Período de estiagem acende ‘sinal vermelho’ no combate aos incêndios em Ribeirão Preto
Ribeirão Preto foi a sexta cidade mais poluída do Brasil em 2024, segundo relatório internacional, impulsionada por queimadas e tempo seco recordes
Em função do tempo seco prolongado e dos inúmeros incêndios registrados no ano passado, Ribeirão Preto foi considerada a sexta cidade mais poluída do Brasil, segundo o Relatório Mundial sobre Qualidade do Ar 2024. Foi o ano em que o Estado de São Paulo registrou o maior número de queimadas desde que o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) iniciou suas medições, em 1998.
Especialista em Química Ambiental, a professora Maria Lúcia Arruda de Moura Campos, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP (Universidade de São Paulo), destaca que os níveis de qualidade do ar em Ribeirão Preto, nos últimos anos, têm sido alarmantes. “Em 6 de setembro de 2021, registramos pela primeira vez um nível considerado ‘péssimo’. O cenário se agravou ainda mais em agosto de 2024, que teve 27 dias com níveis de MP2,5 [partículas finas suspensas no ar] acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)”, aponta. Ela lembra que no episódio mais grave, em 24 de agosto, quando a cidade literalmente escureceu em pleno sábado, a concentração horária de partículas chegou a números nunca registrados na região.
O impacto na saúde pública foi imediato, com um aumento significativo na procura por atendimento médico devido a problemas respiratórios. “O material particulado fino PM2,5 [poluição atmosférica facilmente inalada] tem um grande potencial negativo na saúde humana. Por ser extremamente pequeno, impregna os tecidos dos pulmões, causando efeito similar às partículas do cigarro e atinge a corrente sanguínea, levando seus componentes químicos (de elevado potencial cancerígeno) para os órgãos”, explica Maria Lùcia. Ou seja, além do problema imediato e agudo no sistema respiratório, podemos, a longo prazo, estar sendo expostos de forma recorrente a um material de elevada toxicidade. “Crianças, idosos e quem já tem problemas respiratórios crônicos sofrem mais as consequências das queimadas”, acrescenta.
Para a especialista, sem ações de combate e prevenção às queimadas, a tendência é que continuem ocorrendo incêndios de grandes proporções durante os próximos anos, agravando a situação. “No Brasil, estamos indo na contramão de soluções, com a aprovação de legislação que amplia a possibilidade de desmatamento. Infelizmente, as mudanças climáticas só tendem a piorar, e os eventos climáticos extremos devem aumentar de intensidade e frequência”, declara. A redução no número de árvores ainda diminui, consequentemente, a umidade, gerando um ambiente mais seco. “As árvores captam menos quantidade de CO², o que leva a um aumento de temperatura. E com as vegetações mais secas, são maiores os riscos de incêndios”, aponta.
Um caminho resolutivo, na opinião da professora, está no uso da tecnologia. “Fala-se muito no uso de drones para o aumento da produtividade na lavoura e maior eficiência no uso de defensivos agrícolas, mas quanto estamos evoluindo em usá-los para coibir as ações criminosas? Aumentar o patrulhamento em áreas rurais, utilizando veículos e pessoas, me parece como utilizar mais máquinas de escrever para produzir mais textos. Se não utilizamos de forma intensiva câmeras fixas, câmeras em drones, drones com sensores térmicos, estaremos fadados a vivenciar novos eventos extremos com consequências imediatas e a longo prazo”, afirma.
Plano municipal
Em nota, a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto afirma que o monitoramento de focos de fogo é realizado em parceria pela Secretaria de Meio Ambiente, através do setor de Fiscalização Ambiental, e a Guarda Civil Metropolitana. “O patrulhamento preventivo e ostensivo é feito nos pontos tradicionais, utilizando todos os meios e equipamentos disponíveis, inclusive drones”, informa.
Conforme identificado no Plano Municipal de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF), lançado em junho deste ano, as regiões Norte e Leste são as mais atingidas, tradicionalmente, por incêndios. Por isso, estão sendo executadas zeladorias preventivas principalmente nesses pontos do município, como na Fazenda da Barra e em áreas próximas ao rio Pardo, na avenida Antônia Mugnato Marincek.
De acordo com imagens de satélites, relatórios da Divisão de Monitoramento e Controle Ambiental (DMCA) e dados do Programa Queimadas desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foram identificados 11.244,40 hectares afetados pelos incêndios florestais entre os meses de agosto e setembro do ano passado, nas áreas urbanas e rurais de Ribeirão Preto. A maioria das áreas queimadas foi de plantações, pastos ou sem vegetação significativa, representando 77,04% do total afetado (8.662,14 hectares), e a maior parte localizada nas regiões Sul (6.090,66 ha, 54,17% do total) e Oeste (3.458,18 ha, 30,75% do total).
O PPCIF integra as Secretarias de Meio Ambiente, Infraestrutura, Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e fiscalizações ambientais, apresentando um cronograma estratégico anual de ações programadas. No primeiro trimestre (fase verde), entre janeiro e março, são realizadas as atividades de planejamento e preparação; na fase amarela (abril e maio), intensificam-se ações preventivas, treinamentos de brigadistas e ativação do plano de comunicação. A fase vermelha, entre junho e outubro, prioriza combate ao fogo, fiscalização repressiva e ampliação das campanhas educativas junto à população.
Segundo a Prefeitura, desde junho já ocorrem campanhas educativas – como a ação inaugural de 5 de julho, na Fazenda da Barra –, além de zeladoria preventiva intensificada em avenidas e áreas rurais, remoção de lixo e entulho e diálogo com lideranças locais e concessionárias. Tudo visando evitar novos desastres e fortalecer a prevenção de forma permanente. “O Ministério Público foi informado, por meio da Secretaria de Infraestrutura, sobre todas as empresas que necessitam realizar ações em áreas que são de responsabilidade dessas terceiras. O MP notificou e realizou audiência pública com a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), para execução das manutenções em áreas de responsabilidade da empresa. Na audiência realizada na quarta-feira, 29 de junho, a CPFL informou que disponibilizaria ao MP o cronograma de roçadas”, descreve, ainda, a nota da Prefeitura.
Conscientização necessária
Para a promotora Cláudia Tofano, do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema), o desafio mais urgente no combate aos incêndios é a mudança de comportamento da população. “O fogo é causado pelo homem – 99,9% das ocorrências — seja por imprudência, negligência ou mesmo de forma criminosa”, alerta. Segundo ela, muitos incêndios começam com ações consideradas “cotidianas”, como o uso do fogo para limpar terrenos, queimar lixo ou até durante passeios, eventos religiosos e churrascos em áreas de mata. “Ainda há quem solte balões ou faça fogueiras, o que é terminantemente proibido e pode causar desastres graves”, reforça.
Desde 2017, o Gaema coordena um trabalho que integra mais de 40 instituições públicas e privadas, com foco em prevenção, detecção precoce e resposta rápida. Participam do esforço órgãos como o Corpo de Bombeiros, a Polícia Ambiental, as Defesas Civis dos 29 municípios da Bacia do Pardo, usinas de cana, concessionárias de rodovia, assentamentos rurais, unidades de conservação e até o setor privado, como empresas do ramo florestal. “Todos têm um papel. Desde janeiro, realizamos dezenas de reuniões para planejar e antecipar riscos. E mesmo na estiagem, seguimos com encontros para acompanhar a evolução dos focos e reforçar as ações de campo”, explica a promotora.
Segundo ela, o trabalho é estruturado em cinco frentes principais: o poder público municipal (com defesas civis ativas, campanhas educativas e vigilância diuturna), o setor produtivo (com usinas e propriedades rurais atuando em prevenção e resposta), as concessionárias de rodovia (que têm feito limpezas intensivas nas margens das estradas), os assentamentos rurais (onde brigadas comunitárias são treinadas) e as unidades de conservação, como a Mata de Santa Tereza, que demandam vigilância constante e articulação com moradores vizinhos. “Mesmo com toda essa estrutura em ação, enquanto houver quem use o fogo como ferramenta, o risco permanece. O grande desafio é fazer com que a população pare de atear, que entenda o risco, a ilegalidade e os impactos que isso traz. Precisamos da denúncia, do envolvimento de todos. Cada pessoa pode evitar uma tragédia”, conclui.
União faz a força
Segundo o major Jean Gomes Pinto, do 9º Grupamento de Bombeiros (9º GB), em Ribeirão Preto, a responsabilização de quem ateia fogo de forma criminosa — uma das frentes de atuação do Ministério Público — conta com apoio das forças de segurança, e a população tem papel decisivo nesse processo, seja denunciando, registrando imagens, indicando endereços ou fornecendo placas de veículos. “As denúncias podem ser feitas de forma anônima. É isso que permite responsabilizar quem causou o incêndio”, explica o major. Os canais oficiais para denúncias incluem o 193 (Corpo de Bombeiros), 190 (Polícia Militar) e o 181 (Disque Denúncia).
Conforme explica o major, há dois tipos principais de ocorrência: os incêndios estruturais, que acontecem em edificações, e os incêndios florestais, que atingem áreas de vegetação aberta. Nos estruturais, toda a energia gerada pela combustão fica concentrada dentro do imóvel. Já nos florestais, por serem em locais abertos, parte dessa energia se dissipa pela convecção, exigindo a análise de três fatores principais: a topografia, a meteorologia e o combustível natural (vegetação seca, folhas, galhos e matéria orgânica acumulada). “Quanto mais inclinado o relevo, mais intenso tende a ser o fogo, dificultando o acesso e a permanência das equipes no local. A meteorologia é o aspecto mais crítico. Mudanças bruscas em fatores como direção e velocidade do vento, temperatura e umidade relativa do ar podem agravar repentinamente a situação e causar acidentes graves, inclusive fatais. O combustível é o único fator sobre o qual os bombeiros podem atuar diretamente”, explica.
Uma das estratégias adotadas para mitigar o risco de incêndios descontrolados é a realização das chamadas queimas prescritas, técnica que elimina de forma controlada parte da vegetação acumulada em áreas estratégicas, como unidades de conservação, reduzindo a carga de material inflamável disponível. “Se conseguimos diminuir a quantidade de combustível disponível, conseguimos evitar a ignição e também minimizar a propagação e a intensidade do incêndio", afirma, reforçando a importância da prevenção e do manejo consciente das áreas de vegetação.
Historicamente associado às queimadas, o setor agropecuário, hoje, é um dos mais prejudicados por elas. “Com a mecanização da colheita da cana e mudanças no manejo, o uso do fogo não traz mais qualquer vantagem ao produtor rural. Pelo contrário, representa prejuízo, porque destrói nutrientes do solo, afeta a qualidade da matéria-prima e compromete o planejamento da moagem [no caso da cana]. O manejo moderno não admite mais esse tipo de prática”, ressalta o major.
Produtor rural, ambientalista e bombeiro florestal voluntário, Eugenio do Val Neto atua diretamente na zona de amortecimento da Estação Ecológica de Ribeirão Preto, vizinha à Mata de Santa Tereza. Desde que assumiu a operação, em 2021, ele vem fortalecendo práticas de prevenção e recuperação ambiental na propriedade e criou o Instagram: @fazenda_mais_segura_mais_verde para prestar mais informações.
"Já plantamos mais de 50 mil mudas e seguimos um plano anual baseado no calendário das unidades de conservação do Estado, com ações que começam ainda no período das águas", conta o produtor-voluntário. Ele explica que, de janeiro a maio, o foco está na manutenção das áreas, qualificação da brigada, aquisição e preparo dos equipamentos. No período da seca, a prioridade passa a ser vigilância constante e combate.
Eugenio destaca ainda a importância da integração entre vizinhos e instituições. "Temos um intercâmbio direto com a equipe da Estação Ecológica, participamos de treinamentos, trocamos informações sobre circulação de pessoas e veículos suspeitos e nos preparamos para agir em conjunto. O produtor que está conectado ao seu tempo já entendeu que fogo é prejuízo e que investir em prevenção é mais barato do que reparar os danos", afirma.
Ele recomenda medidas acessíveis, como formação de brigadas, roçagem dos capins, realização de aceiros dentro da legalidade e uso de ferramentas simples, como abafadores artesanais e bombas costais. “Se a prevenção estiver no plano de negócio da propriedade, vamos ter menos perdas, mais segurança e muito mais tranquilidade para atravessar a estiagem”, afirma.
Para os próximos meses em Ribeirão Preto, segundo Maria Lúcia Campos, a atenção de todos deve estar voltada à prevenção das queimadas. “Em 2025, o prognóstico é, novamente, de chuvas abaixo da média, o que contribui para essas vegetações mais secas e a presenças de maiores riscos de queimadas e focos de incêndio. A contribuição das pessoas, evitando fazer qualquer tipo de fogo e denunciando atitudes suspeitas, será decisiva”, conclui.
DENUNCIE
A população pode — e deve — colaborar no combate aos incêndios em Ribeirão Preto. Ao presenciar focos de fogo ou ações suspeitas, entre em contato imediatamente com os canais oficiais. Sua ação pode evitar uma tragédia. Denuncie!
- Corpo de Bombeiros: 193
- Serviço de atendimento ao Munícipe (SAM) da Prefeitura de Ribeirão Preto: 156
- Guarda Civil Metropolitana (GCM): 153
* Acessando os demais canais oficiais da Prefeitura, as denúncias são encaminhadas diretamente aos órgãos responsáveis por meio do site e redes sociais da administração municipal.