Nascido para o cuidado

Nascido para o cuidado

O médico infectologista Lucas Agra narra o despertar de suas vocações e como adoecer no período mais crítico da pandemia de covid potencializou sua missão de vida

"Nasci em Cuiabá (MT), em 17 de julho de 1985, e cresci em Várzea Grande, cidade vizinha. Concluí minha graduação em Medicina em 2010, na Universidade de Cuiabá, e cheguei a Ribeirão Preto em 2011, para me especializar em Infectologia no campus local da USP. Fui o primeiro médico da família. 


Algo sempre me empurrou no sentido do cuidado, de oferecer alívio, respostas, apontar uma direção. Lembro da história de um médico americano famoso – Ben Carson – ser o ponto de partida da minha vocação. Já a escolha da minha especialidade tem a ver com um caso emblemático, que me chamou a atenção na faculdade: uma família desamparada, desolada, perdida com a doença do filho, o colocou em um carro e saiu do interior para tentar encontrar meu professor de Infectologia. Aquela procura, o cuidado, a investigação do diagnóstico, a elucidação do caso, o tratamento, o alívio, à despeito da impossibilidade de cura... tudo o que vivi naquela tarde confirmou a certeza de que havia nascido para ser infectologista. 


É fato que, no livro dos piores dias de minha vida, uma boa parte estará separada para o período da pandemia mundial de coronavírus. O desafio como especialista em infecções para enfrentar uma nova doença infecciosa de proporções catastróficas, navegando em um mar de incertezas, trouxe caos para a vida de qualquer pessoa minimamente preocupada com a humanidade. Participei de tudo: da construção de protocolos, da coordenação de serviços, do atendimento aos pacientes, do manejo e intubação dos mais graves, dos treinamentos e orientações sobre tratamento e vacina. No primeiro semestre trabalhava no HC Campus, na Unidade de Emergência do HC [Centro], no hospital Santa Lydia, na Santa Casa de Sertãozinho, no Netto Campelo, também em Sertãozinho, e no meu consultório. Pude viver – ou sobreviver – às mais diferentes realidades e demandas até quase pagar o preço de tanto trabalho adoecendo com a doença que eu combatia. Fui forçado a parar!


Fiquei internado no Centro de Tratamento para Doenças Infectocontagiosas (UETDI) do no HC Campus – onde aprendi tudo o que sabia –, agora para ser cuidado, ser salvo. Foram os dias mais longos da minha vida. As horas que nunca passavam, a febre que cessava e voltava, o ar que me faltava e a fome que me abandonara foram meus companheiros. Claro que não os únicos, porque o amor e afeto de quem cuidava de mim, dos profissionais do HC, dos meus companheiros de trabalho, dos meus amigos, da minha família e de Deus transbordaram na minha vida. 


Duas semanas depois, 20 kg a menos, sem febre e respirando sem ajuda de oxigênio, descobri que iria carregar esta nova missão de vida, que tatuei na pele: “se ano passado eu morri, este ano eu não morro” – frase da canção de Belchior. Entendi que nada importou mais nesta trajetória do que cultivar vínculos, criar conexões, construir pontes, amar e mudar as coisas, através do carinho, do afeto e do amor à medicina. 


A partir do medo de perder as pessoas e da insatisfação no meu coração de viver no que diziam ser o ‘novo normal’, comecei a viver além da medicina. Decidi que meu normal seria estar com as pessoas que amo, servindo outras pessoas que amo. Nasceu assim o ROD Pub & Parrilla, depois o Rosso Café & Cozinha, e a vida da nossa família foi seguindo assim, juntando pessoas.


Toda minha realização profissional está em ver as histórias que vivi até aqui, os amigos que ganhei, as pessoas de quem cuidei e a transformação que provoquei na vida da minha família. Eu enxergo tudo sob a ótica de que o importante é a jornada e a companhia. Fui abençoado com isso.


Fui supervisor médico do HC/UE de Ribeirão Preto, talvez um dos mais importantes hospitais de urgência do país, por quase oito anos, até que recentemente fui convidado a assumir a gerência médica no Hospital São Francisco, do grupo Hapvida. Sigo na coordenação da Infectologia e da equipe médica das enfermarias do Hospital Santa Lydia, com meu coração todinho depositado em ‘ensinar’, como docente de medicina na Idomed Estácio. Se amar e mudar as coisas me interessam, desconheço um modo tão profundo de viver isso que não seja através da educação.


Em 2026, meu projeto está focado na construção de uma plataforma de ensino para potencializar o aprendizado em Medicina para o internato, com lições que só aprendemos com gente de verdade e ao cuidar de gente que gosta de gente, e com roteiros que facilitem a aprovação nas provas de residência médica.” 

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