Além do discurso
Para Ronaldo Fenelon, governança é o alicerce que sustenta toda a estratégia ESG dentro das empresas

Além do discurso

Sustentabilidade, responsabilidade social e governança já são fatores de competitividade nos negócios, garante o advogado Ronaldo Fenelon Santos Filho

Há poucos anos, ESG era uma expressão restrita aos conselhos de administração das grandes empresas. Hoje, passou a fazer parte do vocabulário de empresários, investidores e consumidores, mas a popularização da sigla também trouxe interpretações equivocadas. Muitos ainda associam o conceito apenas à preservação ambiental ou o enxergam como um custo adicional para as empresas. Nesta entrevista à Revide, o advogado Ronaldo Fenelon Santos Filho, doutor e mestre em Direito, professor universitário, especialista em Compliance e ESG pela FGV e sócio de um escritório voltado ao Direito Empresarial, explica por que essa agenda deixou de ser uma tendência para se tornar uma estratégia de negócios.

 

ESG virou uma das expressões mais presentes no mundo corporativo. Ainda existe muita confusão sobre o que realmente significa?

 

O conceito ainda é compreendido de forma bastante limitada. Muitas empresas associam ESG apenas às questões ambientais ou ao antigo conceito de balanço social, quando, na verdade, estamos falando de três pilares que precisam caminhar juntos. O primeiro é o ambiental, que trata da relação da empresa com o meio ambiente e da utilização responsável dos recursos naturais em seus processos produtivos. O segundo é o social, que mede o impacto positivo que aquela organização gera para colaboradores, clientes e comunidade. Já o terceiro é a governança, que envolve ética, transparência, gestão, integridade e qualidade da administração. Quando um desses pilares fica de fora, o ESG perde sentido.

 

Ainda há empresários que enxergam essa agenda como custo. Essa percepção faz sentido?

 

Esse talvez seja o maior equívoco. Empresas que investem em sustentabilidade, responsabilidade social e governança costumam ampliar o acesso a linhas de crédito, fortalecer a reputação, conquistar consumidores e abrir novos mercados. Além disso, reduzem desperdícios, melhoram processos internos e diminuem riscos na cadeia de fornecedores e parceiros. É um ciclo de evolução que transforma aquilo que muitos ainda enxergam como despesa em geração de receita e competitividade. Há estudos que comprovam isso. Uma pesquisa global da PwC, divulgada em 2024, mostrou que 80% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos de origem sustentável, mesmo em cenários de inflação. Ou seja, o mercado já demonstra que valoriza empresas comprometidas com essas práticas.

 

Como diferenciar uma empresa que realmente pratica ESG daquela que apenas utiliza o tema como estratégia de marketing?

 

A principal diferença está na capacidade de comprovar aquilo que é divulgado. ESG pressupõe evidências, indicadores e melhoria contínua. Empresas sérias possuem políticas estruturadas, metas, mecanismos de acompanhamento e certificações. Já aquelas que utilizam o discurso apenas para fortalecer a imagem correm riscos cada vez maiores. O chamado greenwashing (ou "lavagem verde" – a prática enganosa em que empresas usam marketing e comunicação para transmitir uma falsa imagem de responsabilidade ambiental), infelizmente, ainda é muito comum. Estima-se que mais de 80% das empresas que se apresentam como sustentáveis ou socialmente responsáveis não estejam plenamente alinhadas às práticas ESG. Por isso, o próprio Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) passou a endurecer as regras para alegações ambientais, exigindo comprovação técnica, transparência, metas verificáveis e restringindo o uso de expressões genéricas. Hoje, divulgar práticas que não existem pode gerar danos muito maiores do que simplesmente não falar sobre o tema.

 

Ainda existe a percepção de que ESG é uma pauta exclusiva das grandes corporações. As pequenas e médias empresas também precisam olhar para esse tema?

 

Essa percepção está completamente equivocada. Independentemente do porte, quanto mais alinhada às práticas ESG estiver uma empresa, maiores serão suas oportunidades de crescimento. Isso significa conquistar novos mercados, acessar linhas de financiamento mais competitivas, fortalecer a reputação e aumentar a confiança de clientes e parceiros. Essa transformação já está acontecendo, inclusive nas compras públicas. A nova Lei de Licitações prevê critérios relacionados à integridade, sustentabilidade e governança. Em muitos editais, políticas de compliance, equidade e responsabilidade socioambiental já aparecem como requisitos de habilitação ou critérios de desempate. Dentro de muito pouco tempo, não haverá espaço para empresas que ignorem seu papel perante a sociedade e as futuras gerações.

 

Para quem deseja começar, qual seria o primeiro passo para construir uma agenda ESG consistente?

 

Antes de pensar em grandes investimentos, a empresa precisa entender quem ela é e onde pretende chegar. O primeiro passo é estruturar políticas internas que traduzam seus valores e estabeleçam objetivos de médio e longo prazos. A partir daí, é possível criar indicadores e iniciar mudanças que muitas vezes não exigem recursos elevados. Há medidas simples que já geram impacto, como incentivar o consumo consciente de energia, buscar fontes renováveis, melhorar a gestão de resíduos, fortalecer o relacionamento com a comunidade e criar canais transparentes de comunicação com colaboradores e fornecedores. O mais importante é compreender que ESG não é um projeto isolado, mas uma cultura que precisa envolver toda a organização.

 

Quais erros o senhor observa com mais frequência nas empresas que tentam implantar essas práticas?

 

O primeiro erro é acreditar que ESG pode ser responsabilidade de apenas um departamento. Muitas organizações transferem essa missão para o RH [Recursos Humanos], Marketing ou Jurídico, quando, na verdade, ela precisa envolver todas as áreas da empresa. O maior desafio costuma ser convencer a alta direção de que essa agenda fortalece o negócio e não representa apenas uma exigência externa. Também é comum encontrar empresas que tratam ESG apenas como ferramenta de marketing, sem criar indicadores, metas ou processos internos. Outras tentam implementar tudo ao mesmo tempo, ignoram o aspecto social, deixam fornecedores fora da estratégia ou desenvolvem ações pontuais sem continuidade. ESG exige planejamento, participação coletiva e melhoria permanente.

 

O "G" de governança costuma receber menos atenção do que os outros pilares. Qual é a importância dele?

 

Na minha visão, a governança é o alicerce de todo o ESG. Falar em sustentabilidade ou responsabilidade social sem uma estrutura sólida de governança é como construir um prédio pelo telhado. É ela que garante transparência, gestão de riscos, prestação de contas e alinhamento entre os interesses da empresa e dos seus diferentes públicos. O compliance faz parte desse processo. Enquanto ele garante que a organização cumpra leis, normas e regulamentos, o ESG amplia essa visão, incorporando aspectos ambientais, sociais e éticos. As duas áreas caminham juntas, porque o compliance fornece os mecanismos de controle e auditoria necessários para que as práticas ESG deixem de ser promessas e se transformem em ações concretas. Hoje, integrar ESG aos programas de compliance deixou de ser uma opção reputacional para se tornar uma questão de sobrevivência empresarial.

 

O Brasil reúne condições para se tornar uma referência em ESG ou ainda enfrenta obstáculos importantes?

 

O Brasil vive uma situação bastante particular. Temos vantagens competitivas relevantes, como uma matriz energética predominantemente renovável e a maior biodiversidade do planeta, fatores que nos colocam em posição privilegiada na transição para uma economia mais sustentável. Ao mesmo tempo, convivemos com desafios históricos, como desigualdade social, saneamento básico insuficiente, complexidade tributária e problemas relacionados ao desmatamento ilegal. Essa dualidade também aparece no agronegócio. O setor é um dos motores da economia brasileira e reúne produtores altamente tecnológicos, eficientes e comprometidos com práticas sustentáveis, como agricultura de baixo carbono e integração entre lavoura, pecuária e floresta, mas ainda existem maus atores que operam na ilegalidade e acabam comprometendo a imagem de todo o segmento. O grande desafio é mostrar, por meio de rastreabilidade, certificações e dados, quem realmente produz de forma sustentável.

 

Os investidores já incorporaram critérios ESG às decisões ou o desempenho financeiro continua sendo o único fator relevante?

 

Hoje não existe mais essa separação. O mercado percebeu que risco ambiental, social ou de governança também é risco financeiro. Empresas que administram melhor esses aspectos tendem a enfrentar menos crises, sofrer menos sanções, preservar sua reputação e apresentar maior capacidade de adaptação. A análise financeira continua sendo fundamental, mas passou a incorporar o ESG. Os investidores entendem que organizações com boa gestão de riscos, transparência e responsabilidade socioambiental oferecem maior segurança e melhores perspectivas de longo prazo.

 

A tecnologia e a inteligência artificial devem acelerar essa transformação?

 

Sem dúvida. Ferramentas como IA [Inteligência artificial], Big Data e Blockchain estão tornando o ESG cada vez mais mensurável. Elas permitem monitorar emissões de carbono e consumo de energia em tempo real, acompanhar toda a cadeia de fornecedores, reduzir riscos de fraude, automatizar processos de auditoria e produzir relatórios muito mais confiáveis. Também há impactos importantes no pilar social. Algoritmos podem ajudar a reduzir vieses em processos seletivos, ampliar a diversidade e fornecer indicadores mais consistentes sobre qualidade das relações de trabalho. O ESG deixa de ser uma percepção subjetiva para se apoiar em dados concretos.

 

Quais mudanças regulatórias merecem maior atenção das empresas nos próximos anos?

 

O ambiente regulatório está evoluindo rapidamente. Um dos principais marcos é a Resolução CVM 193, que incorpora ao Brasil os padrões internacionais de divulgação de informações de sustentabilidade. Além disso, as empresas precisarão acompanhar a regulamentação do mercado de carbono, a taxonomia verde [sistema de classificação que define, com base científica, quais atividades econômicas, ativos e projetos são considerados sustentáveis, com o objetivo de orientar o mercado, direcionando investimentos, crédito e seguros] e legislações internacionais que já afetam exportadores brasileiros, principalmente na Europa. Isso demonstra que ESG deixou de ser apenas uma iniciativa voluntária. Cada vez mais será uma exigência regulatória e comercial para empresas que desejam permanecer competitivas.

 

Que conselho o senhor daria ao empresário que ainda vê o ESG com desconfiança?

 

Eu diria para abandonar a ideia de que ESG é uma moda ou uma ideologia. Trata-se de uma ferramenta moderna de gestão de riscos, geração de valor e fortalecimento dos negócios. O mercado já sinalizou esse caminho. Consumidores, investidores, bancos, grandes compradores e órgãos reguladores estão exigindo empresas mais transparentes, éticas e responsáveis. Quem começar agora terá tempo para evoluir de forma planejada. Quem insistir em ignorar essa transformação corre o risco de perder acesso a crédito, ficar fora de grandes cadeias de fornecimento, afastar talentos e reduzir sua competitividade. O melhor momento para iniciar essa mudança é agora.

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