Louco por bibliotecas
Ciro Monteiro narra a origem de sua paixão pelas letras e suas possibilidades, que encontraram um terreno fértil na Biblioteca Sinhá Junqueira, onde é diretor desde 2019
"Oi, sou Ciro Monteiro, pai, bibliotecário e apaixonado por leitura, esporte e todas as linguagens artísticas. Nasci em 7 de julho de 1983, em Bauru. Cresci em um bairro periférico e trabalhei, desde os 8 anos, em um bar/mercearia alugado pelo meu pai. Permaneci nesse bar dos 8 aos 18 anos, espaço onde aprendi grande parte das coisas da vida, lidando com todos os tipos de pessoas: em situação de rua, fregueses que chegavam de manhã para tomar cerveja após a jornada de trabalho, senhoras, intelectuais de boteco com quem travávamos longas conversas sobre os mais diversos assuntos, além da molecada do bairro.
A leitura sempre fez parte da minha vida, mas considero o papel dos jornais essencial para minha formação, pois era por meio deles — Jornal da Cidade de Bauru, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, entre outros — que eu debatia com os fregueses as grandes questões do mundo. No entanto, o livro que começou a mudar de forma decisiva minha percepção de mundo foi “Capão Pecado”, do escritor Ferréz. Recentemente, fiquei sabendo por um amigo — hoje rapper e escritor — que esse livro foi roubado de uma banca e circulou por toda a rapaziada do bairro. Éramos adolescentes, não tínhamos acesso à literatura, e o movimento hip hop estava em plena ascensão. Os Racionais eram nossa principal referência, e a literatura marginal dialogava diretamente com a realidade que vivíamos.
Chegamos, inclusive, a produzir um pequeno jornal artesanal para publicar nossas ideias, poesias e textos, projeto que teve duração efêmera. Encantado com o universo das letras, uma das disciplinas que mais me entusiasmavam na escola era História. Leitor assíduo de filosofia e história, ingressei no curso de História da Unesp de Assis, já carregando comigo a experiência das “coisas da vida”. Comecei a dar aulas ainda nos primeiros anos do curso, desenvolvi pesquisas e consegui me manter sem apoio externo, já que meus pais não tinham condições de me sustentar.
Paralelamente, outro espaço que sempre me encantou foi a biblioteca — um lugar repleto de livros, onde eu sonhava trabalhar. Após concluir o curso de História, mudei-me para Marília para cursar Biblioteconomia. Em uma nova cidade e para garantir minha sobrevivência, comecei a dar aulas na prisão. Surgiu, então, um novo encantamento: as pessoas privadas de liberdade participavam intensamente das aulas, o que despertou em mim o desejo de ampliar esse contato. Prestei concurso para trabalhar no sistema prisional, com foco na educação e na biblioteca.
Após a aprovação, escolhi a cidade de Ribeirão Preto, onde poderia concluir o curso de Biblioteconomia na USP e desenvolver meus trabalhos na prisão. Como responsável pelo setor de educação, desenvolvi inúmeros projetos: estruturação de bibliotecas, clubes de leitura, ações de incentivo à leitura, jornadas de cidadania, além das pesquisas que fundamentaram meu mestrado e doutorado.
Apaixonado por bibliotecas, entusiasta e frequentador assíduo, após participar da Feira do Livro com atividades de leitura realizadas por pessoas privadas de liberdade — no Palace e em frente à antiga Biblioteca Altino Arantes — fui convidado pela Fundação Educandário a participar do processo seletivo para o cargo de diretor da futura biblioteca pública da cidade, que seria totalmente revitalizada e dotada de novos espaços.
Encantado com a possibilidade, assumi o cargo em 2019, com a missão de acompanhar a finalização das obras e montar a equipe. Na ocasião, relatei à diretoria da Fundação Educandário que eles sentiriam um enorme orgulho e que aquele espaço se tornaria uma referência para Ribeirão Preto e região. Hoje, após mais de seis anos de trabalho, a Biblioteca Sinhá Junqueira é uma das bibliotecas públicas mais frequentadas do país.
Funcionamos na contramão de um país pouco leitor: emprestamos, em média, 90 livros por dia, o equivalente a um livro a cada seis minutos. Recebemos cerca de 750 visitantes diários e realizamos quase 800 atividades culturais em 2025.
Ribeirão Preto me acolheu há 16 anos. Foi aqui que criei raízes, constituí família e passei a pertencer. Cidade maravilhosa, território fértil para criar filhos e sonhos. Tenho dois: Diogo, com 1 ano e 11 meses, e Liz, com apenas 90 dias — flor recém-chegada, nascida na Via Norte, dentro do carro, em um parto conduzido por minhas próprias mãos... mãos de poesia. Sua história começa em movimento e deseja seguir sendo escrita em espaços como a Biblioteca Sinhá Junqueira, lugares que cultivam arte, sonho e vida."