A partir do momento que eu assumi o cabelo afro, nem eu acreditei na mudança que ocorreu na minha vida”, conta.

O preconceito é tamanho que, ao longo da história, negros chegaram a ser retratados como brancos. No Brasil, estudos apontam que Machado de Assis era negro, mas em muitas das vezes foi “embranquecido” em fotografias tratadas graficamente. Outro exemplo acontece com Jesus Cristo que, segundo a mitologia, nasceu na África – como afirmam os evangelhos, numa região que hoje, especialmente depois da construção do canal de Suez, se tornou o Oriente Médio. Jesus compartilharia do fenótipo árabe, de pele escura.

Natascha VitalA arquiteta e urbanista Natascha Vital, de 29 anos é militante de movimentos sociais e culturais de Ribeirão Preto. Ela afirma que o cabelo afro representa a resistência e a força dos seus ancestrais e do seu povo.

“Não me senti mal por não seguir os padrões, mas por sofrer preconceitos por não aceitar o que a sociedade nos impõe. Com 13 anos, eu alisava o cabelo para facilitar para pentear, mas sentia vergonha e não sabia exatamente o porquê. Passando os anos, percebi todo o contexto pelo qual me envergonhava e com 25 anos passei pela transição e comecei a usar o cabelo natural. Atualmente me sinto muito bem, mais bonita e coerente com as minhas ideias”, afirma.

Já a turismóloga Camila Santos de Oliveira, 29 anos, fala que sua infância e a sua adolescência foram marcadas por momentos de preconceito. “Não compreendia o que havia de tão errado com meu cabelo, mas sabia que ele era considerado 'ruim' e por isso a cada três meses tinha que fazer o alisamento para deixá-lo 'melhor'. Mesmo assim, não era suficiente, então toda semana era necessário fazer escova e chapinha. Era uma mutilação nos fios e na minha essência, mas parecia aliviar a sensação de não pertencimento ao padrão de beleza imposto, e com o tempo percebi que o não pertencimento era na realidade minha resistência de não querer mais aceitar a imposição dos estereótipos”, analisa.Camila Santos de Oliveira

A transição de Camila veio aos 24 anos, quando conseguiu ter coragem. “Uso a palavra coragem, porque é um processo mais interno do que externo, afinal é a desconstrução de algo forte que está muito bem estruturado social e culturalmente: o preconceito e o racismo”.

Para ela, o cabelo afro representa pertencimento. "Resgata nosso lugar na história, que é cheia de lutas e resistência, e também representa a liberdade de rompermos mais uma vez com uma sociedade que a todo o momento tenta tirar nossa identidade”, conta. 

Uma dica da também cientista é a auto-observação. “Olhar no espelho, resgatar e valorizar sua própria história de luta até aquele momento e perceber a sua volta quantas outras pessoas também estão nesse caminho de se (re) conhecer. Realmente não é fácil, mas é preciso fazer brotar a semente para que cresçam as raízes que tanto queremos preservar”.

O Brasil assinou junto à ONU, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial, desde o ano de 1969 e, por isso, adota os princípios ali estabelecidos, contra qualquer discriminação racial.

Julio BragaJulio Braga conta que algumas pessoas ainda associam o cabelo afro ao desleixo e acredita ser extremamente importante mostrar que não é bem assim. “O cabelo afro é cultura e a pessoa pode sim ser bonita e feliz com um estilo fora do padrão. Na minha época de escola, as crianças sempre me zoavam por ter o cabelo 'ruim' e isso me fazia o cortar todos os meses, pois eu sentia vergonha por não ter o cabelo 'bom' como o das outras pessoas”.

“Vergonha” - sentimento de insegurança causado por medo do ridículo e do julgamento dos outros; timidez, acanhamento, recato, decoro. Palavra comum na vida de todas as pessoas. “Não tenham medo do que as outras pessoas vão pensar de vocês, se aceitar é mais gratificante do que buscar ser aceito pelos outros. Meu cabelo me representa liberdade, auto aceitação, e além de tudo é minha identidade, quem eu realmente sou”.

Por fim, Braga fala que nunca alisou o cabelo e não pretende. “Comecei a usar esse estilo em 2009 quando fiz 18 anos, depois de decidir que iria fazer trança raiz. O cabelo afro já faz parte de mim e eu não me vejo mais sem ele. Como eu disse, é minha identidade”.

Fotos: Divulgação

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