Trabalho digno e saudável
Escritor João Augusto do Carmo lança o e-book “Nova NR-1 Avançada”, que analisa os impactos da nova NR-1 e os desafios relacionados à saúde mental no ambiente de trabalho
O cientista político, jornalista, empresário, poeta e palestrante João Augusto do Carmo acaba de lançar o e-book “Nova NR-1 Avançada: o diferencial das Grandes Empresas para os Melhores Resultados”, obra que analisa os impactos da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) nas relações de trabalho. Em vigor desde 26 de maio, a nova regulamentação amplia a atenção das empresas aos chamados riscos psicossociais, incluindo fatores como estresse, burnout, assédio, metas excessivas e problemas de comunicação no ambiente corporativo. A obra combina orientações práticas para adequação à legislação com reflexões sobre liderança, gestão de pessoas, saúde mental e o perfil do novo trabalhador. Na entrevista, João Augusto analisa os impactos da nova NR-1 e defende uma transformação cultural nas empresas baseada em saúde mental, valorização humana e novas formas de liderança.
A atualização da NR-1 trouxe a obrigatoriedade de considerar os riscos psicossociais no ambiente de trabalho. O que o motivou a escrever um livro sobre esse tema justamente neste momento?
Desde menino, sempre gostei de ouvir, aprender e poder ajudar. Essa é minha motivação para qualquer coisa. Com este novo livro, é a vontade e o compromisso de ajudar com uma obra que explique os muitos porquês sobre a crise de saúde mental que atinge pessoas, famílias, empresas, nações. Estamos perdendo os significados mais simples e bonitos para a vida, em meio a tantas informações, a inúmeros estímulos, a maioria sem sentido, que vão nos desorientando, se não soubermos o que desejamos como objetivo. O e-book mostra isso, exemplifica como podemos produzir, no ambiente de trabalho, os melhores resultados, com ganhos para colaboradores, empresários e para a sociedade. Explico que não é possível, mais, pensar em uma empresa como algo apenas comercial. A vida precisa estar do lado de dentro da empresa. Não há por que considerarmos de outra forma. Amizade, boas conversas, boas emoções, realização, sentido, isso tudo precisa fazer parte, também, do lugar onde trabalhamos.
Com a sua experiência na atuação em gestão de pessoas, políticas públicas e liderança, quais experiências profissionais mais influenciaram a construção do conteúdo do livro?
Mesmo que a área acadêmica e os conhecimentos nos ajudem, as experiências profissionais, para mim, vêm um pouco depois da formação pessoal, humana. E aprendi com minha mãe, com meu pai, meus irmãos, com toda a minha família, amigos e amigas o que a vida quer nos dizer, o que vale a pena, de verdade. Fiz ciência política para entender como outros países construíram e realizam seus programas, suas formas de organizar a vida em sociedade. Aprender experiências bem-sucedidas para trazer para nossa realidade. O jornalismo me ajudou a conhecer os bastidores da política e dos governos, a ouvir a população de forma mais direta, em suas necessidades. Mas, veja só, creio que a literatura, principalmente a poesia, iniciou essa busca interior em mim. A vida é linguagem, o tempo todo, embora a maioria das pessoas nem imagine o que isso significa. Somos feitos de palavras. E por elas construímos nossa cultura, nossa forma de interpretar, de sentir e viver. E o trabalho está dentro da linguagem, porque ele é uma das dimensões da vida. E não a vida uma dimensão do trabalho.
Em vez de focar apenas nos aspectos legais da nova norma, o senhor propõe uma reflexão mais ampla sobre as relações de trabalho. Qual é a principal mensagem que deseja transmitir aos leitores?
É dizer que devemos nos ajudar, uns aos outros. É respeitar, antes de tudo, nossa condição humana. Quem volta para casa não é o auxiliar, o gerente, a vendedora, o professor, a médica. São pessoas, com necessidades humanas, com suas famílias, seus sonhos, suas necessidades legítimas. E não há como tirar as dores do ambiente de trabalho ao entrar em casa. A nova norma diz que o trabalho não pode ser fator de adoecimento do trabalhador. E está correto. Mas muitas lideranças não sabem como fazer isso. Não recebem treinamento, não foram formadas para a comunicação completa, plena, construtiva, para compreender como atribuir importância ao cargo de uma colaboradora, fazendo com que essa funcionária passe a enxergar significado e propósito no que faz. O ser humano faz tudo melhor quando consegue enxergar sentido no que está realizando. Não vejo nenhuma lógica em esperar dar o horário de saída do emprego para uma pessoa poder se sentir feliz.
O senhor defende que empresas podem transformar as exigências da norma em oportunidades de crescimento. Na prática, como essa mudança pode gerar benefícios tanto para empregadores quanto para colaboradores?
É um processo em que todos os lados ganham: colaboradores, empresários, sociedade e o país. A baixa qualidade de vida custa muito caro a qualquer nação. E as mudanças precisam acontecer em todas as áreas. Agora, com a nova NR-1, o trabalho pode ser o fator de uma transformação jamais vista. Mas normas, sozinhas, não nos transformam. Por isso, considerei fundamental mostrar uma visão mais ampla, com conhecimentos e orientações que não estão à vista, no nosso dia a dia, com facilidade, justamente porque estamos sobrecarregados de informações, imagens, estímulos, que drenam nossa capacidade de pensar e refletir com clareza. O livro mostra como a nova NR-1 pode ser encarada como uma oportunidade estratégica para as empresas. Quando encontram respeito, reconhecimento e segurança, os trabalhadores desenvolvem maior engajamento, aprendem melhor e contribuem mais para a inovação e os resultados da empresa. Quando há reconhecimento e confiança, os profissionais tendem a se dedicar mais aos objetivos da organização. Como consequência, a empresa fortalece sua marca, atrai talentos e obtém melhores resultados. Os benefícios ultrapassam os limites do ambiente corporativo, alcançando famílias, comunidades e a sociedade, contribuindo para uma cultura mais saudável e colaborativa.
O senhor transita por diferentes áreas, como jornalismo, ciência política, educação, poesia e consultoria. De que forma essa trajetória multidisciplinar contribuiu para sua visão sobre o futuro do trabalho?
Gosto de pensar, de refletir, sobre como compreendemos a vida e por que interpretamos de determinadas maneiras. Então, sempre busquei as formas de linguagem de cada área por onde passei, de cada ambiente, que refletem um campo maior sobre a experiência humana, com pontos de vista de pessoas que passaram por escolhas diferentes, que aprenderam e construíram conhecimentos diferentes e têm para si crenças diferentes. Esse conjunto de oportunidades me forneceu mais elementos para uma análise mais aprofundada, diversa e múltipla sobre as perspectivas para o futuro do trabalho. Costumo dizer que a vida é o que falamos sobre ela. Se deixarmos de discutir valores como ética, responsabilidade, comprometimento, colaboração e educação, eles tendem a perder espaço em nossos pensamentos e atitudes. Por isso, é importante debater as transformações do mundo do trabalho, especialmente diante de fenômenos como o aumento da rotatividade, dos pedidos de demissão e dos afastamentos profissionais. Precisamos construir novos significados para o ato de trabalhar. O exemplo é fundamental, mas ele nasce das ideias, das conversas, das referências que escolhemos ouvir e valorizar. As palavras moldam nossa forma de interpretar a realidade e influenciam diretamente nossos comportamentos. Por isso, acredito que seja necessária uma nova linguagem para o trabalho e para a vida, capaz de refletir os desafios e as expectativas do nosso tempo.
O livro fala sobre o “perfil do novo trabalhador” e a necessidade de uma nova linguagem corporativa. Como o senhor acredita que as empresas precisarão se adaptar para atrair e reter talentos nos próximos anos?
Existem algumas plataformas de emprego em que o trabalhador avalia a empresa pela qual passou. E isso é o oposto do que era há alguns anos. Antes, só o currículo do trabalhador era analisado. Agora, as empresas também são avaliadas, não só por clientes, mas por profissionais, ex-funcionários. E empresas mal avaliadas não atraem bons profissionais. A internet e as redes sociais criaram uma nova linguagem sobre as relações sociais, políticas, trabalhistas, econômicas, familiares, pessoais. Não há mais referências, o que pode parecer ilógico num primeiro momento. Porque o que produz essa falta de referências, de orientação, é justamente há quantidade infinita de “supostas referências” para cada assunto, e isso gera grande dificuldade e angústia em escolher uma direção e a quem seguir. Então, as pessoas mudam de ideia com facilidade, trocam de emprego rapidamente, porque o valor de entrar num emprego e ficar até se aposentar não existe mais. Esse símbolo já não está em vigor para as novas gerações. E isso é linguagem. Se boa ou ruim, é uma nova forma de interpretar. A possibilidade de empreender como motorista de aplicativo ou vender algo pela internet também contribui para a decisão de pedir demissão. O que se busca hoje é equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, um ambiente saudável, com diálogo, respeito, reconhecimento e espaço para aprender sem medo de punições. Por outro lado, o trabalhador também precisa compreender que empresas têm regras, metas e responsabilidades. Crescer profissionalmente exige dedicação, estudo e aperfeiçoamento. O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio entre empregador e empregado. É dessa relação, baseada em transparência, ética, compromisso e responsabilidade, que surgem organizações fortes e sustentáveis.