Educação digital, olhar humano
Vivian Coraucci coordena um grupo de trabalho responsável por elaborar o Plano Municipal de Educação Digital para Ribeirão Preto

Educação digital, olhar humano

À frente do Plano Municipal de Educação Digital, a pedagoga e historiadora Vivian Coraucci defende uso da IA com intenção pedagógica, mediação docente e formação crítica desde a infância

Com uma trajetória de mais de 25 anos de trabalho na Educação Básica, a pedagoga e historiadora Vivian Coraucci tem conduzido trabalho dois mais importantes na Secretaria Municipal de Educação de Ribeirão Preto. Especialista em Inteligência Artificial na Educação, em Educação Digital e Midiática, em Gestão Escolar, em Direitos Humanos e em História, Cultura e Sociedade, ela atua na Assessoria Pedagógica da Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto e coordena, desde 2025, o grupo de trabalho responsável por elaborar o Plano Municipal de Educação Digital. 


O PMED deve basear-se na “BNCC Computação” (complemento à BNCC – Base Nacional Comum Curricular, que define as diretrizes obrigatórias para o ensino de computação e educação digital na Educação Básica), lançada pelo MEC, em 2022, com a pretensão de formar mais do que consumidores passivos de tecnologia, mas cidadãos que compreendam a cultura digital de forma crítica e criativa.


Na entrevista a seguir, Vivian explica como está sendo Feito esse trabalho:

 

REVIDE - Há quanto tempo se interessa pela área de educação digital e o que despertou esse interesse?

 

A popularidade de educação digital, o boom, a gente percebe a partir de 2025, quando todo mundo se dá conta de que “temos inteligência artificial, e agora? Como vai ser isso nas escolas?”; mas eu já tinha esse interesse antes. Fui estudando online. O próprio MEC disponibiliza muitos cursos gratuitos. Terminamos agora uma especialização na qual nos colocam como “embaixadores da educação digital e midiática no Brasil”, para que possamos replicá-la nos municípios e nos estados, porque é realmente tudo muito novo. E evolui muito rápido. Só não podemos esquecer o fundamental, que é o olhar humano. A inteligência artificial erra muito, tem viés; então, se você pegar o trabalho que ela entregar pronto e não colocar sua visão crítica, verificar e trazer para a sua realidade, poderá ter um documento com erros.

 

Em que casos a ferramenta IA é aliada da educação?

 

A IA é como uma faca [de dois gumes]. Dá certo, por exemplo, para o professor que tem alunos com necessidades especiais. Em uma classe muito heterogênea, ele pega uma mesma atividade e pede à IA: “transforme essa atividade de acordo com tais e tais necessidades da minha turma”. A IA entregará a ele uma atividade que atenda às diferentes necessidades dessa turma. Ela otimiza o tempo desse professor, seja no plano de aula, em uma avaliação ou até em modelos de atividades que ele possa ir aplicando. Isso dá muito certo, mas sempre com a supervisão atenta do professor. É muito bem-vindo para aqueles que têm uma carga horária de trabalho muito além da sala de aula. Se souber utilizá-la, pode ajudá-lo muito, porque otimiza seu tempo.

 


E em quais casos essa ferramenta pode sabotar o ensino?

 

A IA pode atrapalhar se o professor não tiver o cuidado de analisar o que ela entrega. Se o professor simplesmente lançar uma atividade na inteligência artificial, ela pode oferecer informações erradas ao aluno. Outro aspecto ruim é que os alunos também estão utilizando a IA de formas que podem ser muito prejudiciais. Por exemplo: o professor pede um trabalho ao aluno. Onde eles pesquisavam antigamente? Nos livros. Hoje, onde o aluno vai pesquisar? Na internet, que tem informação de todo tipo, certa e errada. A inteligência artificial pode entregar o trabalho pronto, que o aluno apenas copiará. Se o professor não tiver o cuidado de perguntar ao aluno como ele fez, o que entendeu e o que conseguiu absorver daquilo, o conhecimento passou longe. Ele não aprendeu absolutamente nada.

 

Quais são as principais diretrizes estabelecidas pelo BNCC Computação, que todas as redes e sistemas de ensino passaram a ser obrigados a seguir neste ano?

 

A “BNCC Computação” organiza conteúdos e competências para que redes de ensino incorporem pensamento computacional, cultura digital e compreensão do mundo digital aos currículos, e possui três eixos fundamentais a serem trabalhados. Primeiro é o pensamento computacional: como esse aluno pensa. O segundo é trabalhar o mundo digital – as pessoas até confundem, acham que mundo digital é a rede social, e não; são os softwares, o computador, o celular... E o terceiro eixo é a cultura digital – você trabalhar com a criança cyberbullying, tempo de tela, fake news, ética, responsabilidade nas redes sociais... Com tudo isso a gente prepara o aluno para viver em sociedade e também para o mundo do trabalho. Ele precisa, ao final de tudo isso, conseguir criar. Pegar um mecanismo desse e criar a seu favor e a favor da sociedade.

 

Então define diretrizes para o letramento digital, certo?

 

Exatamente. A educação digital e midiática tem que começar desde a educação infantil. Eu não vou dar tela para o meu aluno na educação infantil. Damos o que chamamos de atividades desplugadas, que trabalham o raciocínio, o “pensamento computacional” sem uso de tela.

 

Dê exemplo de uma atividade desplugada que trabalhe o pensamento computacional na educação infantil?

 

O jogo da Amarelinha é a mais básica. Na Amarelinha, há padrões que a criança precisa seguir: primeiro pula com um pé só, depois com dois. Em cima dessa Amarelinha, que todos já conhecem e quase todas as escolas têm, você pode mudar o padrão. Por exemplo, em vez de colocar número, posso colocar triângulo, quadrado...; mudei o padrão. Outro exemplo: uma receita. Quando trabalhamos uma receita, podem pensar que se está trabalhando Língua Portuguesa. Não só. Para que a receita seja bem-sucedida, tenho que seguir passos, seguir uma ordem, separar, decompor aquela receita em partes. Isso é pensamento computacional, que dá para trabalhar desde muito pequenininho. Não é simplesmente “vou dar um computador e colocar o meu aluno para aprender a mexer no teclado”.

 

Em Ribeirão Preto, os profissionais da educação estão prontos para conduzir esse letramento?

 

Nós estamos formando esses professores. Foi feita uma consulta pública, primeiro, e estamos construindo um Plano Municipal de Educação Digital junto com eles. No ano passado, professores, gestores, pais e alunos foram consultados sobre o que gostariam que esse plano trouxesse como política pública. Dentro do que foi tabulado, já iniciamos a formação docente, porque temos profissionais – dentro da rede municipal e das redes particulares também – em diferentes níveis de saberes digitais. O MEC lançou, inclusive, uma Autoavaliação de Saberes Digitais, na qual cada professor entra para saber em qual nível está e o que ainda precisa aprender. Por isso estamos fornecendo formação continuada para todos na rede municipal.

 

Quais foram as principais conclusões a que a consulta pública chegou?

 

A grande maioria dos professores ouvidos pede formação, porque é um conteúdo muito novo. Os pais são os que mais demonstram estar perdidos. Eles não sabem o que fazer, não sabem como auxiliar os filhos nas tarefas, como limitar o tempo de tela ... Tivemos muitos pedidos sobre a questão dos jogos entre os alunos. 

 

E os alunos, o que pediram?

 

Saber utilizar a inteligência artificial não só para postar na rede social. Isso, inclusive, é um dado que nós, no grupo de trabalho do Plano Municipal, recebemos das unidades de ensino superior: o aluno da universidade não sabe utilizar a inteligência artificial para o trabalho. Ele sabe postar, olhar o Instagram, o Facebook, as redes sociais — os mais jovens agora, TikTok —, mas utilizar para criar alguma coisa os próprios adultos não sabem. 

 

Quando e como a elaboração do Plano Municipal de Educação Digital, quantas pessoas estão envolvidas e quando fica pronto?

 

Começamos no início de 2025, a pedido do prefeito, que se mostrou preocupado com como estamos formando os nossos alunos. Ele falou: “nós não queremos só formar, não queremos que essa pessoa, que hoje é criança, vá ter um simples trabalho; a gente quer que ela tenha um ótimo trabalho”. E nosso secretário da educação disse: “vamos pensar em como formar essas crianças para o futuro”. Assim reunimos representantes de todos os setores da Secretaria Municipal da Educação para tratar dos detalhes e do que pensávamos enquanto Secretaria. Levantamos todas as informações disponíveis, que, inclusive, vêm do MEC. Realizamos algumas reuniões e criamos um grupo de trabalho formado por representantes da Secretaria da Educação, do Conselho Municipal de Educação, do Instituto Ribeirão 2030, do Sindicato dos Servidores e da Secretaria de Governo Digital. Esse grupo de trabalho se reuniu para traçar as diretrizes do que aconteceria dali em diante. Então fizemos a consulta pública. Abrimos uma vez e depois novamente, porque não tínhamos tido uma participação tão grande dos professores. A partir das informações levantadas, iniciamos as formações dentro da rede para já começar a replicar dentro das escolas. A ideia era que ficasse pronto até agosto, mas esperamos o Plano Nacional [de Educação 2026] para ver se precisaríamos adaptar mais alguma coisa. Acredito que em fevereiro tenhamos esse plano funcionando a todo vapor.

 

Já mudou alguma coisa na sala de aula?

 

Sim… vemos os alunos criando. Tivemos, há pouco tempo, uma oficina na qual os alunos confeccionam e depois disparam foguetes aqui na nossa rede. Isso é uma cultura “maker”. Completamos agora um ano de proibição de telas nas escolas. Eu, particularmente, considero a medida muito necessária, mas foi — entre aspas, por favor — uma “medida emergencial”. Os alunos estavam tão dentro da tela que o professor não conseguia dar aula. Então não dava para apenas colocar um limite. Teve que ser uma medida enérgica, mas aí houve uma confusão. Não é terminantemente proibido o tempo todo. Se o professor planejou, tem intencionalidade pedagógica, não há problema. Então, após um ano, observamos um excelente resultado na convivência entre os alunos, na sociabilidade deles e na atenção, que era o que mais estávamos perdendo durante as aulas.

 

A pergunta obrigatória: como fazer para não perder esse plano que vocês estão elaborando se os integrantes do governo municipal mudarem na próxima eleição?

 

Temos a sorte de ter um secretário da Educação, Christian Viana, que é professor da rede. Ele é uma pessoa maravilhosa e conhece a nossa realidade. Então tudo o que vem sendo construído, ele entende e sabe o que pode funcionar, porque às vezes o que funciona para Ribeirão Preto não serve para Cravinhos, que é ao lado. É um plano construído para o futuro. Estamos traçando toda essa escuta que fizemos dos pais, dos alunos e dos professores para a construção de um novo currículo que não será modificado daqui a quatro anos caso mude o governo. O currículo permanece enquanto houver necessidade. Ele será modificado se a rede mudar, se houver uma nova BNCC – como veio essa da computação – com informações a serem agregadas. 

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